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3 de dezembro de 2021 15:33

Naty bate forte: rapper arapiraquense lança 1º álbum com raiz em África; veja entrevista

Cantora, compositor e beatmaker de Alagoas, Naty Barros, vem com CD "Bata Cabeça" com cara de quem já está pronta; debut está nas plataformas de streaming

↑ Naty Barros lança o seu CD "Bata Cabeça" (Foto: Divulgação)

A origem é o centro, destinação, alvo, fim e o intento.

O que a artista arapiraquense Naty Barros traz com seu primeiro álbum “Bata Cabeça”, lançado este mês, é uma reverência ao passado com os nossos gestos disponíveis no agora.

Afinal, como bem diz o ditado yorubá, Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje.

O que a rapper fez nesse debut ecoará com ainda mais força nos próximos anos — trata-se de uma produção sonora robusta que divide as águas e as lamas alagoanas.

A batida no tambor falante dá lugar ao beat (batida, também) fervilhante deste Rap agreste. O velho e o novo em roda.

Nascido em Arapiraca, esse CD traz inúmeras participações especiais e um grande time na produção artística e executiva, contando com o apoio financeiro do Governo de Alagoas, através da Secretaria de Estado da Cultura, via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, do Governo Federal.

O “Bata Cabeça” está em todas as plataformas digitais. Ela já havia lançado dois singles este ano (“Lama” e “Criptografia”) dando sinais do que estava por vir nesta autoinvestigação — tanto de si, como da pauta afrikana.

Esse 1º álbum da jovem cantora, compositora e beatmaker de 24 anos é bem diferente da proposta de seu EP “Subversão”, lá de 2018.

Para coroar este momento marcante em sua vida, no último sábado (27), Naty Barros realizou show gratuito na 3ª Feira Literária de Arapiraca (Fliara).

Um chamado à voz interior, à voz abafada de outrora, à batida de cabeça primordial.

Para falar um pouco mais sobre este projeto musical e de vida, a Tribuna Independente/ Tribuna Hoje entrevistou a artista do Agreste alagoano. Confira.

TRIBUNA INDEPENDENTE: O que é 10063? Esses números estão na capa de seu álbum.
NATY BARROS: É onde estamos no calendário yorubá.

Por que o álbum se chama “Bata Cabeça”? E por que bater cabeça hoje, Naty?
Ele não foi pensado inicialmente como “Bata Cabeça” e, sim, como “Criptografia”. Para mim, estava muito posta a função central que esses códigos e tecnologias tinham nesse projeto — as músicas traziam e se utilizavam deles o tempo todo. Mas no decorrer da gestação, junto às pessoas que estavam ao meu lado nesse processo, fomos percebendo que o álbum não estava apenas falando sobre, mas reverenciando os códigos. Uma reverência ao segredo, ao mistério, ao espírito, à terra, à ancestralidade e aos Orixás. No candomblé, nós ‘batemos cabeça’ como um sinal de respeito e reverência. E por que fazer isso hoje? Porque o tempo é uma espiral. Tudo o que é, só o é, porque antes algo foi.

A faixa inicial tem uma referência à figura do farol. Todo farol é sozinho. O que a solidão lhe traz? Você se sente farol para outros futuros faróis?
Nós, pessoas afrikanas da diáspora, fomos submetidas a uma solidão compulsória dentro do processo de colonização. E eu tive minhas questões com esse sentimento ao longo da minha vida, porque tudo parecia um não-lugar, um não-ser, um não-alguma-coisa. Nós vivemos num mundo construído na intenção da nossa não-existência. ENTRETANTO (em maiúscula), nós somos um povo de potências. Potências essas que, apesar das inúmeras investidas coloniais, pulsam em nossos espíritos. Para mim, a virada no modo de lidar com essa solidão se deu, principalmente, a partir da minha vivência espiritual e comunitária com outras pessoas pretas de terreiro. Me ajudou a repensar como eu estava inserida nos espaços, como eu compreendia minha família, meu território e como eu via a mim e as/os minhas/meus. A arte e outras ciências também foram pilares para isso. Tem uma música do Sant, onde ele diz: “Pra que nossos olhos se encham de brilho, somos sóis”. Aquilo me acendeu. Nesse processo fui compreendendo que nós somos faróis — foi a metáfora-paradoxo mais adequada que encontrei. Que nos pensem construções sozinhas no meio de um lugar qualquer. Quero que a gente saiba que temos luzes solares capazes de iluminar caminhos. Precisamos — nós — pensar e ditar nossa existência, a partir do nosso povo e centrados em África.

