Cooperativas

10 de julho de 2019 09:40

Tribuna Independente completa 12 anos

Jornalismo e resistência marcam história do impresso, do trabalho incerto à consolidação no mercado editorial de Alagoas

↑ Antiga sede da Tribuna de Alagoas foi ocupada pelos trabalhadores em greve num momento histórico (Foto: Adailson Calheiros/arquivo)

Nesta quarta-feira, dia 10 de julho, o jornal Tribuna Independente, criado com a Cooperativa de Jornalistas e Gráficos de Alagoas (Jorgraf), comemora 12 anos de existência. O jornal diário, que tem garantido aos leitores alagoanos durante todo esse tempo conteúdo preciso e agradável, mantendo o nível de competição e qualidade no mercado de  comunicação no Estado, tem uma história de lutas e superação ainda desconhecida de muitos.

Nesta data, vamos reviver as memórias dessas conquistas que dependeram de uma força conjunta de todos os trabalhadores: jornalistas e gráficos, hoje cooperados. Tudo começou em 2007 na até então, Tribuna de Alagoas, quando os funcionários já cansados e desmotivados por estarem com os salários e o 13º salário atrasados tendo que aceitar desculpas infundadas vindas de patrões resolvem unir suas forças e cruzar os braços diante de tamanho desrespeito com o trabalhador.

Foi aí que a união de jornalistas, gráficos e pessoal do setor administrativo que faziam o jornal, juntos iniciaram uma vigília em frente na sede da empresa para exigir os salários atrasados. O fato aconteceu no dia 16 de janeiro daquele mesmo ano, e foi graças a essa força motriz que o jornal alcançou sua dependência.

Com o apoio do Sindicato dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal) e do Sindicato dos Gráficos do Estado de Alagoas (Sindigraf), a vigília dos trabalhadores seguiu forte e determinada, todos por dias em busca de seus direitos, mesmo tendo que negociar com o diretor de jornalismo à época, que tentava convencer a todo custo, que o retorno aos respectivos postos de trabalho seria o melhor a fazer, já que, segundo ele, os pagamentos dos salários iriam ser feitos brevemente, algo que não aconteceu.

Essa instabilidade fez com que os dois sindicatos que estavam apoiando a greve convocassem uma assembleia que foi realizada ali mesmo, no acampamento improvisado em frente à empresa.

Durante a reunião foi definido que jornalistas, gráficos e pessoal do setor administrativo não retornariam as suas funções até que houvesse um acordo entre as partes. Com o passar das horas os ânimos foram se exaltando, mas todos sabiam que seria para um bem comum às categorias. Foi quando todos de fato entenderam que estavam em meio a uma longa batalha entre patrões e funcionários.

Trabalhadores: piquetes e ocupação da sede

 

No dia seguinte foi organizado um piquete entre todos do movimento, e por dias essa ação se repetia. As vigílias aconteciam em turnos revezados e a resistência de todos era colocada à prova. A sociedade aos poucos começou a ter ciência do que estava acontecendo, seja por meio da movimentação em frente à empresa, ou pela organização que providenciou carros de som e faixas para que todos ficassem a par da falta de respeito com os trabalhadores da Tribuna de Alagoas. Aos poucos, o calote dado pelos empresários aos 140 profissionais ia sendo descoberto.

Diariamente reuniões de avaliações eram feitas pelo movimento, entre elas, sempre havia a tentativa de negociação, mas todas sem êxito. Os gasto exacerbados dos patrões, entre viagens e festas foram motivos para a Tribuna de Alagoas ir a caminho da falência,  além das dívidas com fornecedores que a cada dia cresciam.

OCUPAÇÃO DA SEDE

Em meio a tantas tentativas de acordo, uma assembleia foi decisiva para o rumo da manifestação e do futuro dos profissionais. Juntos, eles decidiram que o melhor a ser feito naquele momento seria ocupar o prédio. A partir daí decidiram também, fazer edições semanais para serem distribuídas nos atos, piquetes e mobilizações que seriam realizados. Tudo com o intuito de levar à sociedade a realidade da situação que eles foram obrigados a passar.

