Esporte

16 de setembro de 2017 14:00

Caderno Ídolos homenageia a enciclopédia do esporte alagoano, Lauthenay Perdigão

Nos 200 anos anos de Alagoas, não existiria arquivo do esporte se não existisse Lauthenay Perdigão

“Movido a carinho”. Não por acaso, estas são as palavras cravadas em uma maquete exposta no hall e que podem ser vistas por quem visita o Museu dos Esportes, localizado no Estádio Rei Pelé, no bairro do Trapiche da Barra, em Maceió.  E nesses 200 anos de Alagoas, o esporte não seria o mesmo por estas plagas se não houvesse entre nós alguém que guardasse com tamanho carinho e devoção os arquivos dos ídolos do esporte bretão e de outras modalidades.

Em suma, não haveria arquivo do esporte na Terra dos Marechais, que agora chega ao seu Bicentenário, se não houvesse Lauthenay Perdigão, que chegou no último dia 27 de agosto aos 83 anos de vida e faz jus a este registro do Caderno Ídolos, desta Tribuna Independente.

Por isso, memória do esporte em Alagoas, tens um nome: chama-te Lauthenay Perdigão. Dez em cada dez pessoas – seja curioso, “especialista” do esporte ou não –, não pode prescindir do palpite do mestre do arquivo. Há anos, sempre o chamam para comentar, lembrar ou dar uma entrevista sobre o tema.

(Foto: Sandro Lima)

O bom de tudo isso é que todos – especialistas ou não no assunto – têm à disposição para consultas – além da privilegiada memória do mestre Lauthenay – um arquivo de cerca de dez mil fotos, mais de 400 camisas ligadas aos mais variados esportes, cerca de seis mil reportagens (de revistas, jornais, TV, rádio ou internet) e as mídias contemporâneas, sem contar outras formas de arquivos guardados a sete chaves por “Seu Lau” – como também é carinhosamente chamado por admiradores. À disposição ainda dos ávidos por esporte os velhos LPs (bolachões), CDs e cerca de 40 bolas e escudos de todos os esportes.

O arquivo montado por Lau desde 1947 só se tornou sonho real de museu quando se materializou no ano de 1993, numa sala contígua ao Estádio Rei Pelé, depois de muita luta, por ocasião da primeira grande reforma do estádio. É lá onde atualmente se encontra o Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa, uma homenagem ao amigo Dida, futebolista alagoano contemporâneo de Pelé na seleção brasileira de 1958, ídolo de Zico e segundo maior artilheiro da história do Flamengo-RJ.

Em função de tudo isso e mais algumas coisas, a melhor forma de homenageá-lo – acredita a equipe do Ídolos  – seria relembrar um pouco de sua longa trajetória dedicada a guardar a memória e os arquivos implacáveis do esporte (como Lauthenay gosta de chamar suas lembranças e relíquias).

A VIDA, O ZEPPELIN E A PAIXÃO, NASCE O ESPORTISTA

Lauthenay Perdigão nasceu em 27 de agosto de 1934, em Maceió. Filho de João Lopes do Carmo e Maria Benedita Perdigão, passou sua infância sem maiores problemas, no Centro de Maceió. Seu pai era gerente do famoso Bilhar do Comércio e tinha que ficar até altas horas cuidando do carteado e das bolas de sinuca. Levava para os filhos – que já eram cinco: os irmãos Lauthenay e Manfredo, e as irmãs Marlene, Marluza e Marli – gibis com heróis de história em quadrinhos. “Quando eu e meu irmão acordávamos estava lá o gibi na nossa cabeceira”.

Lauthenay Perdigão como jogador do CSA (Foto: Arquivo pessoal)

FUTEBOL ROMÂNTICO

A família viveu o medo da Segunda Guerra Mundial, em uma época de bombardeio de navios, e a passagem de zeppelins pelos céus de Maceió; havia palmatória e castigo no colégio, até sua chegada ao Diocesano e o Guido de Fontgalland. “Foi nessa época que formamos um grupo de jovens e logo tínhamos um time, o Tiradentes, que marcou com brilhantismo o futebol alagoano. Uma equipe que tinha jogadores que se destacavam pela categoria”, lembra Lauthenay.

