Especial

1 de fevereiro de 2020 10:29

Delírios de vários carnavais

Exposição “Carnelevarium II - Prazeres da Carne” entra em cartaz no Complexo Cultural Teatro Deodoro, na próxima terça-feira (4), com trabalhos de 31 artistas visuais e faz homenagem a Pedro Tarzan, um dos mais emblemáticos personagens do Carnaval alagoano

↑ (Foto: Adriano Arantos / Divulgação)

Na Maceió da década de 80,  carnaval ainda era coisa séria. Os foliões contavam as horas para os dias de momo com bailes de clube, matinês recheadas de fantasias, preparativos, blocos de bonecos gigantes, festa de mela-mela, risadas, frevos, bumba meu boi, La ursa, marchinhas  e muitas festa pelas ruas. Eram dias de festa e de sorri com os olhos.

E uma dessas pessoas era o sergipano Pedro Ferreira Auta, morador do bairro da Jatiúca, com vendedor de ervas curativas nos dias normais, de semblante calmo, traços indígenas, caminhar lento e rosto de quem estava sempre a laborar um plano ou preparava um sorriso. Em dias de carnaval, o senhor  calado e com sonhos secretos de ser artista de cinema  se transformava em índio pele vermelha, sansão, Oxóssi, lampião,  mascarado com capa e assim entrou para o imaginário da cidade  como Pedro Tarzan, um ícone do carnaval alagoano.

E é justamente esse espirito do personagem da história de Maceió que a edição “Carnelevarium II – Prazeres da Carne”. Faz uma justa homenagem.  A abertura da mostra será nesta terça-feira (04), às 19h, no Complexo Cultural Teatro Deodoro, com entrada gratuita e curadoria de Levy Paz, a mostra traz trabalho de 31 artistas alagoanos. A mostra fica em cartaz até 27 de março e pode ser visitada de segunda a sábado, das 8h às 14h, e, aos domingos e feriados, das 14h às 17h.

Desta vez, Carnelevarium apresenta o dobro no número de participantes, entre fotógrafos e artistas consagrados, e também dá oportunidade a artistas iniciantes participarem desta celebração da alegria, arte e principalmente à liberdade. A exposição carnavalesca traz obras inéditas em sua maioria, em várias nuances da arte, tais como: fotografias, pinturas, esculturas, a instalações e desenhos.

Para Levy Paz, a homenagem é  necessária, justamente, pela relevância artística e contribuição ao carnaval de Maceió  de Pedro Tarzan. “Pedro Tarzan, por sua trajetória no carnaval ao longo de décadas, mesmo ele sendo sergipano, mas foi aqui que surgiu o brincante, o folião e que deixou sua marca nos carnavais de Maceió. E nesta segunda edição, a Carnelevarium homenageia essa pessoa, esse ícone, e que passa a ser uma constante nas próximas edições da Carnalevarium, ou seja, valorizar e relembrar sempre os artistas, os foliões, os carnavalescos que tem deixado sua marca, e nos motiva também a fazer arte, produzir muitos mais por essa cidade, por esse povo, que nos acolhe, sendo eu também um forasteiro do Gama, Distrito Federal, aqui há trinta anos”, diz o curador da mostra.

Ele ainda completa : “O carnaval em si já é um grande evento, muitos são os países que o comemoram. Ser curador de exposição de arte é um privilégio de uma vida. Poder unir o tangível e o intangível é estar em estado graça. Um êxtase triplo. E digo mais: reunir artistas e amigos, que já tem uma bagagem ampla no cenário das artes plásticas e contemporânea alagoana, somado a ter a oportunidade em trazer artistas iniciantes a beberem desta fonte, realmente não tem preço. Sendo essa a segunda edição a convite da Diteal, foi quando percebi a importância de sabermos aonde pisamos, onde nos encontramos, são dois passos à frente e um para trás. Por isso a homenagem à Pedro Tarzan, este brincante que marcou sua história no carnaval de Maceió e que não devemos esquecer do nosso passado em hipótese alguma”, observa o artista visual e curador da mostra, Levy Paz.

Participam desta exposição Adriana Jardim, Adriano Arantos,  Ana Cláudia,  Ana Karina, Árthemis Gabriela,  Arthur Celso,  Baboo, Dênnys Oliveira,  Diego Barros,  Chico Simas,  Eduardo Bastos,  Ermesson Pereira,  Gil Lopes,  Gustavo Lima,  Ives,  Jorge Vieira,  Lula Nogueira,  Manuela Constant,  Munganga,  Nicolas Elifas,  Pedro Cabral,  Persivaldo Figueiroa,  Rafael Reis,  Rogério Silva,  Rolderick Leão,  Salles Tenório,  Simone Freitas,  Sophia Laranjeiras,  Suel,  Wado e  Weber Bagetti.

“Depois do sucesso da primeira edição da exposição Carnelevarium, em 2018, é um prazer nos unirmos mais uma vez ao seu idealizador, o artista visual Levy Paz, para mais uma coletiva com mais de 30 artistas visuais locais, homenageando a festa mais popular do Brasil. Destacamos também que a galeria de artes visuais do Complexo Cultural Teatro Deodoro continua firme, mantendo uma grade dinâmica e focada, principalmente, na valorização do artista local, com uma programação já agendada até janeiro de 2021, inclusive com quatro editais que serão brevemente lançados, todos para o segundo semestre deste ano”, afirmou o gerente artístico e cultural da Diteal, Alexandre Holanda.

Sobre o homenageado

A história de Pedro Ferreira Auta, ou melhor, Pedro Tarzan, é contada por Pedro Rocha, em seu livro  Boletim Alagoano de Folclore. Segundo a obra, Em 1950,  o jovem sergipano, aos 21 anos de idade, decidiu trilhar um caminho comum entre os que nascem no interior: deixar a terra natal à caminho da capital. Após, breve período em Aracaju, onde trabalhou em uma fábrica de bombons, chegou em Alagoas e foi a mor a primeira vista.

Na mala o sonho de uma vida melhor, com um bom emprego, e o sonho de ser artista de cinema. Mas foi no carnaval de 1952, que começou a se delinear uma s das figuras mais emblemáticas do carnaval Alagoas. Em meio a  Penas, tecidos, crina de cavalo e tinta,  Pedro Ferreira Auta de lugar a um índio pele vermelha,  inspirado nos filmes americanos de faroeste.

Em 1955, junto aos companheiros Ademário Santana e Jorge Marinho de Lima, criou o Ginásio Sansão, uma academia de halterofilismo, na rua Santo Antônio, bairro de Ponta Grossa. E em 1957, sagrou-se campeão do concurso realizado entre as academias Força e Saúde, Peso e Ginásio Sansão, todas de grande renome na época.

Foi assim que Pedro Ferreira Auta virou Pedro Tarzan e entrou para história da cultura alagoana.

Fonte: Tribuna Independente / João Dionísio

Comentários