Um blog foi criado a fim de compartilhar com a sociedade todas as ocorrências durante as manifestações. Relatos e fotos eram compartilhados diariamente, e, consequentemente, comentários e mensagens de apoio também iam surgindo.

As edições semanais eram publicadas ao domingos ou às segundas-feiras, conforme a realização das ações. Mas vale o destaque para a primeira edição do jornal que foi divulgado em meio aos faróis da Av. Menino Marcelo, em frente ao prédio ocupado, causando agitação no trânsito da via expressa, além da Av. Fernandes Lima, em frente à antiga Companhia de Energia de Alagoa (Ceal). E assim seguiram: jornalistas e gráficos em sinais de trânsito, para vender o jornal e expôr à população a realidade vivenciada naquele veículo impresso.

Surge a Jorgraf, cooperativa de jornal inédita

 

Com o passar dos dias, as cobranças não paravam de chegar. Credores queriam receber os débitos e assinantes questionavam a falta dos jornais diários, as empresas que sofriam calote por parte dos proprietários também exigiam respostas. O jornal surgiu e foi uma oportunidade a mais para explicar o que estava acontecendo.

Inauguração da Tribuna Independente foi saldo de muita luta (Foto: Adailson Calheiros/arquivo)

Em meio a tantas injustiças e desrespeito com trabalhadores, empresas e sociedade, em mais uma reunião veio a ideia de criar uma cooperativa que reunisse as duas categorias (jornalistas e gráficos).  Após muitas discussões, apelos, lutas, resistência e necessidade de continuar no mercado de trabalho, surge a Jorgraf, primeira cooperativa de jornal no país com duas categorias de jornalistas e gráficos juntas. E o seu principal produto: o jornal impresso Tribuna Independente.

A primeira edição circulou no dia 10 de julho de 2007 e se mantém até hoje no mercado de jornalismo do Estado. Atualmente, a Jorgraf conta com cerca de 60 cooperados além de funcionários celetistas. A Tribuna Independente, carro-chefe da cooperativa, circula diariamente com 16 páginas e aos domingos com 20 páginas.

Wilson Barros, designer gráfico da Tribuna Independente, vivenciou esse momento histórico juntos aos colegas de trabalho e hoje tem orgulho da fazer parte da Jorgraf. “O que me motivou a aderir à greve foi a garantia de que eu continuaria empregado, além da tentativa de manter o prédio ativo. Foram momentos difíceis. Lembro que aos finais de semana aconteciam muitos shows numa antiga casa de eventos que ficava ao lado do prédio. Então eu saía da minha casa dia de sábado e ficava das 20h até às 3h da madrugada com outros companheiros de luta para fazer ‘um extra’.  Usávamos o pátio da  Tribuna de Alagoas como estacionamento para quem ia se divertir nos shows. Ao final, dividíamos o valor apurado, e assim íamos revezando. Isso me marcou. Lembro que algumas pessoas se solidarizavam com a nossa situação e nos traziam lanches quando vinham nos pagar. Essa empatia me motivava a continuar,  porque  eu sabia que tínhamos o apoio da sociedade”, relembra Wilson.

Gestores destacam “segredo” de sucesso em 12 anos de trajetória

 

O sucesso da Cooperativa dos Jornalistas e Gráficos do Estado de Alagoas (Jorgraf) é resultado da união de forças de cooperados, que se propuseram a arregaçar as mangas e ir à luta em busca de um futuro promissor, mas para tal, união e força foram fundamentais para manter os produtos que circulam diariamente por todo o Estado e que fazem o nome da cooperativa.

Flávio Peixoto, diretor administrativo-financeiro da Jorgraf, destaca importância do jornal diário (Foto: Adailson Calheiros)

Conforme Flávio Peixoto, diretor administrativo-financeiro da Jorgraf, a luta travada ao longo desses 12 anos permitiu que a cooperativa enxergasse seu valor em meio à comunicação alagoana, se mostrando forte e compatível com as exigências de mercado.

