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14 de dezembro de 2019 11:39

Antônio João da Silva tem produção poética farta, original e instintiva

Autor sai de infância sofrida para realizar sonho de ser escritor

↑ Ele ostenta orgulhosamente o título de escritor revelação de 2019, concedido pela Associação Brasileira de Médicos Escritores

A cena literária alagoana sempre foi preciosamente pródiga em sua produção: Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Lêdo Ivo, Dirceu Lindoso, Jorge Cooper, Arriete Vilela e Nilton Rosendo são nomes, cada um à sua época, que justificam a informação ufanista. Inspirado por estes e tantos outros nomes, o escritor Antônio João da Silva vem contribuindo para que as safras continuem sendo colhidas, já que trabalhou no corte de cana e na roça de arroz e é dono de uma poesia ingênua, original e instintiva, presente em quatro livros que lançou de maneira independente e nos dois que ganharão edição nos próximos meses.

Ostentando orgulhosamente o título de escritor revelação de 2019, concedido pela Associação Brasileira de Médicos Escritores (ele não é médico, mas a academia reconhece os trabalhos de escritores em geral), Antônio João da Silva conta que o amor pela literatura sempre o acompanhou desde a primeira vez que viu e ouviu os repentistas e cordelistas que desfilavam pelas ruas e feira de sua cidade Natal.

“Tive uma infância sofrida, tive que trabalhar cedo, no corte de cana, nas roças de arroz nas margens do Rio Mundaú. Estudei muito pouco, fui apenas alfabetizado e, mesmo assim, não tenho nem o diploma que comprove esse estudo. Por causa de uma traquinagem, não fui buscar. Mas assistir os repentistas e os cordelistas na feira, era um encanto, eu queria fazer o que eles faziam, escrever como eles. Mas a vida seguiu, tive que me afastar de Alagoas e eu fiquei acalentando esse desejo”, disse.

Ele ainda faz questão de contar que o amor pela literatura era tamanho que o levou, inesperadamente, a ter um emprego em que precisava ficar, literalmente, perto dos livros. “Fui morar em outro estado e comecei a trabalhar como vendedor de livros da Casa Publicadora Brasileira. Então, eu tinha um contato diário e íntimo com vários tipos de publicação, o que me reacendeu a vontade de escrever”, contou.

E de tanto ter vontade de acalantar o sonho de infância, ele hoje ocupa uma das cadeiras da Academia Maceioense de Letras, além de ser membro da mesma academia de Porto Alegre. “Quando eu comecei a produzir mostrava para os amigos, mas sem intenção de publicar. E sempre recebia como resposta: você tem que colocar tudo isso em um livro. Até que um dos amigos falou seriamente para mim, que era preciso mostrar o que eu escrevia para as pessoas. Acreditei e comecei a publicar meus trabalhos com recursos próprios e essa nova carreira foi se desbravando na minha vida e o sonho foi acontecendo”.

Assim, ele já tem publicados “Nos Braços da Poesia”, “Valor Divinal”, “Fatos, Versos e Prosa” e “Terapia da Gratidão”, além de mais duas obras que como ele gosta de repetir “estão no prelo e logo, logo estarão circulando”.  E uma das obras já tem até nome e destino. Será o livro “Terapia do Abraço”, que pretende ser trabalhado em salas de aula em um curso de medicina e que tratará, em poesia, do poder do afeto e do abraço diante de alguns tipos de tratamentos médicos.

“A minha poesia é inspirada em fatos da vida, no cotidiano. Por isso posso falar de sentimentos, de amizades, veganismo ou fatos que estejam em evidência. Acho que a literatura é uma arte e que tem esse longo raio de alcance, onde podemos abordar de tudo dentro de vários contextos”.

Publicação recente

Assim é em suas mais recentes obras, como todas as outras publicadas com recursos próprios, “Terapia da Gratidão”. No livro, o escritor faz uma espécie de balanço de sua vida, a partir do menino pobre, que passou fome, até o escritor reconhecido que ocupa cadeiras em academias de letra.

“Com esse livro quero dizer em alto e bom som, o quanto eu sou grato a todas as pessoas que contribuíram  para que eu saísse da pobreza extrema, em se tratando de posses materiais e intelectuais. Gratidão é um sentimento que precisa ser exercitado e dito e, por isso, nele, há poesias direcionadas para pessoas que foram importantes na minha vida”, afirmou Antônio João ao comentar os motivos que levaram a escrever terapia da Gratidão, que tem a participação  dos poetas  Jucá Santos, Verônica Galvão e Antônio Vieira de Oliveira.

E nesse tom de agradecimento, o artista escreve em deu poema Infância Sofrida: Até hoje me lembro da minha infância sofrida/ Hoje na cidade vejo muita tristeza no ar/ Não tinha bens, mas ouvia belos pássaros cantando/ Cidade ou campo torna-se bom para quem sabe amar/ a fome era saciada com inhame cará/ tal raiz comestível tinha em profusão/ caroços de jaca também mataram minha fome/ jamais nego meu passado, não intento ser gabão/ pesquei e tomei banho no raso Rio Mundaú/ caramujo só não comi porque tinha muito nojo/catava feijão e milho que achava caído no chão/ meu pai morreu muito cedo não o tinha no estojo/ levantei a cabeça e saí do feio embrulho/ tal fato logrei porque muita gente boa pegou-me pela mão/ farei pelos outros o que sempre fizeram por mim/ e assim sendo, o céu terei por eterno galardão”.

Mas é no preâmbulo, escrito pelo presidente da Academia Penedense de Letras, professor Moezio de Vasconcellos Costa Santos, que o leitor pode entender mais claramente as intenções de João Antônio ao escrever, aos  79 anos, “Terapia da Gratidão”. “No contexto de suas poesias o poeta parece interrogar por que é difícil sentirmo-nos gratos? E através delas ele mesmo responde: porque temos que aprender a ser gratos, mesmo quando as coisas não correm bem. Mesmo quando a vida não corresponde àquilo  que esperávamos. Raramente nos ensinaram o poder da gratidão. A olhar para as pequenas vitórias do dia a dia e para as coisas boas que já temos”, escreveu.

Fonte: Editoria de D&A

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