Em 1949, a família quase se torna vítima das chuvas que destruíram parte do Centro de Maceió. No início dos 50, já apaixonado pelo futebol, ouviu pela Rádio Nacional o Brasil perder a Copa do Mundo, no conhecido Maracanazzo, em que a Seleção Brasileira perdeu do Uruguai, em plano Maracanã. “O Ademir era o meu maior ídolo. Depois das vitorias contra a Suécia (7X1) e Espanha (6X1), estava preparado para soltar o grito de campeão. Não esqueço quando Antonio Cordeiro, narrou o gol de Ghiggia (atacante uruguaio) disse – Gol de Ghiggia – oito vezes e depois completou – não acredito!”.

Nos anos 50, e o início da coleção dos seus arquivos, ao folhear a Manchete Esportiva: nascia a Enciclopédia do Futebol (Foto: Arquivo pessoal)

Terminado os estudos no Guido, passou uma boa fase jogando pelo juvenil do Tiradentes, depois pelo CSA. Passou em um concurso público para o Banco do Nordeste, onde só saiu aposentado. Iniciou muito cedo sua carreira de sucesso na imprensa, quando começou a escrever para o Diário de Alagoas e ingressou na Rádio Progresso.

Lauthenay viveu um tempo em que não havia profissionalismo no futebol, não existia o Estádio Rei Pelé – só construído em 1970 com a ajuda indispensável de Lauthenay – ; os jogos eram no Mutange e na Pajuçara.

Sequência de fotos da inauguração do Trapichão: Pelé saudado efusivamente pelos alagoanos no dia da inauguração no estádio que leva seu nome, no dia 25 de outubro de 1970, é uma das atrações guardadas no Museu dos Esportes, cuidado por “Seu Lau” (Fotos: Cortesia / Museu dos Esportes)

AMIGOS DE FÉ, IRMÃOS CAMARADAS, A HOMENAGEM DE QUEM JÁ SE FOI…

Para a edição deste material especial, Lauthenay Perdigão fez apenas um pedido, que para o editor soou como uma exigência de um Mestre. “Gostaria que você registrasse os depoimentos de dois grandes amigos: o do doutor Alfredo Bastos e do Dida”. O primeiro foi presidente do CSA e, o segundo, brilhou intensamente com as camisas do CSA e Flamengo-RJ, nos anos 1950. Os dois já falecidos.

(Foto: Sandro Lima)

DEPOIMENTOS DE ALFREDO BASTOS E DIDA, AMBOS EGRESSOS DO SEU CSA, AINDA EMOCIONAM SEU LAU

O depoimento de Alfredo Ramiro Bastos, técnico do CSA em 1952, foi para o Museu dos Esportes, em março de 1991.

“Estou me confrontando, agora, com um jogador que é o Lauthenay Perdigão, que, na época, tinha uma característica tão interessante, que mereceu o codnome de futebol, que ficou inesquecível para mim e todos aqueles que privaram (sic) com ele. O Lauthenay Perdigão era chamado de O Cabecinha de Ouro. Porque, efetivamente, eu nunca vi, lá fora não tive oportunidade, digamos, em nossa terra, quando eu acompanhava e gerenciava o futebol, que manipulasse judiciosamente a cabeça, fazendo o que queria tão bem como o Lauthenay. Ele fazia jus ao codnome. É uma oportunidade que tenho para fazer menção a um quadro de futebol que ele fazia parte e que foi extraordinário e está aqui representado pelo Lauthenay Perdigão.”

O eterno amigo Dida, jogando pelo Flamengo, cabeceia bola em jogo contra o Vasco: amizade para  sempre que emociona Seu Lau até os dia de hoje (Foto: Cortesia / Museu dos Esportes)

Já o de Dida foi em entrevista na Rádio Difusora de Alagoas, com o radialista Reinaldo Cavalcante, em 1993.

