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2 de novembro de 2019 12:01

Escritor lança antologia biográfica

Livro “Antologia Prospectiva” de José Casado Silva que traz à tona conjunto que apresenta ao leitor poesias, crônicas, romances e traduções

↑ Tradutor tem um vasto acervo de mais de 3 mil títulos em sua casa (Foto: Edilson Omena)

José Casado Silva, 83 anos, é um desses personagens surpreendentes que encantam o interlocutor logo nas suas primeiras palavras. Melhor. Impressiona ainda mais quando o sujeito é apresentado ao tesouro que guarda em sua casa: uma admirável biblioteca onde se vislumbram mais de 3 mil títulos.

No arsenal literário, as armas ali à disposição ocupam a comprida estante com dicionários em russo, alemão, francês, inglês, e obras-primas, por exemplo, como as poesias traduzidas por ele de um dos maiores poetas russos do Século XIX, Aleksanddr Púchkin.

Nos seus 83 anos, desde os 12 anos o então garoto foi apresentado aos primeiros escritos (livros), mesmo contrariando ao severo pai, que preferia que o menino se dedicasse primeiramente ao trabalho, ao invés de literatura. Tal tarefa foi dificultada pela ausência do calor materno. “Eu não conheci minha mãe e nunca soube nada sobre ela”, conta Casado.

Depois de adulto, meteu a cara no mundo (e nos livros) e arrumou um emprego de redator na Gazeta de Alagoas e anos mais tarde arrumar tempo para cursar Direito e se formar, até conseguir passar no concorrido concurso para uma vaga no quadro de procuradores do Estado de Alagoas. Mas, antes disso, comeu o “pão que o diabo amassou” e enfrentou a solidão das cidades grandes para ganhar (não o pão que o diabo amassou), mas o sagrado pão de cada dia em cidades como Recife e Rio de Janeiro.

Mesmo na presença de Meridiana, de quem enviuvou em 1996, suas atenções raramente orbitavam outro universo senão o de uma já admirável biblioteca. Sua erudição e disciplina o fizeram um sujeito de poucos amigos.

“São 3 mil títulos e olha, melhor companhia que livro, só a das mulheres”, crava o tradutor, escritor, jornalista e procurador aposentado, que está lançando sua terceira obra intitulada “Antologia Prospectiva”, um livro que traz à tona um conjunto que apresenta ao leitor poesias, crônicas, romances, traduções, ensaios, contos e críticas de sua lavra ao longo de mais de 50 anos dedicados às letras.

É um livro que compila tudo que escreveu nesses anos, espécie de antologia, como ensaio sobre o escritor Machado de Assis, por exemplo. “Eu faço comentários sobre o clássico Dom Casmurro, e decifro alguns enigmas do Machado nessa obra”, adianta Casado.

A obra não é exatamente o que se pode dizer que está saindo do “forno” porque foi produzida em 2017.

“Graciliano não era comunista coisa nenhuma”

Ao falar sobre a admiração que tem sobre alguns escritores e desabafar sobre o não reconhecimento do público e da crítica alagoana em relação a valores da terra como ele, José Casado faz uma revelação sobre o conterrâneo e consagrado romancista, jornalista pertencente ao modernismo, autor do clássico “Vidas Secas”, Graciliano Ramos.

“O escritor alagoano não é reconhecido, não vende, porque as pessoas aqui têm preconceito com o escritor da terra”, e alfineta, ao citar o ícone da literatura brasileira e conterrâneo. “Veja o exemplo de Graciliano Ramos. Ele teve que sair daqui para ser reconhecido, aqui era perseguido e caluniado. Foi preso como comunista sem nunca ter sido comunista coisa nenhuma, apesar de ter sido filiado ao Partido Comunista, mas foi tudo cena do Graciliano”, crava José Casado.

“O Graciliano foi levado para o Rio de janeiro, preso, e foi colocado no meio dos comunistas, ladrões e presos comuns. Inteligente, um cara vivido, pois tinha sido vereador e prefeito no interior, ele teve foi sorte porque os presos chegavam e pediam: ‘doutor, veja essa carta aqui pra mim, e Graciliano, esperto, escrevia, traduzia e conquistou aqueles presos. Tanto que foi assim que os chefes de quadrilha diziam: ‘nesse aqui ninguém toca, mas ele não era comunista, apenas se aproveitou e ganhou fama”, completa o escritor.

“Que Bolsonaro não saiba disso”, diz sobre livro

José Casado traduziu centenas de poesias de um dos maiores poetas russos do Século XIX, Aleksandr Púchkin – reunidos no volume Púchkin – Poesias Escolhidas (Nova Fronteira, 1992).

“Passei dois anos para fazer a tradução de Púchkin, um trabalho que requer muita disciplina”, disse o tradutor. “Eu traduzi do Russo para o português, cuja edição foi terminada em 1992. Mas comecei a trabalhar na época do comunismo na União Soviética. Muita gente me olhava meio atravessado na época, porque você sabe como era né? Essa história de comunismo e tal”.

