Especial

19 de outubro de 2019 13:38

Especialistas de Alagoas e curiosos falam sobre os 50 anos da internet

Tribuna Independente traz um resumo do que significou a introdução da internet na vida das pessoas e como isso mudou o mundo

↑ Professor de informática, Joel Rodrigues analisa proeza da internet (Foto: Edilson Omena)

Neste ano de 2019, a internet completa meio século de existência e o jornal Tribuna Independente traz uma reportagem especial com uma abordagem local com alguns especialistas sobre este fenômeno de comunicação mundial.

Desde a sua criação, pode-se entender que a internet passou por quatro fases. A primeira foi quando transformou o formato de compreensão, acesso ao conhecimento, informação, às notícias e ao entretenimento.

A segunda fase pôde ser percebida quando a internet dedicou-se a transformar o modo como eram feitas transações, sejam elas financeiras – fazer pagamentos e transferências –, ou comerciais, por meio do e-commerce, que é a compra e venda de produtos.

A terceira fase faz parte, diariamente, da vida dos brasileiros. São as mídias sociais, que foram criadas para estabelecer um relacionamento on-line entre as pessoas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 94,2% dos brasileiros usam a internet para trocar mensagens e imagens com amigos, colegas de trabalho e familiares.

Ao chegar à quarta fase, é possível encontrar o que se chama de Internet das Coisas. Esse tipo de tecnologia é o que faz não só computadores e celulares terem acesso à internet, mas também outras máquinas.

Mas o embrião da história da internet começa ainda no ambiente da Guerra Fria (1945-1991) onde as duas superpotências envolvidas, Estados Unidos e União Soviética, estavam divididas nos blocos socialista e capitalista e disputavam poderes e hegemonias.

ARPANET: A ORIGEM

Com o intuito de facilitar a troca de informações, porque temiam ataques dos soviéticos, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (ARPA – Advanced Research Projects Agency) criou um sistema de compartilhamento de informações entre pessoas distantes geograficamente, a fim de facilitar as estratégias de guerra.

Nesse momento, surge o protótipo da primeira rede de internet, a Arpanet (Advanced Research Projects Agency Network).

Assim, no dia 29 de outubro de 1969 foi estabelecida a primeira conexão entre a Universidade da Califórnia e o Instituto de Pesquisa de Stanford. Foi um momento histórico, uma vez que o primeiro e-mail foi enviado.

Início do fim: morre a velha máquina de escrever

Já na década de 1990, o cientista, físico e professor britânico Tim Berners-Lee desenvolveu um navegador ou browser e criou a World Wide Web (www), a Rede Mundial de Computadores – Internet.

A partir disso, a década de 1990 ficou conhecida como o “boom da internet”, pois foi quando ela se popularizou pelo mundo, com o surgimento de novos browsers ou navegadores — Internet Explorer, Netscape, Mozilla Firefox, Google Chrome, Opera, Lynx — e o aumento do número de usuários, navegadores da internet.

E foi no início dos anos 1980 e comecinho dos anos 1990 que o então jovem de vinte poucos anos Altamir Caparica, hoje com 55 anos, trabalhava no Serviço Nacional de Aprendizado Comercial (Senac) , em Maceió, como instrutor de datilografia, uma profissão até ali muito requisitada e cuja frase que dominava a sociedade à época era uma espécie de mantra entre as famílias, e era a seguinte: “Para ser alguém na vida, todo mundo tem que fazer um curso de datilografia”.

Altamir Caparica mostra as lembranças de um tempo em que as máquinas de datilografia dominavam o futuro das pessoas (Foto: Edilson Omena)

Sobre essa frase Caparica diz à Tribuna Independente o que captou desse tempo. “A ideia era essa mesmo. Todo mundo que quisesse fazer um concurso público ou ascender na vida socialmente tinha que ter um curso de datilografia”, confirma o ex-instrutor, que diz que o boom dos cursos de datilografia forma os anos 1970 e toda a década de1980, com uma procura muito grande por parte da população.

Mas Caparica relembra o marco que se deu a ruptura entre o uso das velhas máquinas de escrever e o novo mundo que surgia para substituir as “velhas companheiras”.

“Eu lembro que até 1995 e 1996 as pessoas já em número bem reduzido ainda procuravam fazer um curso de datilografia, mas isso já estava com os dias contados”, ressalta o ex-instrutor.

Mas os velhos datilógrafos afirmam que a velha máquina propiciava a quem aprendia datilografia um manejo muito mais rápido do teclado, pois não era permitido enxergar os tipos para ser aprovado. Dizem ainda que eram exímios no uso da língua portuguesa, uma vez que não havia corretor ortográfico. E que os escritores daquela época tinham raciocínio bem mais rápido, porque as frases eram concatenadas mentalmente e lançadas no papel, sem muitas possibilidades de revisão – extremamente trabalhosas.