“O Lauthenay foi a pessoa que tinha fé no meu futebol. Ele ajudava e, às vezes, eu pensava: ‘será que sou tudo isso que esse cara diz. O Lauthenay é meu amigo de muito tempo atrás. Quando eu chegava aqui, era Dida pra lá, Dida pra cá, com Lauthenay sempre procurando, catando dados e fazendo reportagens. Faço um menção ao Lauthenay pela dedicação dele em relação a minha pessoa.”

Lau entrevista o eterno capitão Bellini, do Vasco, na época de ouro do rádio alagoano (Foto: Arquivo pessoal)

O HOMEM QUE GUARDA UM CANTINHO CHAMADO SAUDADE

Durante todo este tempo que mantém a chave do tesouro do esporte em Alagoas, Lauthenay Perdigão criou por lá um espaço sagrado que mantém até hoje e por onde desfilaram figuras destacadas do esporte internacional, como o alagoano Mário Jorge Lobo Zagallo; a Enciclopédia do Futebol, Nilton Santos; e os ídolos Joãozinho Paulista, Silva, ex-CRB; Jacozinho e Rommel, ex-CSA; só para ficar nesses.  O Cantinho da Saudade é um projeto dentro do Museu dos Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa para homenagear atletas, dirigentes, cronistas e desportistas e figuras também pouco lembradas.

Lauthenay entre os craques Silva e Dida, no Museu dos Esportes, onde também criou o Cantinho da Saudade (Foto: Arquivo pessoal)

“Iniciamos com apenas um personagem, já falecido. Foi o Hélio Miranda, em junho de 1996. Na segunda edição, também tivemos apenas um saudoso desportista, o Wassil Barbosa. E acontece um fato interessante. Conversando com o grande zagueiro Miguel Rosas, ele me perguntava em tom de brincadeira – Eu só vou ser lembrado quando morrer? Daí em diante começamos a homenagear dois personagens. Um vivo e um falecido. E começamos com a dupla de amigos: Zequito Porto (falecido) e Geraldo Mota”, lembra.

Seu Lau em dois momentos com o alagoano ilustre Zagallo, no Museu: na inauguração em 1993 e no Cantinho da Saudade, em 2006 (Fotos: Arquivo pessoal)

Em 2012, por problemas de refrigeração no museu, o projeto foi interrompido. Somente este ano é que retornou. E na edição mais recente, os primeiros homenageados foram os jogadores do CSA tetracampeões dos anos 1960. O evento ocorreu no mês de maio. “Neste mês de setembro, no dia 25, no museu, às 20 horas, teremos mais um Cantinho da Saudade. O grande goleiro Filho e o saudoso cronista esportivo Jurandir Costa serão os homenageados”, anuncia Seu Lau.

PERSISTÊNCIA MANTÉM CHAMA ACESA

A partir dos anos 1980, já usando de novas tecnologias como o videoteipe, começou a enriquecer seus arquivos. Daí foram surgindo projetos inovadores e duradouros, como o Cantinho da Saudade, que até hoje é mantido por Lauthenay, com visitas de grandes craques ao museu Dida, para contar suas vidas.

Lauthenay Perdigão observa construção do Estádio Rei Pelé em 1969 (Foto: Arquivo pessoal)

Somente no início da década de 1990, que Lauthenay conseguiu apoio do governo, na gestão de Geraldo Bulhões, durante uma reforma no estádio Rei Pelé.  O começo foi difícil, a sequência também não foi das melhores, com o museu passando por fases críticas para sua manutenção, mas hoje o museu segue sobrevivendo, sob a guarda incansável do mestre.

