Histórias das Copas

27 de junho de 2018 11:48

Graciliano Ramos “detona” chegada do futebol inglês

↑ Foto icônica de Graciliano Ramos em 1932, pelo famoso fotógrafo Guilherme Rogato

Em 1921, trinta anos depois de o futebol chegar ao Brasil – como esporte de elite – graças à maleta de Charles Miller, que trouxe da Inglaterra bola, camisas de time, uma bomba para encher o balão de couro e as regras do Football Association, o escritor alagoano Graciliano Ramos, então um jovem com 29 anos, desancou o futebol em um artigo publicado no jornal “O Índio”, que circulava em Palmeira dos Índios, mesma cidade onde seria eleito prefeito, alguns anos depois. Com o pseudônimo J. Calisto, Graciliano assinava uma coluna intitulada “Traços a esmo”, em que fazia comentários ácidos em geral.  No domingo de 10 de abril de 1921, ele escreveria Futebol é fogo de palha, que depois se tornou documento importante da história do futebol brasileiro. Será que ele mudaria de opinião, após ver o Brasil de Pelé e Tostão? Difícil dizer, mas, com certeza, não seria brando em seu estilo mordaz de escrever.

“Pensa-se em introduzir o futebol, nesta terra. É uma lembrança que, certamente, será bem recebida pelo público, que, de ordinário, adora as novidades. Vai ser, por algum tempo, a mania, a maluqueira, a ideia fixa de muita gente. Com exceção talvez de um ou outro tísico, completamente impossibilitado de aplicar o mais insignificante pontapé a uma bola de borracha, vai haver por aí uma excitação, um furor dos demônios, um entusiasmo de fogo de palha capaz de durar bem um mês. Temos esportes, alguns propriamente nossos, batizados patrioticamente com bons nomes em língua de preto, de cunho regional, mas por desgraça abandonados pela débil mocidade de hoje. Além da inócua brincadeira de jogar sapatadas e de alguns cascudos e safanões sem valor que, de boa vontade, permutamos uns com os outros, quando somos crianças, não temos nenhum exercício. Somos, em geral, franzinos, mirrados, fraquinhos, de uma pobreza de músculos lastimável.”

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