Cooperativas

14 de fevereiro de 2020 18:25

Mulheres de comunidades quilombolas não se deixam abater pela crise e fundam cooperativa

No Vale do Mundaú, cerca de 20 delas dão exemplo de diversificação

↑ Parte das mulheres remanescentes de quilombolas que driblaram a crise da cultura da laranja lima, em Santana do Mundaú, e fundaram uma cooperativa com diversificação de produtos que hoje tem dado bons resultados na agricultura familiar (Foto: André Palmeira / Agência Alagoas)

Principal produtor de citros do Brasil, tendo a laranja lima como o principal oásis desta cadeia produtiva, o município de Santana do Mundaú – cerca de 105 Km de Maceió – se tornou há quase três anos alvo da mosca negra. A praga, que ataca mais de 300 espécies de plantas, como citros (laranja, limão e tangerina), atacou quase 100% dos laranjais da região, provocando uma redução superior a 40% na produção local, gerando prejuízos a quase dois mil agricultores familiares que dependem diretamente desta produção.

E dando real sentido à palavra clichê da moda, “empoderada”, mesmo com a tal mosca “bagunçando” a principal atividade econômica da região, o fato não foi capaz de neutralizar os sonhos de cerca de 20 mulheres lutadoras e empreendedoras da localidade que, não se fizeram de rogadas, e criaram alternativas para sobreviver ao dano econômico.

Pertencentes a três comunidades quilombolas de Santana do Mundaú Filuz, Jussara e Mariana, elas arregaçaram as mangas e com o intuito de ajudar os maridos numa solução para vencer a crise da cultura da laranja lima, fundaram, há dois anos, a Cooperativa de Produção de Agricultura da Mulher Quilombola.

A ideia da cooperativa surgiu graças à intermediação feita pela Gerência de Articulação Social do Gabinete Civil do Estado de Alagoas, que propiciou às batalhadoras do Vale do Mundaú conhecerem a experiência exitosa de um dos maiores exemplos de cooperativismo de agricultura familiar do Nordeste e no Brasil, localizado no extremo sul do Estado, em Coruripe.

“Foi providencial para elas esse contato, porque aprenderam as especificidades de como gerir uma cooperativa”, conta a gerente de Articulação Social do Gabinete Civil, Edenilsa Lima, responsável por fazer a ponte entre as mulheres quilombolas e a direção da Cooperativa Pindorama e pasta no Executivo estadual que resguarda os direitos dos povos tradicionais em Alagoas e garantias, entre eles, o das comunidades remanescentes de quilombos que atualmente somam-se 70.

E foi assim que estas mulheres do Vale do Mundaú aprenderam a se virar ao conhecerem a Pindorama, cooperativa com mais de 60 anos de atividade no ramo fundada pelo suíço René Bertholet, que idealizou um lugar onde as pessoas poderiam conviver e desenvolver suas atividades e gerar renda e responsável pela manutenção de uma usina, indústrias de alimentos e pela manutenção de uma comunidade de mais de 30 mil pessoas.

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Presidente da Cooperativa de Mulheres Quilombolas, Raimunda Caetano da Silva, na horta onde é produzida boa parte da comercialização que sustenta a cooperativa de mulheres quilombolas (Foto: André Palmeira / Agência Alagoas)

“Foi um aprendizado muito grande porque foi lá na Pindorama que aprendemos que a diversidade de culturas é o que faz a diferença. Quando uma cultura passa por crise como a nossa, os produtores buscam novas oportunidades de renda para sua família”, disse a presidente da Cooperativa de Mulheres Quilombolas, Raimunda Caetano da Silva.

Guloseimas “tentam” equipe de reportagem

Raimunda, entre uma resposta e outra, não se cansava de ofertar ao repórter e à trupe do jornal Tribuna Independente e do portal tribunahoje.com a diversidade de guloseimas produzidas na fábrica, resultado da cooperativa. Entre uma pergunta e outra, era tão farta a produção que foi impossível não se ‘deliciar’ com a tentação de bolos de massa puba, macaxeira, pés de moleque, tapiocas, beijus, que ia cruzando o tempo todo a vista da equipe de reportagem pelas mãos de Raimunda, que, empolgada, ainda posou para fotos na horta onde colhe a maior parte da produção de hortaliças que comercializam nas feiras livres da região que acontecem duas vezes por semana.

Na diversificação da cooperativa e graças a essa capacitação na Pindorama, atualmente essas mulheres dos quilombos do Vale do Mundaú, além das tentadoras guloseimas e das hortaliças, comercializam ainda laranja, bananas, jaca, entre outros produtos.

“Graças a Deus, apesar do pouco tempo da nossa cooperativa, a gente tem conseguido uma renda que dá para ajudar no nosso sustento”, completa Cícera Vital da Silva, que, além de participar da Cooperativa das Mulheres Quilombolas, ainda preside o Instituto Irmãos Quilombolas, que dá suporte à logística que as empreendedoras precisam para se firmarem no mercado.

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Cícera Vital da Silva, presidente do Instituto Irmãos Quilombolas, diz que produção da cooperativa garante renda para famílias (Foto: André Palmeira / Agência Alagoas)

Somente na comercialização de bolos, as quilombolas conseguem vender entre 40 e 50 unidades por semana. Somando-se à produção diversificada de frutas e hortaliças, isso garante a elas, em média, uma renda em torno de R$ 300, 00. “Para algumas é uma renda extra, mas para outras, com maridos desempregados, passa a ser uma renda da família, mas dá para sobreviver”, completa Raimunda.

Quarta-feira abençoada ajuda a desaguar produção

Para ajudar a comercializar a produção da Cooperativa de Mulheres Quilombolas, elas conseguiram ainda, com a intermediação novamente da Gerência de Articulação Social do Gabinete Civil, entrar no Programa “Quarta Verde”, do Governo de Alagoas, coordenado pela Secretaria de Agricultura, Emater e o Instituto de Terras e Reforma Agrária de Alagoas (Iteral), além da prefeitura municipal de Santana do Mundaú. O Quarta tem sido “uma mão na roda” como apoiador efetivo das três comunidades remanescentes de quilombo Jussara, Mariana e Filuz – que, juntas, reúnem cerca de 120 famílias no município.

A iniciativa motivou o Instituto Irmãos Quilombolas a concorrer ao edital de credenciamento e conseguir ser selecionado com a doação de 10 barracas para feiras. Com o Quarta Verde as mulheres quilombolas se firmaram em uma feira livre para a comercialização exclusiva dos quilombolas.

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Gerente de Articulação Social do Gabinete Civil do Estado, Edenilsa Lima mantém diálogo constante com povos tradicionais de Alagoas, como índios, quilombolas e negros, garantindo direitos de cidadania (Foto: André Palmeira / Agência Alagoas)

“A gente vivia da safra da laranja, mas eu sempre quis ter a minha horta, e agora estou realizando esse sonho. São produtos sem veneno, é tudo orgânico, eu planto couve, coentro, cebolinha, alface, pimentão, tomate e abóbora. A importância dessa feira é para mostrar pra todo mundo o que a gente tem no quilombo e vender nossos produtos.”, ressalta Raimunda.

O projeto Quarta Verde acontece todas às quartas-feiras na praça do povoado Mundaú de Baixo das 13h às 17h; e nas sextas-feiras das 6h às 17h, no Residencial Jussara, em Santana do Mundaú.

Fonte: Tribuna Hoje / Texto: Wellington Santos

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