Em 2004, com o Museu Dida fechado por situação precária, Lauthenay teve que retirar todas as peças para não perdê-las. Foi quando teve a ideia, com a família do jogador Dida,  de vender a principal relíquia do espaço: a camisa azul, número 10, que Pelé usou na final da Copa de 1958, contra a Iugoslávia, quando marcou dois gols, inclusive aquele da meia lua sobre o beque dentro da área, um dos mais bonitos de todas as Copas. Foi uma decisão difícil. A camisa tinha sido dada ao jogador alagoano Dida, que era seu reserva imediato, que, ao morrer, entregou à sua família. Os filhos decidiram doar a camisa ao museu. Mas o fato está noticiado nos jornais da época. Em 21 de setembro de 2004, na Casa Christie´, de Londres, a peça foi comprada por um colecionador privado por 105 mil dólares, o equivalente à época a R$ 300 mil. “O museu sofria com as infiltrações, estava fechado e cheio de mofo. Para reabri-lo, o caminho que restou foi levar a leilão. A família ficou com uma parte e para o museu não sobrou muita coisa. Foram muitos impostos e taxas, mas de 50% a menos do valor. Mas o museu tem outra camisa original do Pelé, no Santos, e essa não vai sair daqui”, depoimento de Lauthenay aos jornalistas Mário Lima e Bartolomeu Dresch, em Memória da Imprensa Alagoana.

O olhar dos amigos sobre o Mestre

Lauthenay: um homem chamado futebol

Por Mário Lima*

A memória do esporte em Alagoas tem um nome: Lauthenay Perdigão, jornalista, radialista, escritor, maior conhecedor da história do futebol alagoano, e fonte número um para jornalistas esportivos. Nos mais de 80 anos dedicados à memória do esporte, principalmente o futebol, a juntar histórias e registros, é preciso conhecer as outras faces de Lau como jogador de futebol, cronista esportivo, construtor do Estádio Rei Pelé, no fim dos anos 1960; fundador do Museu dos Esportes Dida; promotor do futebol infantil dente de leite; e exímio entrevistador, como o famoso bate-papo com o capitão Bellini, campeão de 1958 na Suécia, pelo Brasil.

Ele hoje, com 83 anos, mais disposto que nunca, é diretor e curador do Museu de Esportes Edvaldo Santo Rosa, nome do atacante alagoano Dida, seu amigo, e campeão do Mundo em 1958 e artilheiro no Flamengo antes da era Zico. Além da privilegiada memória, ele está sempre presente ao museu para mostrar seus tesouros. São mais de 10 mil fotos, 400 mil camisas de clube, de todas as épocas, seis mil reportagens (de revistas, jornais, TV, rádio ou internet).

Lauthenay Perdigão nasceu em 27 de agosto de 1934, aqui em Maceió. Seu pai era gerente do famoso Bilhar do Comércio, e tinha que ficar até altas horas cuidando do carteado e das bolas de sinuca. Levava para os filhos – que já eram cinco: os irmãos Lauthenay e Manfredo, e as irmãs Marlene, Marluza e Marli – gibis com heróis de história em quadrinhos. “Quando eu e meu irmão acordávamos estava lá o gibi na nossa cabeceira”.

Em 1949, a família quase se torna vítima das chuvas que destruíram parte do Centro de Maceió; no início dos 50, já apaixonado pelo futebol, ouviu pela Rádio Nacional o Brasil perder a Copa do Mundo, no conhecido Maracanazzo, em que a Seleção Brasileira perdeu do Uruguai, em plano Maracanã.

Terminado os estudos no Guido, passou uma boa fase jogando pelo juvenil do Tiradentes, depois pelo Centro Sportivo Alagoano (CSA), passou em um concurso público para o Banco do Nordeste, onde só saiu aposentado. Começou muito cedo sua carreira de sucesso na imprensa, quando iniciou a escrever para o Diário de Alagoas e ingressou na Rádio Progresso.

Lauthenay viveu um tempo em que não havia profissionalismo no futebol, não existia o estádio Rei Pelé – só construído em 1970 com a ajuda indispensável de Lauthenay – ; os jogos eram no Mutange e na Pajuçara.

