Educação

2 de dezembro de 2018 16:59

Pequenos cientistas: crianças de Maceió protagonizam invenções

Reformas e manutenção nas escolas e creches, como foi o caso do Cmei Hermé Miranda, contribuem para as atividades

↑ Foto: Secom Maceió

Transformar legumes em miniatura de animais, confeccionar brinquedos com materiais que já poderiam estar no lixo e incentivar brincadeiras antigas. Com essas e outras iniciativas, crianças de 3 a 5 anos estão aprendendo conceitos de ciência, de forma prática, nos Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis) de Maceió. O resultado do trabalho foi premiado na 70ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), um dos maiores eventos científicos da América Latina, e apresentado em várias universidades.

As crianças compartilham com os colegas, sentadas em círculo no pátio da creche, como foi a produção do pião, feito de CD, ximbra, tampa de garrafa pet e cheio de cores.  Os pequenos participaram da confecção do brinquedo, com ajuda das educadoras, e narraram cada etapa. No momento da pintura, a educadora foi apenas expectadora de situações de descobertas.

“Em casa, eles pediram para os pais CDs e aqui produzimos juntos. E quando as crianças foram pintar, foi uma surpresa muito grande, porque começaram voluntariamente a misturar tintas, sem nenhuma interferência minha, mas por curiosidade e foi muito lindo ver essa descoberta por parte delas e a reação de cada uma. Uma falou bem alto: olhem, juntei o vermelho com verde e o CD ficou marrom”, contou a professora Ana Quitéria.  “Ou seja, não tem como a gente desvincular a ciência da educação, porque a criança é cientista por natureza, ela tem a curiosidade e quer descobrir a todo o momento”, acrescentou.

Esse resultado faz parte dos trabalhos produzidos por 120 crianças das 10 turmas do Centro Municipal Hermé Miranda, no Tabuleiro do Martins.  A exposição da criatividade da garotada foi realizada na 4ª Mostra de Arte, das turmas da manhã e da tarde. Para estimular a interação e a socialização das crianças, a equipe pedagógica definiu o tema “Brinquedos e Brincadeiras do Tempo dos Avós” para envolver a família e proporcionar liberdade para a desenvoltura das crianças.

Nos estandes, estavam brinquedos, representações de objetos antigos e até casa de taipa. Carrinho feito de lata, palitos de picolé transformados em aviãozinho e pneus serviram para exposição de fotos. Tudo foi organizado a partir da curiosidade das crianças, que perguntaram aos avós sobre as atividades da época de infância. Além disso, os educadores prezaram em reutilizar materiais do dia a dia, para ensinar desde cedo a preocupação pela sustentabilidade.

Ana Clara, de cinco anos e da turma do 2º período, gostou da programação e se apegou à garrafinha de fazer bolhas de sabão.  “A gente pegou uma garrafa, a tia cortou e depois a gente enfeitou aqui [com emborrachado], colocou água e depois sabão. Eu gostei de fazer isso. Agora é só soprar”, explicou Ana Clara Bezerra de Moraes, de 05 anos, ao demonstrar a brincadeira e estourar bolhas, garantindo risadas das colegas.

Prêmio

Foi a partir de experiências assim que as professoras Ana Quitéria, Lúcia Ribeiro e Lucineide Ferreira elaboraram uma pesquisa e apresentaram o trabalho “Práticas Significativas na Educação Infantil: Repertórios Lúdicos”.  A iniciativa foi premiada na Sessão de Pôsteres da 70ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). O evento foi realizado em julho na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e é considerado o maior na área científica na América Latina.

A apresentação teve como base uma atividade iniciada pelas crianças. Um simples pedaço de madeira velha foi encontrado no próprio espaço e colocado sob pneus.

“Nesse dia, todo planejamento preparado precisou ser deixado de lado, porque o interesse e a criatividade das crianças foram muito mais significativos e nós queríamos saber quais as aprendizagens seriam alcançadas. Apareceram nomes distintos para o brinquedo, como escorrega-rega, escorrega-rela, escorregador e gangorra. Observamos e deixamos que as crianças conduzissem aquela experiência e só intervimos quando foi necessário apresentar regras para a brincadeira ficar organizada”, explica Lúcia Ribeiro, Doutora em Educação.

