Economia

10 de dezembro de 2019 08:22

Quilo da carne chega a quase R$ 50 em Maceió

Produtores dizem que estão repondo perdas; especialistas veem desvalorização do câmbio e aumento nas exportações como causa

↑ Carne está custando mais caro (Foto: Ilustração)

O consumidor já sentiu o elevado preço da carne, uma alta desproporcional que elevou a inflação da cesta básica e muda a realidade na casa de muita gente. O quilo de carne de 1ª já chega a quase R$ 50. Há quem diminua o consumo, ou simplesmente troque por outros alimentos mais em conta, como frango ou salsicha.

O motivo da alta é controverso. De um lado os supermercados acreditam na escassez do produto como motivo, por conta da exportação. O produtor de gado, por sua vez, alega uma inflação acumulada há 5 anos. Especialistas responsabilizam também a exportação e a desvalorização cambial.

Segundo Raimundo Barreto, presidente da Associação dos Supermercados de Alagoas, o problema é a China. “Está pegando todos esses produtos e levando pra lá, isso faz com que nosso mercado interno fique sem o produto. Quando o mercado está estável o preço cai, quando falta o preço sobe”.

Ele acredita que isso é temporário. “Tenho conhecimento de que esse preço vai baixar daqui para janeiro, é questão de tempo. O mercado tem que se regulamentar. Se continuar do preço que está é inviável o consumo se manter como vinha antes. O aumento foi relativamente grande, o salário do consumidor não acompanha. Para o setor de supermercado é ruim porque a gente deixa de vender o produto como vendia antes, mas é ter um pouco de paciência até normalizar a situação”.

Considerando as adaptações do consumidor, ele acredita que as compras podem migrar. “Isso vai passar para outro tipo de consumo, como ovos, peixe, frango, que substitui a carne”. E aceita que essa não é uma realidade local. “É um problema do Brasil todo, não só de Alagoas”.

Consumidor
O impacto já chegou na mesa das pessoas. Paula Almeida relata que a família está mudando os hábitos para se adaptar.

“Não chegamos ao ponto de deixar de comprar, mas estamos diminuindo a quantidade de consumo e substituindo por outros tipos de carne, como frango, linguiça e salsicha”.

Ela menciona conversas com colegas de trabalho e garante que essa é uma realidade de muitas casas. “Está afetando muita gente”.

O produtor de gado Eduardo Albuquerque discorda. Ele acredita que o reajuste é necessário porque o valor da arroba do boi estava defasado. “Estava há 5 anos sem subir, custando R$ 110, aí ano passado subiu 50 reais e esse ano teve essa alta e foi para R$ 210. Compare a inflação acumulada nesses 5 anos, a carne ainda está abaixo da alta do salário mínimo”.

Confiante de que o mercado se acostuma com os novos valores, Eduardo garante que esse impacto e queda no consumo é só no início. “Aos poucos volta. Há 6 anos teve um aumento de 10 para 140, teve impacto na primeira semana, é horrível nos primeiros 15 dias, depois volta”.

Ele acredita que em janeiro ainda deve sofrer novo aumento.

“Em janeiro deve subir mais 10%, porque os produtores estão vendendo, vai faltar boi. É a lei da oferta e da procura”.

Na outra ponta, o consumidor sente a diferença. “Antes era bem mais em conta: 17, 18, até 19 reais a gente comprava. Agora eu olhei ali está R$ 24. Não é de primeira, é osso”, disse Glauco Cahu, que olhava as vitrines e não levou a carne pra casa. “Eu estou olhando porque aqui tem dia melhor para comprar. Final de semana tem promoção”.

Já o gerente do supermercado Unicompra Ponta Verde, Josivaldo Monteiro, não percebe a diferença ainda no faturamento.

“Não sentimos muito a queda no consumo. É um produto que não pode faltar na mesa, não afeta tanto a nós. O consumidor continua sendo fiel aos hábitos. Tem pessoas que procuram outras coisas para substituir a carne, mas para nós o impacto é pequeno”.

Economista garante que preço já estava inflacionado

Na avaliação da economista Luciana Caetano, não é bem assim. “É falácia dizer que não teve reajuste nos últimos anos. Eles estão tentando vender isso para a população porque a margem de lucro está mais alta. A carne teve um aumento muito grande em 2015, que varia entre 16 e 20% (depende do estado e tipo de corte). Foi um aumento maior do que o que teve agora (entre 11 e 12%). A inflação estava mais alta naquele período”.

Mesmo depois desse alta, ela explica que o setor se manteve atualizado. “Nos anos seguintes teve um aumento menor, alinhado com a inflação. Não se justifica a tese que houve defasagem no preço da carne, continua sendo um dos produtos mais caros da cesta básica, a margem de lucro desse setor é muito alta”.

Luciana vai além e avalia o setor produtivo de forma crítica. “A carne é produzida por um setor oligopolizado: a exportação. Tem uma força muito grande do ponto de vista político e econômico, então o preço é acordado entre os que dominam o mercado, o cartel do agronegócio”.

O produtor Eduardo Albuquerque admite que houve um aumento de quase 50 reais em um período de apenas 15 dias. Apesar de ser favorável à alta, ele alega que não tem como definir o valor, só acompanha o mercado. E garante que independente do preço, sempre precisa vender o gado nos períodos específicos, porque tem custo alto no dia a dia.

“Tenho uma quantidade de boi que preciso vender. O custo da cabeça de gado é de R$1,5 por dia”.

O produtor relaciona o valor da arroba com o valor do dólar. Segundo dados enviados por ele, entre 1997 e 2019 a o boi passou de R$ 23,42 a R$ 199,25. No entanto, o valor em dólar que era U$ 23,8, passou a U$ 47,55. “Se você analisar, vai perceber que teve ano que a arroba estava mais cara”.

A economista também menciona a moeda e as exportações como fatores que influenciam. “A desvalorização do câmbio tende a elevar demanda dos compradores como Rússia, China, Japão e Coreia. Mas a china pelo tamanho da população é o parceiro comercial mais importante”.

“Desvalorização cambial com barateamento do produto no mercado internacional, crescimento da demanda pelos países importadores e a força do cartel do agronegócio aqui são responsáveis pela alta de preço. Em muito menor grau é a variação dos preços nos últimos anos”, conclui Luciana.

Fonte: Emanuelle Vanderlei / Tribuna Independente

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