Economia

Existência do cheque bancário está perto do fim

Forma de pagamento praticamente desapareceu do comércio e pessoas mais novas desconhecem esta forma antiga de transação

Por Valdete Calheiros / Tribuna Independente 12/09/2026 08h45 - Atualizado em 12/09/2026 08h56
Existência do cheque bancário está perto do fim
A cada ano, o talão de cheque vai sumindo da vida dos alagoanos e com o avanço da tecnologia deve ficar como uma lembrança do passado - Foto: Reprodução

Ao que tudo indica o uso de cheques em Alagoas já foi extinto mesmo com a forma de pagamento ainda vigente, de acordo com o Banco Central. Nenhuma das lojas ou estabelecimentos comerciais percorridos pela reportagem do jornal Tribuna Independente, ao longo da semana, aceita mais o talão de cheque como forma de pagamento.

Para a caixa Beatriz Soares Silva, 20 anos, o cheque faz parte apenas das histórias contadas pela avó e pelo pai, de 53 e 40 anos, respectivamente. “É até engraçado imaginar que um dia, pagamentos e compras foram feitos utilizando um pedaço de papel que, diante do banco, virava dinheiro. Parece até mágica. Ou melhor, parecia, não me imagino no tempo em que não existia Pix ou pagamento por aproximação”, contou, espantada.

Aos 20 anos, Beatriz Soares diz que nunca viu um talão de cheque (Foto: Adailson Calheiros)

A farmacêutica Elizaura Alencar, 45 anos, recordou, com saudosismo, o tempo em que recebia e emitia cheques. Ao mesmo tempo em que afirmou estar super acostumada com os meios de pagamentos eletrônicos vigentes.

“As pessoas estão muito práticas. Tudo está muito corrido. Ninguém perderia mais tempo preenchendo um cheque. Atualmente, acredito que nem pagamento em espécie é feito mais, quem dirá com cheques”, avaliou ao dizer que vai aproveitar a oportunidade para conversar sobre o meio de pagamento com o filho de 19 anos.

Também de 19 anos, Ryan Douglas Marques só conhece o cheque através de filmes e novelas da época correspondente ou graças às histórias contadas pelos membros mais velhos da família.

“Se hoje em dia já existe golpes, imagine antes. Qualquer pessoa podia ter a assinatura falsificada. Devia ser uma grande confusão. E confiar em um pagamento feito com cheque e descobrir, ao chegar no banco, que não tinha dinheiro”, indagou.

O uso de cheques caiu 18% no ano passado e atingiu o menor patamar em 30 anos, conforme levantamento da Febraban. Os números mostraram também uma retração de 96,6% desde 1995. Na comparação com 1995, início da série histórica, quando foram compensados 3,3 bilhões de cheques, a queda foi significativa e alcançou 96,62%.

Apesar da queda, o uso do documento ainda sobrevive, mesmo diante do grande avanço dos meios de pagamento digitais, como internet e mobile banking e a criação do Pix em 2020.

Um levantamento feito pela Febraban (Federação Brasileira de Bancos) mostrou que os brasileiros usaram 112,5 milhões de cheques no ano passado. Entretanto, as estatísticas revelam que o número de documentos compensados no país cai ano a ano.

O levantamento tem como base a Compe – Serviço de Compensação de Cheques. Em 2025, o total do volume financeiro dos cheques somou R$ 472,7 bilhões,

A Febraban também mostrou um aumento no valor médio dos cheques. O tíquete passou de R$ 3.800,67 em 2024 para R$ 4.199,77 em 2025. Isso indica que o instrumento tem sido mais utilizado em transações de maior valor, enquanto pagamentos do dia a dia migraram para meios digitais.

Segundo o diretor de Serviços e Segurança da Febraban, Raphael Mielle, a queda consistente no uso do cheque reflete a consolidação das soluções digitais no cotidiano dos brasileiros, principalmente com o avanço do Pix.

Apesar disso, segundo a Febraban, o cheque ainda é usado em situações específicas, como garantia em compras ou operações de maior valor, como, por exemplo, a utilização como caução.

A série histórica mostra que a redução no uso do cheque se intensificou nos últimos anos, especialmente depois da popularização de meios eletrônicos de pagamento.

