Histórias das Copas

28 de junho de 2018 10:14

Ditadura e política no futebol brasileiro

↑ Mário Lima - jornalista, escritor e pós-graduado em Jornalismo Esportivo

C om 13 anos, assisti pela TV, com imagens ainda chuviscadas, na primeira transmissão a cores, ao Brasil ser tricampeão no México, em 1970, com uma das melhores seleções brasileiras de todos os tempos. Do goleiro ao ponta-esquerda, todos sabiam de cor o time: Félix, Marco Antônio (Everaldo), Brito, Piazza, Carlos Alberto, Clodoaldo, Jairzinho, Gerson, Tostão, Pelé e Rivelino.

Enquanto o estádio Azteca tremia, com a vitória por 4 a 1 sobre a Itália, no Brasil a ditadura do general Emílio Garrastazu Médici se arrastava em uma profunda crise econômica. Porém, depois do tri, enquanto nos porões da ditadura os militantes da esquerda brasileira eram torturados, mortos e desaparecidos, do outro lado a euforia tomava conta do país, como gritava o refrão da música ufanista: 90 milhões em ação/ pra frente Brasil/ Salve a Seleção!

A ditadura iria recrudescer, em seu período mais nebuloso, chamado de anos de chumbo. Mas chegou o Milagre Econômico, com a economia voltando a crescer, apesar da desigualdade que até hoje impera no país.

O tricampeonato no México me despertou a paixão pelo futebol, já vislumbrava e intuía sobre o mundo da bola no Brasil e no mundo. Virei um boleiro de primeira, já era botafoguense de carteirinha, tendo com ídolo a verdadeira Estrela Solitária, Manoel dos Santos, o Mané Garrincha, sem saber que muitos anos depois, em 2014 – na Copa do Mundo no Brasil – lançaria um livro em sua homenagem: Mané Garrincha, a Flecha Fulniô das Alagoas, sobre suas raízes alagoanas. Seu pai, o índio fulniô Amaro dos Santos, nascera em Quebrangulo.

O estudo foi também uma forma de trazer à tona, para as novas gerações, a importância de Mané Garrincha como síntese desse futebol “de delícias”, como disse Armando Nogueira, que tornou o Brasil hegemônico no mundo.

Nelson Rodrigues, um dos cronistas esportivos mais importantes da história do futebol brasileiro, visionário e fã número um de Garrincha, já previa como o Brasil trataria seu herói.

“Somos um povo de tão pouco amor, e com tal destino suicida, que na primeira esquina tratamos de esquecer o herói que nos restava. De 1966 para cá, Garrincha foi mais irrelevante, mais secundário, mais apagado do que um cachorro atropelado.”

Naquele tempo já estava de olho no contexto futebolístico da época, situada entre o auge do futebol brasileiro, a chamada Era de Ouro do futebol-arte (os mundiais de 1958, 1962 e 1970), e o declínio, com a politização do futebol, que se transformou em instrumento político durante a ditadura militar (1970-1986).

As melhores seleções da nossa história eram formadas por atletas que disputavam os campeonatos nacionais da época – a Taça Brasil (1959 a 1968) e Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1967 a 1970), e o início do Campeonato Brasileiro. O êxodo de futebolistas nacionais para os mercados do exterior ainda engatinhava, e só começaria de fato no final dos anos 1989, mas desde 1920 que jogadores brasileiros já arriscavam sua carreira no exterior.

Muita história foi contada, comentada, comemorada pelos brasileiros, mas também com muita tristeza e decepção. Afinal, após o tricampeonato do México, a seleção brasileira amargou 24 anos sem ao menos chegar a uma final de Copa (1974, 1978, 1982, 1986, 1990),  até acabar o jejum em 1994, com o tetracampeonato nos Estados Unidos.

Os participantes do Campeonato Brasileiro eram indicados por convite da ainda Confederação de Brasileira de Desportos (CBD), e não por critérios técnicos. Naquela época, ficou famosa a frase que se popularizou: “Aonde a Arena vai mal, um clube no Nacional”.

A Arena era o partido oficial do Governo, e o MDB, de oposição controlada. O resultado dessa política e os votos garantidos nas eleições incharam o Brasileirão, que chegou a ter setenta participantes, que contribuiu ainda mais para o declínio técnico do futebol brasileiro.

Um dos mais importantes livros sobre o amálgama de futebol com a política, História Política do Futebol Brasileiro (1981), do professor e historiador Joel Rufino dos Santos, traça um paralelo entre os dois assuntos.

Para Rufino, a partir de Copa da Argentina, em 1978, uma crise de identidade abala o futebol brasileiro. Já naquele tempo, a crônica trazia à tona temas de pessimismo e amargura: “Nunca mais teremos uma seleção como a de 58”, “depois de Pelé o futebol do Brasil acabou”, “os europeus evoluíram e nós estagnamos”, “já não aparecem mais craques como antigamente”, “hoje os jogadores ganham demais e não têm amor à camisa”.

A militarização do futebol é quem dava as cartas. Quem mandava no futebol brasileiro eram os militares: o capitão do Exército Cláudio Coutinho era o técnico da seleção, e o almirante Heleno Nunes estava no comando da Confederação Brasileira de Desportos (a CBD, que viria a ser a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Isto provocou a ira de muita gente, inclusive de cartolas: “A causa principal da decadência de nosso futebol é a militarização. Temos que voltar, o quanto antes, ao poder civil do futebol”, afirmou na época o presidente do Fluminense, Francisco Horta, em outubro de 1978.

“Tinham transformado o jogador brasileiro em um cumpridor de ordem, desprezando seu talento e violando suas tradições. O futebol-arte e a maravilhosa molecagem do futebol foi trocada por sua capacidade de movimentação, em táticas cumpridas à risca, como régua e compasso, e termos esdrúxulos como overlapings e pontos futuros”, escreveu Rufino em seu livro.

* É jornalista, escritor e pós-graduado em Jornalismo Esportivo

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