Hoje os mais experientes relembram, nostálgicos, mas orgulhosos das árduas jornadas “batucadas” nas indefectíveis máquinas Remington Torpedo 100, as últimas remanescentes do período mecânico da Instituição. Com elas se foram, em meados dos anos 90, a profunda sulcagem do papel suporte pela força muscular necessária à impressão de cópias, o papel carbono que as propiciava, o “errorex” e as arcaicas folhas de papel de seda (utilizadas para cópias, especialmente para os promotores em estágio probatório, que nelas reproduziam os trabalhos que encaminhavam à Corregedoria).

“A verdade é que a máquina de escrever manual cedeu espaço aos poucos para a máquina elétrica, substituída depois pela eletrônica. No fim do século, o computador com editor de texto, que poupa trabalho e recursos materiais, relegou a máquina de escrever à obsolescência”, completa Caparica.

Internet, telas gráficas, conectividade e encanto

O professor Joel Rodrigues dos Santos, 52 anos, também um remanescente do Senac,  foi instrutor de informática quando se deu a transição da velha máquina de escrever para o mundo digital que surgia absoluto. Ele foi um dos que ministraram os primeiros cursos da chamada “era da informática”.

Naquele início dos anos 1990 até 2000, Joel viu uma grande proliferação de sites, chats, redes sociais — Orkut,  tornando a internet a rede ou teia global de computadores conectados. Depois ainda vieram Facebook, MSN, Twitter.

“A Internet foi um marco importante e decisivo na evolução tecnológica. Isso porque ultrapassou barreiras ao aproximar pessoas, culturas, mundos e informações. Lembro-me de que o número de pessoas querendo fazer um curso de informática foi exponencial em relação ao de datilografia, era uma loucura!”, diz Joel, ao acrescentar que um dos mais procurados era o sistema DOS Word Star (editor de texto) além do advento do Windows 3. 0.  “Os primeiros computadores que vimos chegar por aqui eram o XT e o IBM XT. Com o Windows as pessoas ficavam encantadas com o que ele fazia, as cores, as telas que se abriam, era realmente um novo mundo que chegava”, relata Joel.

“A internet e as telas gráficas ou imagens gráficas, somadas à conectividade que hoje está estabelecida nos celulares com acesso a tablets, computadores, foi o casamento perfeito para isso ter dado certo e revolucionar o mundo da tecnologia”, completa Joel.

Tudo isso a que o ex-instrutor de informática se refere foi possível quando em 13 de março de 1989, ou seja 30 anos atrás, o cientista britânico Tim Berners-Lee, pesquisador do Laboratório Europeu de Pesquisas Nucleares CERN instalado na Suíça, criava um novo serviço para a Internet: a Wide World Web, ou simplesmente a WEB.  Graças a uma nova linguagem chamada HTML, a Internet, que foi divulgada em 1990, começou a permitir acesso a páginas multimídia integrando além do texto, som, imagem e vídeos, além disso essas páginas são integradas entre si graças a referencias formando assim uma espécie de tela de aranha.

“O advento da WEB potencializou a internet e simplesmente revolucionou o mundo.  Eu era um jovem quando vi o nascimento da WEB e aos poucos a grande transformação da humanidade.  As pessoas criaram páginas Web, em 1990, usando a HTML.  As páginas web na época eram estáticas até a evolução para a Web 2.0 chamada Web dinâmica”, explica Joel.

Conexão só para fins estatais

No Brasil, a conexão de computadores por uma rede somente era possível para fins estatais. Em 1991, a comunidade acadêmica brasileira conseguiu, através do Ministério da Ciência e Tecnologia, acesso a redes de pesquisas internacionais.

Em maio de 1995, a rede foi aberta para fins comerciais, ficando a cargo da iniciativa privada a exploração dos serviços. Hoje, para conectar seu computador, o usuário paga os serviços de um provedor de acesso ou tem conexão direta.

O fenômeno internet difere dos outros meios de comunicação conhecidos até agora, haja vista que a postura do receptor no rádio e na televisão é meramente passiva, enquanto em relação à internet o receptor participa selecionando e emitindo informações.

Walter Oliveira, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas, lembra que transição para era da internet e informatização nas redações foi tranquila (Foto: Edilson Omena)

Revolução nas profissões

E no que concerne a meios de comunicação, um dos setores que fizeram a transição para o novo mundo que surgia e se impunha foi a do jornalismo. Em Alagoas, as empresas de comunicação, como os jornais, por exemplo, tiveram que acompanhar rapidamente a evolução dos novos tempos.

Para o presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas na época da transição, Walter Oliveira, a transição das antigas redações e o barulho renitente das antigas máquinas de escrever (datilografia) para o silencioso mundo digital e dos kbytes foi tranquilo e sem muitos problemas para a classe dos jornalistas no que concerne à adaptação e á preservação dos empregos.

“Posso dizer que foi tranquila, porque as empresas fizeram treinamento com os trabalhadores e não houve redução de postos de trabalhos assim como os jornalistas se adaptaram bem aos novos tempos com a informatização das redações”, atesta Oliveira.

