Especial

30 de março de 2020 09:07

Artigo: Crime e castigo ou o bouquet de rosas

Por Geraldo Magela Pirauá*

Ex-professor de direito penal

 

Havia, fazia dois dias, que tinha terminado de ler o memorável romance de Machado de Assis, Quincas Borba, e, começado a ler Crime e Castigo do autor russo Dostoiévski. Ambos, quer Machado, no personagem Rubião, herdeiro da fortuna de Quincas Borba, quer Dostoiévski, na personagem de Rostólnikov, exploram a alma humana, no intrincado do existir, como poucos autores conseguem descrever. Lembro, por oportuno, o alagoano Graciliano Ramos que, em vidas secas, deu espírito a cachorra baleia, clássico da literatura brasileira.

Pois bem, explorava a natureza humana, buscando a resposta filosófica, desde Sócrates a Arthur Schopenhauer, sem antes observar Frederic Nitzsche e Inmanuel Kant, quem somos nós? Lendo crime castigo que, de forma cirúrgica, Dostoiévski descreve o conflito existencial e a miséria humana, quando, a campainha toca. Levemente irritado, suspendo a leitura, e vou até a porta. Eis a surpresa, em isolamento social, sem receber a visita de filhos e netos, recebo um buquê de flores.

Uma jovem com um largo sorriso e um lindo bouquet, com uma doce voz, ao me entregar, fez ver a existência de um cartão, sem antes afirmar que não deixasse de regar aquela rosas.

Confesso haver me arrependido da irritação de instantes. O sorriso e as flores me trouxeram à realidade da existência. Dei bom dia, fechei o portão e chamei minha esposa.

As flores , o sorriso, e a mensagem do cartão, por um bom tempo, me fizeram afastar da trama do livro do autor russo. Por um longo tempo, e tive que voltar posteriormente, não me dei conta que Raskólnikov, personagem central de crime e castigo, estudante pobre e desempregado, morando em um cubículo de São Petersburgo, tramava para matar a velha e agiota Ivana, sedenta por dinheiro e muito avarenta.

Sim, por um bom tempo, deixei aquela história densa, que fala do sofrimento e da avareza, da exploração e da desigualdade. Durante um longo tempo, no isolamento social imposto pelo coronavírus, li e reli a mensagem , contida no cartão do filho que expressava a opinião de todos eles, dizendo que o desejo era nos abraçar, mas que compreendesse-mos que, quando tudo passasse, o abraço seria mais forte.

Minha mulher chorou. Meus olhos marejaram. Nos comunicamos com todos e nos sentimos muitos felizes.
Entre o crime e castigo e o bouquet de rosas, fiquei com o bouquet de rosas e o abraço amoroso dos filhos.

Sim, o abraço amoroso dos filhos, mesmo que de forma virtual, porém de uma carga muito densa de afeto. Afeto que o homem moderno, cada vez mais carente, angustiado e depressivo, precisa.

É verdade, afirmam alguns filósofos, que o sofrimento é inerente no existir humano. Nitzsch tem este pensar. A literatura nos revela o sofrer. Mas não é menos verdade que o amor, em sua dimensão intrínseca, é o nirvana que desejamos.

O bouquet de flores, me fez esquecer crime e castigo, e me lembrar da força indomável do afeto e do amor.

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