“Era um futebol romântico, que não precisava o jogador sair e ir pra o vestiário pra ouvir treinador. Muitas vezes os jogadores do CSA e CRB iam conversar com as namoradas, com as esposas, com os amigos, iam para a grade, no alambrado, tinha grade que era curtinha, ia lá e ficava conversando. Todos os jogadores eram de Maceió, de Alagoas, também não tinha esse problema de está com gente de fora, acabou o jogo, dentro do campo, se procurava vencer de qualquer jeito, dentro da lealdade. E depois iam no clube Fênix, no Iate, no CRB, iam para os bailes, paras festas. O Dida e o Claudinho jogavam futebol na praia dia de domingo, ficavam jogando, até 10 horas da manhã na praia. Ali tinha um racha no Salgadinho. Eles ficavam jogando, quando dava assim dez e meia, Claudinho ia para casa dele e o Dida vinha para a Rua do Hospital, onde ele morava, tomava banho, comia uma coisinha, ai pegava a chuteira e ia jogar o clássico do domingo”, depoimento de Lauthenay Perdigão aos jornalistas Mário Lima e Bartolomeu Dresch, em Memória do Jornalismo Alagoano (2004).

Em 1958, Lauthenay ingressa na Rádio Progresso, onde encontrou um grande time de talentos, personagens que encontraria depois em sua longa caminhada de jornalismo esportivo, e que também se tornaram ícones do rádio alagoano, como Edécio Lopes, Flaracy Cavalcante, Sabino Romariz, Jorge Vilar, Cláudio Alencar e Ronand Benamor.

Um ano após a inauguração da Rádio Gazeta de Alagoas, em 1961, integrou o primeiro departamento de Esportes da rádio, como diretor de jornalismo, que tinha astros do esporte como Chico Magalhães, Jáder Cabral, Vagner Novaes, Sabino Romariz e Jorge Vilar. Lauthenay criou um programa que fez história na rádio esportiva alagoana, o Ora Bolas. Todos os domingos, entrava no ar a grande programação esportiva para a transmissão dos jogos, com Jurandir Costa, Jorge Lins, Raimundo Nonato, Juarez Correia, Francisco Magalhães, Antonio Avelar, Reinaldo Cavalcante, Zequito Porto, Wassil Barbosa, Edson Mauro, entre tantos outros que eram as vozes do futebol.

Depois, já na rádio Difusora, Lauthenay fez sucesso com os programas “A vida de Craque”, “Não chame o juiz de Ladrão” e “Arquivos Implacáveis”. Os “Arquivos Implacáveis” viraram livro e uma coluna jornalística que durou mais de trinta anos, uma das mais longevas na história do jornalismo alagoano, apresentada em vários jornais locais.

Nos anos 1970 e 1980, Lauthenay se dedica ao jornalismo impresso, formando a chamada geração de ouro do extinto Jornal de Alagoas, onde estavam as estrelas do jornalismo naquele tempo, que mesclava jovens como Válter Oliveira, Amauri Soares, Jurandir Queiroz, José Otávio da Rocha, Oliveira Júnior, Bezerra Neto, o saudoso Zito Cabral, e os mais experientes, como Ricardo Neto, José Aldo Ivo, Hélio Jambo, Amauri Soares, José Otávio, Otávio Lima, Carivaldo Brandão, José Lima, Amoldo Jambo, Hélio Nascimento, Rubens Jambo, José Machado, Adelmo dos Santos e Arlindo Tavares. Lauthenay foi protagonista de grandes mudanças na imprensa, principalmente na transição do jornalismo romântico para o profissionalismo, sempre deixando marcas interessantes.