“O processo avaliativo se dá a partir do olhar e da escuta sensíveis e o ambiente vai além da simples visão retrógrada de creche. Não é um espaço para deixar a criança passar o dia enquanto os pais trabalham. É uma etapa essencial para a criança que vai para a escolarização futura no fundamental. Nós temos várias linguagens que perpassam os campos de experiências no currículo. Isso traz uma aprendizagem significativa para a criança e também para o professor”, acrescentou a educadora.

Trabalho em equipe

A diretora do Cmei Hermé Miranda, Elaine Delfino, enfatiza que os resultados positivos e o reconhecimento são frutos de um trabalho pedagógico em equipe. “Aqui, por exemplo, foi uma mostra construída ao longo de duas semanas, envolvendo educadores e os pais, que visitaram as apresentações e saíram encantados e satisfeitos por verem os filhos desenvolvendo as atividades”, disse.

O trabalho premiado e outros artigos já foram apresentados fora do estado.  A defesa do uso de material não estruturado na metodologia da educação infantil aconteceu em eventos e universidades em Sergipe, Tocantins, Paraná e Paraíba. Neste ano, as docentes publicaram o material na revista Saberes Docentes em Ação.

Incentivo

Mais quatro projetos, com discussões metodológicas, de professores da Rede Municipal de Ensino também foram premiados durante a SBPC. Os docentes tiveram o apoio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) para realizar a inscrição no evento. Além de um espaço da Semed no evento, houve a visita de alunos durante a programação.

“É um incentivo da Prefeitura em oportunizar que os professores não só participem de grandes eventos, como a SBPC, mas que eles possam fazer pesquisa para desenvolver e partilhar o conhecimento. Foi também um momento de muito entusiasmo ver nossas crianças conhecendo os trabalhos científicos de perto e tudo isso contribui para o que é desenvolvido na educação infantil. Ela não é feita só da transmissão de conhecimento, mas saber como esse conhecimento se dá”, destaca a secretária municipal de Educação, Ana Dayse Dórea.

As reformas e manutenção nas escolas e creches, como foi o caso do Cmei Hermé Miranda, contribuem para as atividades, como enfatiza a gestora. “Para ter um espaço agradável, precisamos de um ambiente adequado onde as crianças permaneçam um período ou o dia inteiro e que também atenda as necessidades dos professores. Por isso, a gente vem melhorando a estrutura das escolas e creches com reformas e manutenção”, destacou.

Metodologia

O trabalho desenvolvido com 8.400 crianças nas 59 instituições de educação infantil, em Maceió, é definido com a proposta pedagógica elaborada e implantada a partir de pesquisas e estudos realizados por educadores da rede e por pesquisadores da área.  A coordenadora de Educação Infantil da Semed, Angelina Araújo, assegura que a formação contínua de professores e a adequação dos espaços são aliadas desse processo.

“A Semed investe fortemente em formação para os professores, com especialistas da área e de referência nacional. E desde 2013, realiza adaptações nos Cmeis, na perspectiva de aproximar ao máximo as crianças de experiências com água, terra, plantas e com áreas que proporcionassem o brincar livre. Os ambientes trazem hoje banheiros adaptados, bancadas, quadros e demais acessórios que hoje estão ao alcance das crianças, possibilitando sua autonomia nas escolhas pedagógicas”, pontua a coordenadora.

Outro investimento na Rede foi a aquisição de jogos e brinquedos pedagógicos que complementam a implantação da proposta pedagógica. “Os benefícios são traduzidos no bem estar, no grau de desenvolvimento e aprendizagem da criança, que investiga, questiona, tem autonomia, faz escolhas, brinca, interage e tem seus direitos preservados”, argumenta Angelina.

Fonte: Assessoria

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