Cooperativas

20 de junho de 2021 11:57

Novo modelo de gestão reduz perdas e otimiza trabalho de operadores em fazendas

Produtores de cooperativa que adotou sistema lean, focado em melhoria de processos e resolução de gargalos, reduziram em 34% as perdas na colheita de soja

↑ Mapeamento da colheita sendo feita na fazenda Vaca Branca, no Mato Grosso do Sul (Foto: Márcio Carneiro / Arquivo Pessoal)

O uso de novas técnicas de gestão e otimização de processos têm aumentado a produtividade e reduzido as perdas na colheita de produtores rurais do Mato Grosso do Sul.

A ferramenta é o sistema lean, cujas boas práticas que vão desde a organização e limpeza dos locais de trabalho até formas mais eficientes de planejar, executar e resolver problemas no campo.

Egídio Renostro Tsuji, coordenador de novos negócios e Gestão da Qualidade da Copasul (Cooperativa Agrícola Sul Matogrossense), afirma que produtores de soja que adotaram a gestão lean conseguiram reduzir as perdas na colheita para 0,79 saca de soja por hectare.

Isso representa uma diminuição de mais de 34% com relação à média de perda da região, que na última safra foi de 1,2 sacas por hectare. O resultado, diz ele, ainda é 21% menor do que a perda “mínima aceitável” pela Embrapa, que é de uma saca por hectare.

“Esses produtores têm agora, como meta, meia saca de perda, o que é bem mais abaixo do historicamente aceitável na região. É um excelente resultado”, ressaltou o coordenador. “Hoje, temos a visão de que o associado deve evoluir e ter uma gestão lean dentro da fazenda. Queremos aumentar e disseminar isso, para profissionalizar fazendas que hoje têm uma gestão familiar”, completa.

Com sede em Naviraí (MS), a Copasul reúne 1.608 cooperados em nove municípios, que representaram um faturamento de mais de R$ 2 bilhões só em 2020. De acordo com a cooperativa, as propriedades rurais que estão adotando o sistema lean na região ainda são minoria, mas as que implantaram o modelo têm resultados expressivos.

“A gestão lean é uma filosofia muito objetiva: trabalhar e melhorar as pessoas constantemente, e consequentemente, a gestão, a visão, a eficiência como um todo. A ideia não é aumentar ou diminuir equipes, e sim otimizar cada um que faz parte dela”, afirma Márcio Carneiro, gerente agrícola da fazenda Vaca Branca, que aderiu ao sistema há pouco mais de dois anos.

Tsuji, da Copasul, concorda. “No final, a gestão lean é sobre o desenvolvimento das pessoas. O operador é quem toca tudo, identifica um problema, propõe soluções. E, muitas vezes, eles não têm noção do que exatamente estão fazendo dentro do processo”.

Gestão lean aplicada aos operadores da fazenda Vaca Branca (MS) (Foto: Márcio Carneiro / Arquivo Pessoal)

Carneiro conta que conseguiu reduzir as perdas na colheita praticamente pela metade do mínimo aceitável pela Embrapa, ou seja 0,58 saca por hectare. “Isso é um número muito bom. Representa ganhos, por exemplo, de mais R$ 150 mil”, observa.

Carneiro conta que conseguiu reduzir as perdas na colheita praticamente pela metade do mínimo aceitável pela Embrapa, ou seja 0,58 saca por hectare. “Isso é um número muito bom. Representa ganhos, por exemplo, de mais R$ 150 mil”, observa.

Ele conta que um dos divisores de água foi o entendimento da equipe. “Quando começamos a mostrar dados e resultados para a equipe, apontar os problemas e os gargalos, os próprios funcionários começaram a trazer soluções. As ideias surgiram aqui dentro, não foi necessário trazer alguém de fora para isso.”

O gerente ainda destaca que antes, não se mediam as perdas. “Não existia um costume e, a partir do momento em que começamos a medir, construímos um padrão do que queremos. Hoje, essa forma de trabalhar já virou um hábito dos operadores”, explica.

Um dos pontos positivos destacados após a adoção da gestão lean foi a diminuição em quebras de máquinas na fazenda. “Nós trabalhávamos com a velocidade de 7km/h no plantio. A partir do momento que começamos a medir isso, entendemos que era possível reduzir. Com isso, planta-se menos no dia, então tem que compensar em outros processos, como gastar menos tempo para abastecer a plantadeira com adubo e semente, menos tempo com quebra e outros aspectos. Com a redução da velocidade, obtivemos redução de quebras de máquinas agrícolas. E quem deve enxergar isso no dia a dia é o próprio operador”, exemplifica Carneiro.

Bruno Battaglia, especialista em sistema lean no agronegócio do Lean Institute Brasil, ressalta aspectos do modelo que tem gerado transformação nas fazendas, como propósito, processos, pessoas e comportamento da liderança. “Queremos melhorar processos e contribuir para as pessoas que tocam o trabalho diretamente, embutindo novas formas de pensar para que enxerguem os desperdícios e consigam resolver problemas”, diz.

Segundo ele, a gestão lean é um conceito novo para o setor, mas muito consolidado em outros ramos da economia como construção civil, manufatura, serviços e indústria. “O campo ainda não conhece em larga escala, mas já vemos um crescimento no interesse. Gostaríamos que isso fosse levado a todas fazendas do Brasil, porque acreditamos que o lean é uma nova fronteira do pensamento.”

Tsuji, da Copasul, destaca dois pontos principais: o conceito do monitoramento de perdas e a busca pelas causas e caminhos para solucionar os problemas. “Perdas na colheita eram um desperdício que os produtores geralmente não acompanhavam e nem mensuravam. E a gestão lean tem mudado isso”, destaca.

Outro aspecto apontado pelo coordenador é a introdução de conceitos e práticas da chamada “melhoria contínua” no campo. Segundo ele, os produtores começaram a analisar com olhar mais acurado as atividades estratégicas, como plantio, colheita e pulverização, para identificar, em cada uma delas, oportunidades de melhorias nos processos.

As perspectivas de Tsuji são otimistas. “A tendência é de que aqueles produtores que estiverem antenados, não só sobre produção e ganhos, mas também que quiserem cuidar da fazenda como um todo e enxergar seu negócio de forma empresarial, demonstrem cada vez mais interesse.”

O especialista do Lean Institute Brasil atuou recentemente no Mato Grosso do Sul disseminando a gestão lean entre trabalhadores rurais. Ele afirma que o modelo já comprovou que multiplica a competitividade por meio da redução de custos e do aumento de produtividade e, com isso, pode revolucionar o agro.

“E, como tem sido feito pela Copasul, as cooperativas podem ser agentes estratégicos disso ao disseminarem entre associados os conceitos e práticas lean que, como já se comprovou, geram resultados concretos”, afirma Battaglia.

Fonte: Globo Rural / Texto: Marcos Fantin

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