(Foto: Sandro Lima)

COM A PALAVRA: LAUTHENAY

Guardião dos tesouros do futebol. “O Museu me dá forças É isso mesmo. Já passei aqui períodos muito ruins que pensei desistir, mas a minha família não deixava. Não, não vai. Você vai continuar lá. Isso a gente passa por cima. Não tem problema. Mas, quando chegam os turistas aqui que conversam que diz que é bonito. O pessoal tira fotografias. As escolas, que vem pra cá, os meninos que vem pra cá, que a gente senta ali e fica conversando com eles, eles fazendo aquelas perguntas gozadas pra gente responder. Enfim, isso deixa a gente feliz e com vontade de fazer mais. São mais de vinte anos que a gente praticamente tem aqui, e a gente a cada dia fica mais feliz, porque apesar dos pesares, apesar dos problemas, a gente está levando, eu tenho uma família maravilhosa, uma família que me ajuda muito nisso, me da todo apoio e não tem outro jeito. Tem que continuar”.

Os primeiros bate-bolas na imprensa. “Em 1957, tive uma oportunidade, eu não me lembro se foi o Jota Costa que me chamou para escrever no Diário de Alagoas, que ficava na Avenida Moreira Lima, então, eu fui pra lá e comecei a escrever alguma coisa sobre história do esporte, sobre história do futebol, porque, parece que dentro de mim tinha alguma coisa assim de como é que eu posso dizer… um repórter investigativo. Então, eu ouvia falar: O Jogo do Xaxado, o Jogo da Sofia, o tetra campeonato do CRB, eu ia nos jornais e procurava ali, pegava aquelas figuras que  participaram daqueles jogos, eu ia procurar onde eles estavam pra eles me contar aquelas histórias. Na época, eu gravava no K7, depois a gente começou a gravar em vídeo, mas, já é outra época, então, eu sempre tive esse cuidado de voltar ao passado, e procurar as coisas que tinham por lá, pra gente trazer aqui pro futuro”.

A turma pioneira do esporte, “Na Rádio Progresso, no Edifício Ary Pitombo, era uma espécie de foca, que tinha que arranjar as notícias, pra levar e datilografar. E quando eu cheguei lá, encontrei uma turma maravilhosa, Edécio Lopes, Floracy Cavalcante, Jorge Villar, Sabino Romariz, Claudio Alencar. Enfim, tinha um monte de gente que me ajudou muito e eu aprendi com eles, que eles estavam iniciando também, depois, se tornaram ícones no rádio alagoano, eu aprendi com eles e que eu também procurei ensinar aqueles que foram chegando depois de mim. Então, eu comecei assim, procurando as notícias, indo no CSA no CRB, atrás de notícias, ia de bonde, ia de ônibus, e três meses depois, o Geraldo Bulhões, que começou a gostar do meu trabalho, pediu que eu ficasse como chefe do departamento de esportes, e foi quando eu comecei a arrumar, e aquela mania de dentro do departamento ter fotografias em tudo quanto é canto, de gravar tudo, e fazer essas coisas todas”.

Tempos de ouro no futebol. “Olha, em 1959, veio pra cá, Fluminense, depois da Copa do Mundo, depois da Copa de 58, no começo de 59, veio o Fluminense, Botafogo, Flamengo, e esses clubes vieram aqui com os seus campeões do mundo. E eu entrevistei todos eles, havia muita facilidade naquela época. Hoje não. Mas, naquela época, eu chegava ao Parque Hotel, na portaria eu nem dizia que era repórter. Só bastava dizer assim: Eu quero conversar com o Castilho ou o Didi, o Pinheiro, e o Telê também. Aí o porteiro dizia peraí um minutinho. Aí telefonava pro quarto e dizia. “Olha, tem um rapaz aqui pra conversar com você”. Aí ele dizia: Mande subir. Aí eu subia, ele saia do quarto, tinha um lugar assim, meio reservado, aí a gente sentava e conversava. Hoje não. Hoje, a gente vai e só vê um monte de segurança, não deixa entrar, não pode conversar”.