“Nós trabalha cantando, luta dançando”. O que o seu envolvimento com a Capoeira Angola lhe trouxe para esse autopertencimento que hoje tanto você bota para fora? Foi ali, no meio da mandala da dança, que você se viu negra, enfim, a partir de seus novos movimentos internos e externos?
Não foi na Capoeira Angola que me vi negra. Esse processo se deu antes, por outras vias. Mas foi na Capoeira Angola que me vi afrikana pela 1ª vez, mesmo que não soubesse disso naquela época. Foi com ela que senti orixá, que senti o espírito, que vi os códigos, o segredo, a mandinga. Vi meu povo e me vi nele.

Neste álbum, como já falado aqui, você faz muita menção à cultura e religiosidade afro. Como se deu esse processo dentro de você?
O processo de inserção da cultura e religiosidade afrikana se deu de modo muito natural. É meu 1º álbum; é minha chegada, minha ‘bença’, meu abraço. Faz parte da rotina, da vida: primeiro, você ‘bate cabeça’.

Em que medida, Naty, você vê que o afrofuturismo dialoga com o movimento surrealista, que nasceu com Breton? Acha que essa face afrofuturista tem surgido com mais força só agora, ainda que tenha germinado na década de 1990? O que tem disso no seu disco e onde você foi buscar?
Acredito que todo movimento que pensa e constrói novas realidades ou que se desprende dela tem seus pontos de diálogo. As possibilidades artísticas que o surrealismo abriu foram inovadoras quando se pensa a Arte ocidental e muito se foi desenvolvido a partir disso. Dentro do conceito do álbum, optamos por trabalhar com a técnica de colagem, por exemplo, demonstrando bem como pode acontecer esse diálogo. Porém, o afrofuturismo já nasce vanguarda de si. É paradoxal; ele se afasta da realidade para efetivá-la ao seu próprio modo, negando as imposições de morte da colonização e elaborando vivências positivas de futuro. O povo africano efetiva o afrofuturismo bem antes de este termo ser cunhado nos anos 1990. O nosso “apocalipse”, nosso “fim do mundo” já aconteceu. Nós já estamos vivendo numa distopia. Pensar um futuro centrado em nós mesmas/os é a garantia da nossa existência. Quando estamos localizades em África, entendemos que é só voltando ao passado é que construímos esse futuro. Por isso, não entendo o afrofuturismo como um movimento de agora. Nossos ancestrais inventaram altas tecnologias para voltar ao passado e garantir nosso futuro. Os terreiros, por exemplo, é a efetivação do teletransporte… E isso é só o básico (risos). Só nós temos o código. Ben Jor, Cátia de França, Jackson do Pandeiro, Olodum e muites artistas brasileires já faziam o que se passou a chamar de afrofuturismo. É dessa galera que bebo e me inspiro.

Falando nisso, quais as principais fontes, as suas influências para esse disco?
O Hip Hop sempre me inspirou e me ensinou muito sobre o coletivo, sobre a rua. E eu caminhei por muitos caminhos até encontrar no Rap esse espaço de liberdade artística que eu buscava. Eu queria também falar sobre o nosso povo, sobre minha experiência agrestina, numa cidade como Arapiraca e tinham outros artistas que falavam de uma vivência parecida, interiorana, mas que estavam longe desse outro lado mais moderno do Rap. Quando conheci o RAPadura, percebi que eu poderia fazer algo com a estética que vinha idealizando — foi a virada de chave para compreender que eu poderia utilizar, sim, de todas as minhas referências, sejam quais forem. Black Alien, Baiana System, Tássia Reis, Sant, Cátia de França, RAPadura, Djavan, Jackson do Pandeiro, Olodum, Margareth Menezes, Alcione, Jorge Ben Jor, Lia de Itamaracá. São artistas que me deram algo nesse caminho: técnico, estético, espiritual. Me ajudaram a pensar nossa cultura, nosso povo, nossas ciências. Djavan é minha maior referência na música hoje — o homem é cheio de códigos também. O que seria mais afrofuturista que Ben Jor, Olodum, Margareth e Lia de Itamaracá? Quem fala de nós como Cátia de França? Jackson do Pandeiro é a vanguarda do ritmo, da métrica. Você já ouviu o flow de Alcione cantando “Figa de Guiné”, em 1978? Sant é um dos maiores poetas da nossa geração. Quem pode com Tássia Reis?