“A Tribuna Independente junto à Jorgraf completa 12 de fundação e, nesse período, tem se colocado como um dos veículos fundamentais de comunicação no Estado. Se apresentado ao leitor com grande importância e valor, dentro de todo o contexto social de Alagoas”, afirma.

Impresso está nas bancas diariamente

 

Flávio Peixoto destaca o papel do jornal impresso Tribuna Independente, em levar notícia diariamente à população alagoana. “Ser um dos dois impressos diários em formato standard nos traz mais responsabilidade pra levar informação de qualidade ao leitor e, logicamente, nosso papel na sociedade se multiplica 10 vezes mais em valor. E essa é a responsabilidade da Jorgraf. Nossa meta é continuar nesse trabalho de forma coletiva. Mostrando que essa iniciativa pioneira, trazendo duas categorias, traz sim resultados e esse espírito empreendedor é fundamental para que a nossa atividade na área de comunicação se mantenha viva e continue cumprindo o seu papel”, destaca Flávio.

‘Devemos formatar uma linha editorial para atrair o leitor, diz presidente da Jorgraf, Paulo Gabriel (Foto: Sandro Lima)

O presidente da Cooperativa dos Jornalistas e Gráficos de Alagoas (Jorgraf), detentora do jornal Tribuna Independente, Gráfica Tribuna, portal Tribuna Hoje e TV Web Tribuna, José Paulo Gabriel comenta que nesses 12 anos o jornal Tribuna Independente é símbolo de luta e resistência e que continuará sendo por muito mais anos.

MERCADO

“São favas contadas os problemas que o mercado da comunicação vem passando nos últimos anos – sabemos que as receitas para o setor diminuíram ou estão sendo maiores distribuídas para os meios tecnológicos, digo as redes sociais. Ou seja, temos um único caminho a seguir. Devemos criar e formatar uma linha editorial que trabalha o regionalidade, reportagens bem produzidas com investigação, mostrar o que o leitor local que saber ou entender, só assim continuaremos firmes no mercado”, ressalta Paulo Gabriel.

Para o presidente da Jorgraf, o jornalismo impresso atualmente concorre de forma desleal com as redes sociais, mas ele acredita que não vai deixar de existir. “De fato cerca de 70% dos recursos econômicos investidos para a comunicação vão para Microsoft, Twitter, Google e Facebook uma tendência mundial que recebe informações em grandes volumes e redistribui cobrando em menor valor acaba sendo desleal porque dificulta o trabalho da imprensa tradicional. Porém, apesar dessas dificuldades o jornal impresso não vai morrer. O que sempre digo que está morrendo são as produções jornalísticas que atualmente deixaram de ser tão atraentes. Como disse, as produções devem ser de interesse da sociedade, algo que estejam mais próximos de quem consome o jornal”, avalia.

Presidente destaca qualificação da equipe

 

Gabriel ressalta ainda que a equipe que compõe os jornalistas, os gráficos e demais funcionários são profissionais qualificados e com credibilidade no mercado. “Temos excelentes profissionais – ou seja, temos e vamos seguir com esse projeto de uma linha editorial mais próxima dos alagoanos produzindo matérias e reportagens da nossa Alagoas sem repetir o que já está sendo noticiado na mídia eletrônica. E isso,  não é difícil  pois aqui temos boas práticas jornalísticas”.

Além disso, o presidente da cooperativa ressalta que a concorrência não vai deixar de existir, mas será uma concorrência apenas por anunciantes. “Até porque a concorrência com as mídias não seria tão forte, muitas estão ficando cada vez menores. Nosso crescimento é algo que pode ser concretizado. Já temos um parque gráfico, bons profissionais, disposição. O que falta agora é só acertar os ‘ponteiros’ e vê a melhor forma dessa linha editorial”.

