Economia
Mercado aquecido eleva a régua para pequenos negócios de casa e construção em Alagoas
Sebrae aposta em capacitação e experiências para apoiar decisões dos empreendedores
O avanço da construção civil continua abrindo espaço para novos negócios em Alagoas, mas o cenário também impõe uma realidade cada vez mais evidente para quem já atua ou pretende ingressar no setor. O mercado aquecido não é sinônimo de crescimento garantido, pois quanto mais empresas disputando clientes, consumidores atentos a preços, custos elevados e margens pressionadas, mais têm aumentado a necessidade de planejamento e profissionalização.
Segundo o DataSebrae, somente em 2025, foram abertas 2.511 empresas ligadas à construção civil em Alagoas. No mesmo período, 1.394 encerraram as atividades, deixando saldo positivo de 1.117 negócios. O resultado confirma a capacidade de expansão do segmento, mas também revela um ambiente mais competitivo, em que entrar no mercado é apenas uma das etapas para construir um negócio sustentável.
Essa característica ganha ainda mais importância quando se observa quem movimenta a cadeia de casa e construção no estado. Dos 25.909 empreendimentos ativos nesse universo, 92% são pequenos negócios. No varejo de materiais de construção, a participação chega a 98%. Ao mesmo tempo, as taxas de mortalidade entre os pequenos negócios são de 23,5% na dimensão mais ampla de Casa e Construção e de 25,5% especificamente no varejo de materiais.
“O segmento de Casa e Construção cresce, mas muitas vezes a gestão de quem abre uma empresa não acompanha esse movimento. Quando temos um ano com muita abertura de CNPJs, mas também com um número expressivo de fechamentos, isso mostra que existe oportunidade, porém também existe mais concorrência, pressão sobre preços e margens e uma necessidade maior de diferenciação. Nosso trabalho é justamente ajudar o empresário a interpretar esses dados e entender onde precisa colocar suas estratégias para melhorar o negócio”, explica Ruan Lee, analista do Sebrae Alagoas.
Crescer vendendo, mas sem perder margem
Se há mais espaço para negócios, os custos ajudam a explicar por que a expansão precisa ser acompanhada com cautela. Dados apresentados pelo Sebrae mostram que materiais, mão de obra e serviços ligados à construção têm avançado acima da inflação ao consumidor, comprimindo as margens das empresas. Ao mesmo tempo, despesas relacionadas à habitação pesam no orçamento das famílias, tornando o consumidor mais seletivo e disposto a pesquisar, negociar, parcelar ou até adiar determinadas compras.
Na prática, acompanhar essas oscilações permite ao empresário tomar decisões mais precisas nas estratégias de vendas.
No varejo de material de construção, entre os itens analisados, mão de obra, tijolos e tintas aparecem entre os que mais pressionaram os custos, enquanto produtos como revestimentos, madeira e materiais elétricos tiveram variações menores.
Entender quais grupos de produtos sofreram menor pressão pode ajudar na definição do mix, em campanhas de vendas e até na forma de orientar o cliente, como explica Ruan Lee:
“A informação precisa chegar ao empresário de uma forma que seja útil para a decisão dele. Se ele entende quais produtos estão pressionando mais o custo da construção e quais tiveram menor variação, consegue pensar em estoque, margem e até em estratégias para impulsionar outras linhas. É deixar o dado mais palpável para que ele consiga olhar para dentro do negócio e decidir melhor”, afirma.
O cliente também mudou
Para o engenheiro e consultor de negócios Cleber Moraes, uma das mudanças mais perceptíveis dos últimos anos está no comportamento do consumidor de Casa e Construção.
Com mais acesso à informação, o cliente chega às empresas depois de pesquisar preços, referências, avaliações e experiências de outros consumidores. Nesse ambiente, oferecer um bom produto ou um preço competitivo já não basta. Atendimento consultivo, experiência de compra, presença digital e conhecimento sobre as necessidades do cliente passaram a fazer parte da disputa pelo mercado.
“O consumidor está muito mais informado e tem várias formas de pesquisar e comparar antes de tomar uma decisão. Por isso, a empresa precisa ir além do produto e do preço. Precisa entregar uma boa experiência, entender a necessidade daquele cliente, oferecer um atendimento mais consultivo e estar presente no ambiente digital, que hoje é uma das primeiras portas de entrada para essa pesquisa”, observa Cleber.
Onde tendências viram estratégia
Além das capacitações e orientações voltadas à gestão, o Sebrae Alagoas vem utilizando experiências de mercado como ferramenta para ampliar a visão dos empresários. Em julho, 13 empreendedores alagoanos participaram de uma visita à exposição RioMar Casa, no Recife, mostra de arquitetura e decoração que reúne marcas e profissionais do setor.
A ação reuniu profissionais de movelaria e arquitetura, além de empresários das áreas de esquadrias e construção, e foi realizada exclusivamente para participantes da comunidade de Casa e Construção, como um dos benefícios oferecidos gratuitamente pelo Sebrae aos empreendedores engajados nas atividades do segmento.
Ruan Lee destaca que esse contato também ajuda a tornar a inovação mais acessível ao pequeno negócio.
“Muitas vezes encontramos uma solução simples que funciona em outro contexto e percebemos que ela também pode ser adaptada à nossa realidade. Isso ajuda a entender que inovação não precisa ser um bicho de sete cabeças. Ela pode estar em uma nova prática, em um processo diferente ou em uma forma melhor de atender o cliente”, afirma.
Há mercado e oportunidades, mas a decisão de empreender precisa considerar custos, concorrência, perfil dos consumidores e capacidade de gestão. Para quem já está nele, o desafio passa a ser transformar informação em vantagem competitiva.
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