Acredito que essa tenha sido a sua primeira vez realmente imersa em estúdio, criando, compondo, debatendo, ouvindo e ensinando o que acha que não sabe. Como é ser artista em 2021 e poder mostrar isso, apesar de tudo?
Ser artista independente sempre foi um desafio e a pandemia multiplicou todos esses sentimentos que são tão complexos. A Arte sempre me salvou, me potencializou e, durante esses últimos dois anos, não foi diferente. A primeira pessoa que este álbum tocou e mudou fui eu mesma e acho que, por isso, é tão forte para mim colocá-lo no mundo. Sei da responsabilidade que assumo perante meus ancestrais, minha espiritualidade ao decidir trabalhar com a palavra. E poder fazer essa mensagem chegar a outros espíritos é minha forma de honrar a responsabilidade que me foi confiada.

Você é mulher, é negra, é lésbica. Pessoas-faróis nunca estarão realmente a sós. São espelhos. Basta ser para que outras identidades apareçam. Como é fazer brotar um novo mundo a partir desse 1° disco solo? Acha que influenciará outras cantoras da nossa terra a se lançarem no mundo?
Eu quero acender sóis. Quero mostrar que a gente pode mesmo brotar esses novos mundos, positivos, prósperos, fortes, do jeito que a gente quiser. Centrar em África é a chave e as portas são muitas. Eu ainda não sei qual será esse mundo, mas tenho muita fé na construção dele. Eu espero que sim. Alagoas é terra sagrada; o Agreste pulsa Arte e espero que outras mulheres possam olhar para esse chão e enxergar a vida que ele carrega. Todos os caminhos que esse álbum pode abrir será estrada para todas nós.

Digo disco solo, mas ele foi feito com diversas parcerias, né? Como foi trabalhar com todo mundo? Quem está com você?
Foi incrível! Eu juntei um time pesado! Desde o projeto, esse álbum já surge muito coletivo. Eu queria mesmo que houvessem muites beatmakers, muitos estilos, muita dinâmica. Foram quatro beatmakers de Alagoas e dois da Paraíba. Eu quis também marcar esse momento como um debut das minhas produções, então, assino três faixas do álbum: “Farol de Pele Preta”, “Há Lagoas Nessas Terras” e “Rasga-Mortaia”. FM, Colombia Beats e PH fizeram os beats de “Lama”, “O Machado de Meu Pai” e “Magia Black Side”, respectivamente. Da Paraíba, vieram os de “Criptografia” e “N’Ginga Quem Falou”, produzidos pelo Furmiga Dub, como também o de “Não Me Teste”, da minha parceira Luana Flores. Ainda houve participações de Jéclysson, Mary Alves, Arivle Elvira e Mãe Eloiza D’Yemonja. A mixagem e masterização ficou com o QG dos Manos e a engenharia de som com o Sandro “Siri” Cardoso. Para arte visual, a parceria veio lá de Salvador, com a Keila Gondim. Tivemos uma conexão artística muito feliz e o resultado foi incrível. Na produção executiva, eu tive a sorte de trabalhar com Lella Sobreira, Larissa Lima, Camila Maria e Mayk Andreele. A produção fonográfica foi do Pedão. Como eu falei: timaço!

E quem não está no disco com você, fisicamente?
Tem uma pessoa que eu gostaria muito que estivesse comigo fisicamente para ver o nascimento do “Bata Cabeça” e tudo o que vou colher a partir dele: meu irmão Wanderson. Ele morreu no início do ano e é a ele que dedico este álbum. Nesses 10 anos de carreira, já caminhei bastante, mas ele sempre estava ao meu lado. Quantas vezes eu me apresentava em barzinhos e restaurantes e ele estava lá com a família, sempre. Sentava perto do palco e curtia. Mesmo que ele fosse minha única plateia, não me sentia sozinha. Ele era um farol também.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Breno Airan - Especial para D&A

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