Do alto de sua experiência de quem atuou no “batente” de uma redação entre 1980 a 2000, Oliveira passou por várias editorias até se firmar como editor das páginas do noticiário nacional e internacional  conta como era a realidade antes de a internet se popularizar na redação onde trabalhou. “A gente recebia a notícia pelo chamado telegrama e depois o telex e aí tínhamos um profissional que recebia aquele material para transformá-lo em notícia. Mas com o advento das agências de notícias e consequentemente da internet tudo ficou mais ágil e fácil”, diz o ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas.

De acordo com Walter Oliveira, essa época da transição foi a mesma na qual começara a chegar às redações os editores de textos, substituindo as velhas máquinas e modernos equipamentos para diagramação dos jornais como o Quark Express e o famoso Windows e suas janelas que deixavam encantados repórteres, editores e diagramadores.

“A realidade é que ficou fácil trabalhar com as novas tecnologias que chegavam àquela época”, atesta.

Para além do jornalismo, os anos 90 marcaram a difusão generalizada da informática nos mais diversos ramos da atividade humana, determinando profunda mudança no comportamento das pessoas. A explosão da chamada rede mundial é certamente o fenômeno que atinge mais diretamente o cotidiano de todos aqueles que utilizam um microcomputador ligado na Internet. Este artigo coloca em evidência este fenômeno e seus desdobramentos previsíveis nos próximos anos. É focalizada a influência, da informática no ambiente de trabalho e são analisadas as perspectivas sociais decorrentes da disseminação da informação em amplos setores da sociedade.

Brasil: surgem as redes e conexões

No Brasil, a Internet surgiu no final da década de 80, quando as universidades brasileiras começam a compartilhar algumas informações com os Estados Unidos.

Entretanto, foi a partir de 1989, quando fundou-se a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), que o projeto de divulgação e acesso ganhou força.

O intuito principal era difundir a tecnologia da Internet pelo Brasil e facilitar a troca de informações e pesquisas.

Em 1997, criaram-se as “redes locais de conexão” expandindo, dessa forma, o acesso a todo território nacional.

Em 2011, segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, aproximadamente 80% da população teve acesso à internet. Isso corresponde a 60 milhões de computadores em uso.

Redação do Tribuna Independente nos tempos atuais totalmente informatizada (Foto: Adailson Calheiros)

“Mundo se comunica cada vez menos”, diz doutorando

A seguir, uma análise  do doutorando em comunicação cultural midiática Leonardo Torres sobre este fenômeno mundial: a internet.

“Neste ano de 2019, a internet fará 50 anos. Nascida no berço da guerra, essa ferramenta de comunicação prometia revolucionar o mundo. Muitos cientistas se entusiasmaram com tal ideia e começaram a propagar as maravilhas da internet. Mas não somente parte da Ciência fez isso, o mundo inteiro comprou a ideia da internet.

Quando popularizada, surgiram as redes sociais. Uma nova forma de se comunicar com tudo e todos. Muitos até afirmaram que a comunicação de massas (televisão, rádio, etc.) iria acabar. Ou seja, a democracia e a diversidade iriam superar as barreiras que a comunicação de massa tinha imposto. Contudo, o poder da TV e do Rádio não acabou e hoje as ferramentas se mesclaram, isto é, os sites de notícias mais visitados são dos grandes grupos televisivos.

As redes sociais começaram a centralizar um poder de distribuição de dados com os algoritmos. Hoje, um indivíduo não possui livre acesso à informação em sua página da rede social. Ele possui um algoritmo que filtra as informações que supostamente o indivíduo vai gostar mais. No fim, nada mudou: os usuários das redes sociais só estão em uma jaula eletrônica mais elaborada que a de antes. Desta vez, admirando as notícias, fotos, vídeos que lhes convém. Todos fascinados pelo reflexo de Narciso.

O discurso da democracia mudou para “se não está na internet, não existe”, promovendo uma desigualdade sem precedentes. E, juntando isso ao narcisismo, vai a reflexão: como eu posso me comunicar se só o que aceito é o que é igual a mim? Por isso, existe hoje tanto desentendimento na internet. Uns reagem com argumentos, outros com memes. Um grande exemplo foi a última eleição: houve comunicação por meio das redes sociais?

Já que não há comunicação, a vida se tornou solitária. A solitária, por sua vez, é uma das piores torturas humanas. Não é à toa que doenças psíquicas como a ansiedade, o pânico e a depressão aumentaram. Elas estão relacionadas à falta de construção de vínculos sociais. O suicídio, segundo a OMS, cresceu cerca de 70% deste que a internet se popularizou. Não creio que seja coincidência. Estamos cada vez mais conectados, mas cada vez menos em comunicação e comunhão.

Quem realmente ganha com a internet é o mercado. Ele conseguiu impor uma aceleração turbo em nosso sistema capitalista. A concentração da renda aumentou ao passo que em a expansão de mercado se deu. Contudo, a que custo? Desmatamentos, extinção da fauna e flora, aumento da desigualdade, epidemias psíquicas como depressão e até suicídios. Esta é a vida que queremos?”…

Fonte: Tribuna Independente / Wellington Santos

Comentários