Em 2020, por exemplo, foram compensados 287,1 milhões de cheques, número que caiu para 112,5 milhões em 2025. A tendência, segundo o setor bancário, é de manutenção da queda, com o cheque ocupando papel cada vez mais restrito no sistema de pagamentos brasileiro.

O volume de cheques compensados diminui ano a ano de forma acelerada. O documento segue ativo em nichos específicos, como cauções de aluguel ou garantia em compras.

Farmacêutica Elizaura Alencar diz que os meios digitais são mais práticos e ninguém quer perder tempo (Foto: Adailson Calheiros)

O Banco Central do Brasil não tem plano para proibir o cheque por lei, mas os bancos reduzem a oferta de talões por conta própria.

As estatísticas de Pagamentos de Varejo e de Cartões no Brasil compilam informações enviadas pelos diversos participantes do mercado referentes ao uso dos instrumentos de pagamento no país, ao mercado de cartões de pagamento, aos canais de acesso às transações bancárias e informações coletadas das infraestruturas operadas pelo Banco Central. Em relação às transações de pagamento utilizando dinheiro (em espécie), as estatísticas contemplam apenas os dados de saques.

Segundo a Febraban, as empresas são responsáveis por mais de 50% dos cheques emitidos, geralmente devido à relação de confiança com fornecedores e maior prazo para pagamentos.

“Entre pessoas físicas, os cheques ainda são utilizados tanto pela confiança entre clientes e lojistas quanto pela possibilidade de obtenção de melhores condições de pagamento, como descontos e prazos maiores, além de não exigir limite de crédito disponível”, explicou o diretor de Serviços e Segurança da Febraban, Raphael Mielle.

Sobrevivem

Mais de 1 bilhão de reais são movimentados todos os anos com cheques. Mas, afinal, quando ele é útil?

Quem nasceu no fim dos anos 90 provavelmente nunca usou talão de cheques – ou mesmo esteve com um em mãos. Apesar de mais raros, os talões de cheque continuam existindo.

Basicamente os talões de cheques fornecidos pelos bancos são uma espécie de bloquinho com várias folhas retangulares que podem ser destacadas. Essas folhas já vêm com diversas informações impressas – como nome, banco, agência.

No entanto, elas também possuem campos a serem preenchidos com os valores que devem ser pagos para quem recebe e a assinatura, que confirma a identidade de quem emitiu. Ou seja, para passar um cheque, a pessoa precisa pegar uma dessas folhas e inserir o valor a ser pago, nome do recebedor e a data do pagamento.

O cheque é regulado pela lei 7.357/85, que o define como um “título de crédito que representa uma ordem de pagamento à vista”. Ele também é uma espécie de acordo de confiança do pagamento, porque não dá para ter certeza se há saldo na conta do emissor para compensar o cheque.

Para ter direito ao talão de cheque, é necessário possuir uma conta corrente ativa em um banco ou instituição financeira que emita as folhas. Além disso, é importante estar com todas as contas em dia e não possuir pendências nos órgãos de proteção ao crédito, como SPC e Serasa.

Uma vez que a folha do cheque foi preenchida com todas as informações solicitadas, como nome, valor, recebedor e data, ela vale como um contrato que autoriza o recebedor a sacar o valor da conta pagadora.

Um dos motivos pelos quais os cheques ainda são muito utilizados é seu uso como caução – quando é necessário deixar uma garantia em uma negociação.

O cheque também segue sendo comum para algumas pequenas empresas que aceitam o pagamento pré-datado, que é aquele que será compensando somente um tempo depois da data da compra. Ou seja, você faz a compra hoje, mas o estabelecimento pré-data o seu cheque para daqui 30 dias.

O pagamento por cheque às vezes é mais atrativo para os empreendedores, que não têm o custo operacional cobrado pelo uso das maquininhas de cartão e ainda podem repassar a folha para pagar fornecedores.

Além disso, algumas pessoas ainda optam pelo cheque por conta da falta de familiaridade com os meios de pagamento eletrônicos.

Com exceção de instituições financeiras 100% digitais, os bancos tradicionais ainda disponibilizam cheques. As folhas podem ser emitidas em caixas eletrônicos com essa função. Lembrando que existe um limite de unidades que podem ser impressas por vez, e isso pode variar de uma instituição para outra.