APOIO

Paulo Gabriel explica que em relação ao apoio político e/ou governamental acaba sendo dificultado justamente por atualmente muitos serem jovens e acreditar mais no crescimento da mídia eletrônica. “Eles estão cada vez mais jovens e se espelham muito nas redes sociais. Muitos acreditam isso pode resolver os problemas, dá voz para o cidadão. Porém, muita coisa acaba ficando a desejar, lives, notinhas nesses espaços não chegam a todos. Além disso, é um espaço com muitas fake news. Estes espaços só interessam aos grandes conglomerados empresariais. Tem que haver mais expressão e credibilidade e é isso que debatemos com eles”.

DIÁRIO

O compromisso e responsabilidade para a manutenção de um jornal de qualidade, não para está limitado. Dentre as ações para melhor atender o leitor alagoano e se reciclar em meios às novidades, a cooperativa tem projetos em andamentos em curto prazo.

“Vamos investir em nosso portal de notícias e continuar compartilhando informações em outras plataformas. Do físico para o impresso, portal e redes sociais. Em relação às plataformas de vídeos, também temos pretensões de fazer novos investimentos. E é dessa maneia que vamos manter a comunicação cada vez mais atualizada. Lembrando que levar à população informação de qualidade é o que nos mantém de pé, e disso não abrimos mão. Esse é nosso papel junto à sociedade alagoana”, informou o diretor.

“Evoluímos com novos produtos”, diz diretora

 

Para Marilene Canuto, diretora comercial da Jorgraf e cooperada na entidade desde o seu início, em 2007, a manutenção das cooperativas baseia-se numa gestão eficiente. Ela explica a importância do cooperativismo no mercado atual e o que mantém a Jorgraf no meio de comunicação, mesmo diante de tantas mudanças e crises na área.

Diretora comercial da Jorgraf, Marilene Canuto, destaca produtos (Foto: Edilson Omena)

“Neste ano de 2019, completamos 12 anos de fundação do nosso jornal de circulação diária no Estado de Alagoas. No formato de cooperativa com os nossos produtos: jornal impresso Tribuna Independente; portal Tribuna Hoje; Gráfica Tribuna e TV Web Tribuna, reconhecemos que todos são de fundamental importância para o mercado, principalmente no contexto atual da comunicação, tanto no Estado como nacionalmente. Lidar com a instabilidade, mudança do tradicional veículo de comunicação, tendo que se adequar às situações, sem perder o rumo com a linha editorial, tornou-se um desafio ao longo dos anos. Podemos dizer que continuamos sendo destaque na procura pelos nossos anunciantes, leitores e assinantes”, informa otimista.

PARCEIROS

Quanto aos parceiros ao longo dessa estrada, Marilene informa que eles são motivo s para fortalececimento da instituição, pois a manutenção dessa relação é sinônimo de confiança. Marilene destaca a qualidade do trabalho desenvolvido por todos da Jorgraf.

“Uma clientela fiel que está conosco desde as primeiras edições a chegada de novos anunciantes e assinantes, tem nos mantido firmes. Trabalhamos diariamente para levar a melhor informação a esses leitores. Disponibilizamos o jornal impresso no portal para que possa ser acessado não só no estado mais em todos os estados que buscam informações de Alagoas, e essa preocupação nos faz diferentes, pois sabemos valorizar o leitor”, explica.

A partir de agora, produtos já são trabalhados com a visão dos 13 anos

 

Segundo Marilene, garra e resistência e, sobretudo, união foram fatores fundamentais para alcançar com êxito os 12 anos da cooperativa.

“O importante é a união de todos que fazem a cooperativa, jornalistas e gráficos, juntos num mesmo objetivo, que é colocar as edições na mão do leitor com qualidade nas matérias veiculadas e uma boa impressão gráfica. Agradecemos aos nossos parceiros, agências de publicidades e assinantes por esses 12 anos de união junto à Jorgraf. Saibam que, a partir de hoje, já trabalhamos com a visão dos 13 anos”, conclui Marilene.

Fonte: Tribuna Independente / Daniele Soares/Lucas França

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