Histórias das Copas

27 de junho de 2018 12:11

Saga da camisa 10 azul de Pelé

↑ Lauthenay Perdigão com a camisa que foi a leilão que ganhou do amigo Dida, dada como relíquia de Pelé logo após o jogo da final que consagrou a primeira Copa do Brasil, em 1958

A luta do jornalista e escritor Lauthenay Perdigão para manter o acervo do Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa, inaugurado em 1993, chegou a ter lances espetaculares nos bastidores do futebol. Em uma de suas maiores crises, em 2004, com o Museu Dida fechado por situação precária, Lauthenay teve que retirar todas as peças para não perdê-las, quando a sede, no Rei Pelé, sofria com constantes inundações.

Foi quando Lauthenay recebeu o apoio da família do jogador Dida, ao concordar com a venda da principal relíquia do museu: a camisa azul, número 10, que Pelé usou na final da Copa de 1958, contra a Suécia, quando marcou dois gols, inclusive aquele da meia lua sobre o beque dentro da área, um dos mais bonitos de todas as Copas. Foi uma decisão difícil. A camisa tinha sido dada ao jogador alagoano Dida, que era seu reserva imediato, após a vitória de 5 a 2 do Brasil sobre a Suécia.

Dida passou a relíquia para seu irmão Edson, que, algum tempo depois, doou o uniforme ao museu que leva o nome de seu irmão e foi inaugurado há 25 anos. A camisa azul tem a marca Idroff, o número 10 amarelo atrás e o escudo da CBD (Confederação Brasileira de  Desportos), antecessora da CBF, na frente.

Mas o fato está noticiado nos jornais da época, em 21 de setembro de 2004, na Casa Christie’s de Londres. A peça foi comprada por um colecionador privado por 105 mil dólares, o equivalente na época a 300 mil reais. Em entrevista aos jornalistas Mário Lima e Bartolomeu Dresch, para o vídeo-documentário Memorial da Imprensa Alagoana, de 2011, as revelações de Lauthenay – publicadas pela primeira vez neste número de estreia do “Histórias das Copas” – mexe com o imaginário do leitor. Ele fala de forma dramática como teve que vender a camisa, e chega até ao arrependimento. Não foi fácil.

Quais são as joias da coroa que você tem aqui?  O que você pode dizer: eu tenho a camisa do Pelé! Ah! eu tenho a camisa do Garrincha.

Lauthenay – Normalmente não me arrependo do que faço, porque quando vou fazer sempre penso naquilo que faço. Quando era cronista sempre me colocava no lugar da pessoa, pra não agredir, sempre falava sobre o árbitro, por exemplo, sempre dizia que quem errou foi árbitro e não o homem. Fiz uma coisa que ainda hoje me arrependo, que foi a venda da camisa do Pelé daquela Copa de 58 que o Dida me deu. Passei sete meses com o museu fechado, porque com a inundação que teve, era água saindo pela porta. Peguei tudinho, botei no carro e fui embora.

Como foi a venda da camisa do Pelé? E por quanto vendeu?

Lauthenay – Foi onde aconteceu. Olhe, só tem um jeito de conseguir, qual é a peça que você tem do museu?  É a camisa do Pelé. Essa camisa do Pelé vale muito. Você vendendo, me diziam, pode até fazer outro museu em qualquer lugar do mundo. Eu pensei: a camisa do Pelé da Copa de 70 foi vendida por R$ 700 mil. Foi quando começou uma série de problemas; eu não sabia inglês pra conversar com o pessoal lá da Christie’s. Tive que arranjar uma pessoa, depois de algum tempo a camisa terminou indo pra lá, mas foi quando senti que o negócio não estava bem.

Na casa de Leilão?

Lauthenay – Na casa de leilão em Londres, antes de ela ser leiloada, eu já comecei a me arrepender. Porque aí tinha a família do Dida, claro que com direito a um pedaço do dinheiro. Tivemos dois advogados pra resolver os problemas, um no Rio e outro aqui em Maceió. Teve o Imposto de Renda, que foi R$ 37 mil. Aí eu disse, sabe de uma coisa, não quero vender não, procurei conversar com o pessoal da Christie’s pra eles devolverem a camisa Eles disseram que devolveriam, mas só diante de uma multa de R$ 200 mil. E ela foi vendida por R$ 201 mil, aí a decepção começou. Depois da divisão com a família, sobraram R$ 45 mil e uns quebrados pra o museu. Com o dinheiro comprei estantes, cadeiras, armários, ar condicionado e a televisão.

Mas o senhor tem outra do Pelé, não é?

Lauthenay – Sinceramente como desportista, acho que você não deve se arrepender, porque a sua causa, a sua intenção foi a melhor possível, não deu certo por motivos outros. Acho que foi uma tentativa de salvar algo pra o povo de Alagoas. Então a boa intenção supera esse tipo de problema. Mas o museu, pelo que a gente nota aqui, precisa se expandir. Já tentei algumas vezes.

Foto colorizada da seleção campeã de 1958 que formou com: Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Mauro e Gilmar; Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e Mário Américo

Infográfico mostra o lance em que Pelé dá um chapéu no zagueiro da Suécia, e faz um dos mais lindos gols de todas as Copas do Mundo

Artigo: Lauthenay Perdigão – Escritor, jornalista, desportista e ex-jogador de futebol, curador do Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa – Dida

 

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