* Mário Lima é jornalista e escritor alagoano, autor do livro Mané Garrincha A Flecha Fulniô das Alagoas – Mestiçagem, Futebol-arte e crônicas pioneiras; pós-graduado latu sensu em Jornalismo Esportivo pela Universidade Pitágoras; os trechos do artigo fazem parte do livro, ainda no prelo, Lauthenay Perdigão: Um homem chamado futebol, Contribuição para a História do Futebol Alagoano, de Mário Lima e Wellington Santos.

“Conheci Lauthenay Perdigão durante a apuração de uma reportagem para a Revista Graciliano, da Imprensa Oficial, que tinha como tema o futebol alagoano. Tímido, cheguei antes da hora marcada no Museu dos Esportes, espaço que ele criou e mantém com uma dedicação impressionante nas dependências do Rei Pelé. Eu ainda não o chamava de mestre, mas depois dos primeiros minutos de conversa, entendi o motivo da admiração que ele desperta nos esportistas, jornalistas, amantes do futebol em geral. Com um saber totalmente calcado na experiência pessoal, ele fala de esporte como um poeta fala de sua musa. Dois ou três encontros depois, não conseguia parar de chamá-lo Mestre, não como uma reverência sem sentido, mas por respeito e convicção. Ler seus escritos, percorrer com ele as dependências do pequeno e organizado espaço ou simplesmente admirar, de longe, o gramado do Rei Pelé, me inspiraram a escrever a matéria especial para a revista Graciliano. Tomei as palavras do Mestre e fiz um dos trabalhos que mais me orgulham como repórter e redator. E tudo isso motivado pela paixão de um homem que é a própria essência dos esportes em Alagoas.

Guilherme Lamenha, jornalista

“Lauthenay Perdigão é uma personalidade do desporto alagoano que merece nossa homenagem por sua história e por tudo que realizou e  empreendeu no mundo esportivo – e fora dele, também.  Um amante pelos esportes, logo cedo desfilou pelos gramados brasileiros toda sua habilidade como jogador de futebol. Depois, escolheu ser um dos mais brilhantes cronistas esportivos, transitando por vários prefixos do rádio alagoano, notadamente na Rádio Gazeta e Rádio Difusora, chegando a chefiar as equipes de esportes.

Não satisfeito com essa contribuição para a valorização do rádio esportivo alagoano, emprestou seu talento à entidade que reúne os cronistas desportivos de Alagoas, a ACDA, sendo contemplado com diversos cargos em diversas diretorias da entidade.  Profissional plenamente realizado na vida profissional fora do rádio, passou pelo Banco do Nordeste, ocupando importantes cargos até se aposentar para realizar, enfim, a plenitude, seu grande sonho: consolidar o Museu de Esportes Edvaldo Alves Santa Rosa.  Na vida pessoal, Lauthenay Perdigão é um exemplo de homem, chefe de família, pai e avô. E faz questão de demonstrar seu amor pela família e  pelos amigos. É só acompanhar suas publicações nas redes sociais para compreender como um jovem aos 83 anos consegue ser tão  contemporâneo.  E para concluir essas breves palavras sobre uma das maiores personalidades do mundo desportivo brasileiro, ouso discordar do lendário jornalista  Nelson Rodrigues, para quem “toda unanimidade é burra”. No caso do Lau, não. “Ele é uma unanimidade!

Gilberto Lima, radialista e membro da ACDA

“Ele sempre colecionou revistas, jornais, áudios e mostra a razão pela qual é a enciclopédia e a referência do esporte em Alagoas, principalmente o futebol. Nosso Estado tem o privilégio de ter um sujeito que dedicou grande parte de sua vida a isso, graças a sua persistência, inteligência e amor à causa. O resultado é o belo espaço que todos, do alagoano ao turista, têm para apreciar a cultura e a paixão pelo esporte”, assinala Márcio Canuto, jornalista da Rede Globo de São Paulo, amigo e colega de Lauthenay em inúmeros “escretes de ouro” do rádio alagoano.

Márcio Canuto, jornalista.

Fonte: Fonte: Tribuna Independente

Comentários

MAIS NO TH