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8 de janeiro de 2022 08:11

Cineasta argentino ‘descobre’ ilha paradisíaca em Alagoas e transforma em set de filmagem

De Buenos Aires, passando pela Selva Amazônica à Ilha da Crôa, a história de Eloy González, um portenho que descobriu um paraíso selvagem em Alagoas na produção cinematográfica

↑ Eloy, diante da igreja construída 1753 pela colonização holandesa, na Barra de Santo Antônio (Foto: Edilson Omena)

Ele é cineasta, mas a própria vida e sua coragem de se atirar nela com destemor, aberto a novas experiências, dão, sim, um belo roteiro de filme da própria história. Pois esta é a trilha de Eloy González, um argentino que, após fazer um périplo aventureiro na propalada Selva Amazônica, certo dia deu de cara com a quase selvagem — e ainda desabitada — Ilha da Crôa, no paradisíaco município de Barra de Santo Antônio, distante 41 km da capital Maceió.

Um, dois, três, quatro, e… Bum! Take! Ação!

Era o ano de 2005, e como em um recorte decupado de um filme qualquer, lá estava Eloy, frente a frente com uma igreja construída na colonização holandesa no longínquo ano de 1753 por aquelas plagas alagoanas.

“Me graduei no Conservatório Nacional de Arte Dramática, em Buenos Aires, e trabalhei como ator durante minha adolescência, passando desde a televisão até comerciais em tv para a Argentina e no exterior, como França, Alemanha, Itália e Estados Unidos”, conta à Tribuna Independente o cineasta portenho.

Até que no ano de 2004, Eloy encontrou um tesouro que mudaria para sempre o roteiro de sua vida. “Achei em um livro de pintura uma peça teatral pouco conhecida que foi escrita por uns dos maiores artistas do século XX, o Pablo Picasso. O nome era ‘O Desejo preço pelo rabo’”, relembra Eloy.

Resultado: intelectuais, artistas e todas as personalidades do ambiente cultural de Buenos Aires ficaram surpresos que um jovem de apenas 21 anos tenha achado essa peça e sem que tivessem a ideia da existência da mesma. Eloy foi, assim, o primeiro a apresentar em todo o país aquela peça teatral de Picasso.

Este fato fez com que o cineasta começasse a trabalhar em um dos teatros mais importantes do mundo, o Teatro Colón. Daí foi um passo para que se especializasse no trabalho como diretor, agora por trás das câmeras. “Fiz mais de 30 peças de teatro que, misturando cinema, vídeo, arte, música, danças, fundei um projeto de teatro documental que fez muito sucesso chamado Necrodrama”, completa.

Périplo na selva continental

Até que um dia aquele portenho de espírito aventureiro resolveu conhecer a Amazônia, a chamada “Pulmão do Mundo”, para lá desvendar seus mistérios e, claro, fazer um roteiro da viagem e de si próprio.

Fazendo um recorte no seu roteiro aventureiro pela Amazônia, Eloy conta que viajou uns três dias pelo Rio Amazonas de barco e recomendaram que fosse até um povoado chamado “Alter do Chão” por onde encontrou uma lagoa verde rodeada de selva com o Rio Tapajós. “Era mágico e cristalino, entre comunidades de caboclos. Uma aventura!”, conta.

“Passei 50 dias vivendo no Rio Tapajós e observando amanheceres e entardeceres com as formas e cores mais impressionantes que meus olhos já viram”, resume.

Uma dúvida, um convite e o destino final

Mas fazendo outro recorte desta sua história até conhecer o paraíso desabitado da Ilha da Crôa, Eloy revela qual o grande “gancho” para que este encontro entre o cineasta e a ilha selvagem fosse possível.

“Novamente tomei um barco até o Porto de Belém do Pará. Daí, passei a conhecer as terras onde o grande fotógrafo Sebastião Salgado retratou as fotos maravilhosas dele com a ‘Fiebre del Oro’, em Serra Pelada, um lugar com personagens Fellinescos”, destaca.

Depois, Eloy pegou um trem até São Luís do Maranhão, onde logo em seguida chegou ao Estado do Ceará para conhecer uma praia que, à época, estava na moda: Jericoacoara.

E veio o elo para a ligação com as Alagoas. “Ali me encontrei com uma mulher que vivia na Bolívia e era alagoana. Falamos em espanhol uns 15 minutos. Os dias passaram e depois de uma semana, aproximadamente, na cidade de Fortaleza, em um ônibus, voltei a me encontrar com aquela mulher com quem havia falado somente 15 minutos. Estava indo comprar uma passagem para ir ou a Maceió ou Aracaju, estava em dúvida. Então, ela me disse: ‘Vamos a Maceió, amanhã! Compra um assento do meu lado e viajamos juntos! Foi aí que ela me convidou a passar um dia na casa de sua mãe, na “Ilha da Croa”, na cidade de Barra de Santo Antônio”, relata Eloy.

Eloy ao reencontrar Leila, a primeira pessoa com quem teve contato ao chegar à Barra de Santo Antônio em 2005 (Foto: Edilson Omena)

“Almorzamos, conocimos la Praia de Carro quebrado. Un cruzeiro en el alto de la ciudad. Por la tarde llegó una señora que vendía terrenos y me dijo. “Acá los terrenos se venden como bolsas de bananas”. Me fui para Argentina y unos meses después, sin saber porque, sin planificarlo, regresé, me compre un terreno y comencé una vida entre Barra de Santo Antonio e y Buenos Aires”, completa, o cineasta, em espanhol.

Neste roteiro do cineasta portenho com sua ilha ‘descoberta’ como cordão umbilical, foi a inspiração para uma produção em série, em larga escala, com personagens locais.

No ano 2020, por exemplo, apresentou o documental, “Ilha da Crôa, paraíso perdido”, retratando histórias sobre o que aconteceu com a ilha que perduram até hoje e mergulham em ideias supersticiosas, como uma que supõe que bruxas teriam transformado a ilha em água.

Antes, em maio de 2017, ainda na Ilha da Crôa, Eloy, lançou o filme Diamantis. O longa é uma mistura da realidade com a ficção. O filme narra a aventura de três estrangeiros, com diversos enredos que não se cruzam.

Porém, o mais recente, é o “Progresso”, de 2021, no qual o cineasta aborda a chegada de um megaresort à ilha, que inspira a convivência “do novo com o velho” para garantir a sobrevivência das tradições e registra o processo de transformação cultural, turístico e social que vive a cidade com a construção do hotel. Neste cenário, assim como os outros, foram recrutados atores e figurantes locais como os garotos João Paulo da Silva e Lucas Silva,  que mantêm acesa o cordão umbilical entre o cineasta portenho e a ilha que inundou seu coração.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Wellington Santos

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