Economia
Do bloquinho ao LinkedIn: por que o pós-Carnaval vira gatilho para mudar de carreira
Especialista da Recoloca afirma ao portal Tribuna Hoje que período marca retomada de contratações e exige estratégia, não impulso, para quem quer se reposicionar
O fim do Carnaval costuma funcionar como uma virada simbólica para profissionais e empresas no Brasil. Segundo Juliana Fernandes, especialista em impulsionamento e desenvolvimento de carreira da Recoloca, o período que sucede a folia concentra retomada de metas corporativas, abertura de vagas e decisões estratégicas que impactam diretamente o mercado de trabalho. Em entrevista ao portal Tribuna Hoje, ela explica por que março a maio se tornam meses decisivos para quem deseja reposicionar a trajetória profissional — e como fazer isso com planejamento, clareza e direção.
“Essa percepção existe, sim. O Carnaval é um marco cultural muito importante no Brasil e funciona quase como um segundo Ano-Novo. No calendário, o ano começa em janeiro, mas, na prática, ele engrena mesmo depois do Carnaval”, afirma.
De acordo com Juliana, os primeiros meses do ano são usados por muitas empresas para finalizar orçamento, rodar ciclos de performance, validar headcounts e ajustar metas estratégicas. “Depois do Carnaval, três coisas costumam acontecer quase ao mesmo tempo: as metas passam a ser cobradas com mais intensidade; os projetos começam a rodar de fato; e as posições que estavam em aprovação começam a ser preenchidas”.
Há ainda um fator adicional: o pagamento de bônus. “Como esse período costuma coincidir com o pagamento de bônus, muitas vezes há uma saída natural de profissionais para outras empresas, por decisão deles, o que também gera novas oportunidades.”
Ela destaca que, em 2026, o cenário é particularmente favorável. “O Brasil começou o ano com indicadores muito positivos no mercado formal. A gente vê uma taxa de desemprego muito baixa e uma intenção grande de contratação em diversos setores, principalmente serviços e tecnologia”. Para a especialista, trata-se de uma combinação de orçamento liberado, pressão por resultado e ambiente econômico aquecido — somada ao fator psicológico de reinício que o Carnaval representa.
LinkedIn como ativo estratégico
Apesar do “efeito pós-Carnaval”, Juliana pondera que o erro é esperar a data passar para agir. “Eu acredito que, cada vez mais, as pessoas precisam entender que o LinkedIn não é apenas uma fonte de oportunidades de trabalho. Ele também é um espaço de construção da sua marca profissional e da sua autoridade”.
Entre março e maio, explica, as empresas já operam com metas definidas e passam a acelerar contratações. Nesse contexto, profissionais com presença estratégica na plataforma tendem a sair na frente. “Uma pessoa que não apenas está presente no LinkedIn, mas que realmente usa a plataforma — constrói sua marca, mantém conexão com pessoas do seu networking e interage — tem muito mais chances de aparecer para essas oportunidades”.
Ela observa que muitos só procuram revisar perfil e currículo quando decidem mudar de emprego. “É importante entender o papel real do LinkedIn hoje, porque ele tem se tornado uma porta de entrada para oportunidades que, muitas vezes, nem foram publicadas ainda”.
A especialista elenca quatro pilares para um perfil competitivo: frequência de publicação, qualidade das conexões, interação no privado e clareza do impacto comunicado. “Muita gente escreve apenas o que faz. Mas a pergunta é: seu perfil comunica o impacto que você gera? Uma das habilidades mais valorizadas hoje é a capacidade de lidar com desafios mais complexos. Como você conta isso?”.
O risco do impulso emocional
Se o pós-Carnaval impulsiona decisões, também pode gerar movimentos precipitados. “O erro mais comum é agir por impulso emocional”, alerta Juliana. “Às vezes, a pessoa volta de um feriado insatisfeita e pensa: ‘eu quero uma mudança’. Mas ela não sabe que mudança é essa, nem o porquê.”
Segundo ela, candidatar-se a qualquer vaga sem estratégia raramente produz resultados sustentáveis. Outro equívoco recorrente é apresentar um currículo excessivamente descritivo, focado em tarefas e não em impacto ou complexidade.