“Que o (presidente) Bolsonaro não saiba disso”, diz o escritor, em tom de blague, ao se referir à neura sobre o anticomunismo que assombra o atual presidente da República, ao lembrar de

quando iniciou o trabalho de tradução do poeta russo ainda nos anos 1980 em meio à Guerra Fria entre russos e americanos e tempos de anticomunismo.

Para traduzir a dificílima língua russa para o português, Casado conta que precisou de um atalho. “Eu já estudava o francês e tinha um certo domínio. Daí para traduzir a obra de Púchkin foi mais fácil”, conta.

Outra obra-prima no rico acervo de José Casado é a coleção raríssima do clássico em quadrinhos americano Little Nemo, que aborda a história de um dos maiores viajantes do século XX. A criação mestra do autor Winsor McCay (1869–1934) Casado mandou buscar longe.

“Encomendei direto dos Estados Unidos e gastei uma nota, viu!”, lembra.

Esse material raro sobre um inquieto dorminhoco inspirou gerações de artistas com suas aventuras semanais da cama ao Slumberland, um reino de sonhos de companheiros coloridos, arquitetura elaborada, cenário psicodélico e aventuras emocionantes. O Little Nemo de Winsor McCay 1905–1909 coleciona, em cores gloriosas, todas as 220 escapadas noturnas de Nemo do período de 1905 a 1909. Por meio delas, o leitor se delicia não apenas com o esplendor de Slumberland, uma referência surreal para Robert Crumb e Federico Fellini, mas também o layout pioneiro de McCay e as técnicas de narrativa, seu tempo e ritmo e detalhes arquitetônicos extraordinários.

Para Casado, Lêdo Ivo era escritor “bem esperto”

Além de dar suas impressões sobre o Mestre Graça, José Casado também não poupou observações sobre outro personagem ilustre da cena da literatura brasileira, e, assim como Mestre Graça, também nascido em terras caetés.

“Lêdo Ivo era um cara de talento, muito jeitoso e muito vivo. Até a Braskem, essa que está atolando a gente aqui, publicou as obras completas do Lêdo”, diz Casado, ao criticar a empresa acusada de causar sérios transtornos no bairro onde o escritor e tradutor mora numa bela casa. A Braskem é acusada de ser a principal causa de fissuras e crateras no bairro do Pinheiro e prejudicar milhares moradores no bairro.

“O Lêdo, por exemplo, foi patrocinado pela Braskem. Que interesse teria a Braskem em publicar todos os livros de poesia de Lêdo? Menos um desses livros, o Réquiem, que foi publicado em Cuba e patrocinado na época do regime cubano. Por isso que este livro não foi publicado pela Braskem, que não iria querer publicar algo do regime cubano. Mas deixo claro que era um cara de talento, mas Lêdo era muito vivo”.

Esquecido em Alagoas, mas celebrado fora daqui

José Casado pode até não ser celebrado na sua terra natal, mas pode se vangloriar pois figura como escritor de escol no cenário literário brasileiro. Isso pode ser constatado após ser citado com críticas positivas sobre seu trabalho como escritor e tradutor.

José Casado faz críticas sobre leitor alagoano que não valoriza os escritores da terra (Foto: Edilson Omena)

Um bom exemplo disso é a crítica feita pelo Jornal das Letras, do Rio de Janeiro, por conta de sua primeira obra lançada no ano de 1966, intitulado “Livro Branco da Crítica Literária”. Diz o

texto: “José Casado Silva exerce a crítica literária na imprensa de Maceió e reúne neste volume estudos e notas interpretativas de prosadores e poetas nacionais e estrangeiros. Na qualidade de crítico atento às formas do pensamento contemporâneo, participa do debate em torno de problemas literários em seu duplo aspecto: o social e o estético, revelando argúcia intelectual e sensibilidade, denunciados em juízos corretos e válidos”, diz a crítica do Jornal das Letras, publicada em agosto de 1966.

Sobre a tradução feita sobre a celebrada obra do poeta russo Aleksandr Púchkin, o jornal a Folha de São Paulo também publicou texto elogioso do renomado escritor Nelson Ascher, no caderno 6, pág 8, no dia 17 de janeiro de 1993. Diz o texto: “Uma tradução como esta , que seu rigor formal supera de longe a média do que se faz na língua ao trazer para ela algumas das melhores composições breves de Púchkin, já é, sem dúvida, um trabalho de exceção que, por isso mesmo, merece todo reconhecimento”. Outro reconhecimento digno de registro partiu do intelectual Boris Schnnaiderman, em carta ao tradutor datada em 15 de março de 1993 que diz: “Um trabalho realmente meritório”, diz a missiva ainda sobre o disciplinado trabalho de tradução do poeta russo por Casado.

Fonte: Tribuna Independente / Wellignton Santos

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