Para quem deseja migrar de área, o desafio é ainda maior. “O terceiro erro é querer mudar de área sem construir uma ponte estratégica entre o passado e o futuro”. Conectar experiência prévia às novas competências desejadas é, segundo a consultora, o que sustenta uma narrativa forte e coerente.
“Reposicionamento exige clareza. Clareza e direção. Não é um movimento aleatório e impulsivo, porque o resultado pode até vir, mas, muito provavelmente, não será satisfatório a médio prazo”.
Ruptura ou transição?
Juliana faz questão de diferenciar reposicionamento de mudança de carreira. “Reposicionamento profissional é um ajuste estratégico da sua imagem, das suas competências e da sua narrativa para você se destacar no mercado atual, sem necessariamente mudar de profissão”.
Já a mudança de carreira envolve o “o quê”: trocar de área ou segmento. Em ambos os casos, no entanto, o reposicionamento é a base. “É mudar a forma como você é visto no mercado”.
Ela defende transições estruturadas, e não rupturas abruptas. Cita o exemplo de um profissional de marketing do varejo que deseja migrar para marketing digital com foco em inteligência artificial. “Isso pressupõe posicionamento no LinkedIn, fortalecimento de narrativa, conexão com pessoas da área e engajamento em projetos estratégicos que ampliem exposição e repertório”.
Somente após essa construção interna e externa é que a transição se consolida. “Eu acredito em transição. Uma transição que vem de dentro para fora, que envolve planejamento e adaptação à mudança que se quer construir”.
Movimento lateral ou vertical?
Na percepção da especialista, a busca por promoções e cargos de liderança — movimentações verticais — ainda predomina entre quem procura assessoria estruturada. “Como atuamos como um hub de serviços voltado ao desenvolvimento de carreira, temos orientado decisões que buscam ampliar desempenho no trabalho e na vida e, por isso, temos mais procura pelas posições verticais.”
Ainda assim, ela observa que profissionais em início ou meio de carreira costumam buscar orientação e mentoria para decisões mais amplas, incluindo movimentos laterais.
Um plano de 30 dias para sair da inércia
Para quem quer aproveitar o momento pós-Carnaval, Juliana propõe um ciclo estruturado em quatro etapas.
A primeira é autoconhecimento. “Antes de falar de ação, é preciso falar de ganho de consciência. Você sabe o que quer profissionalmente? Quem é você profissionalmente?” A consultora utiliza metodologias e assessments para mapear padrões de decisão, ambientes que drenam energia e contextos que potencializam desempenho.
O segundo passo é diagnóstico de mercado e clareza de posicionamento. “Que tipo de problema você resolve? Para que tipo de empresa? Em que contexto?” Currículo e LinkedIn precisam refletir essa tese profissional.
A terceira etapa envolve repertório e visibilidade. Se há lacunas de competência, é hora de reduzi-las por meio de cursos, projetos estratégicos ou mentoria. Paralelamente, fortalecer o networking de forma intencional é indispensável.
Por fim, vem a ação direcionada: candidaturas com aderência real, conversas com recrutadores especializados e aproximação de profissionais que estejam um ou dois passos à frente na trajetória desejada.
“Reposicionamento não é desespero; é estratégia”, resume. Para ela, o maior erro do pós-Carnaval não é ficar parado, mas “se mover sem saber para onde está indo”.
Em resumo, seguindo as falas de Juliana, entre o bloquinho e o LinkedIn, a diferença não está no impulso de mudar — mas na capacidade de transformar esse impulso em plano estruturado.
Mais lidas
-
1Café da manhã
Cesmac reafirma compromisso com a formação integral e apresenta oficialmente a Cesmac Run
-
2MDB alagoano
Prefeito André Almeida reforça aliança em Maceió e anuncia programação de 64 anos de Mar Vermelho
-
3Maceió
Movimentos agrários ocupam prédios federais e cobram desapropriações em Alagoas
-
4Reforma agrária
Conflitos de terra em Alagoas têm aumento de 65%
-
5Acesso integral
Alagoas: Justiça obriga plano de saúde a custear integralmente terapias de pessoas autistas



