Ciência e Tecnologia

Em Alagoas a engorda natural recupera a faixa de praia

Por Claudio Bulgarelli 28/08/2026 06h39
Em Alagoas a engorda natural recupera a faixa de praia
Engorda natural na praia do Marceneiro vem recuperando área de restinga - Foto: Divulgação

As engordas de praia são intervenções para ajudar a impedir que a faixa de praia desapareça por causa do avanço do mar. Diferente da engorda natural, a engorda artificial tem um alto custo de implantação e manutenção, sem levar em conta o alto impacto ambiental da obra, tanto na retirada como da deposição da areia do mar durante a execução. Depois da execução da obra, num bom projeto, o tempo médio de retenção da areia na praia é de 5 anos.
A engorda natural exige novos conceitos na definição de obras de defesa costeira com o objetivo de promover a recuperação de praias. Segundo o engenheiro Marco Lyra, um dos maiores especialistas em recuperação de praia do Brasil, CEO da Ocean Protections, “No ambiente costeiro, os ventos desempenham um papel crucial, indo além da geração de ondas para influenciar as correntes litorâneas. Compreender essa interação é essencial para engenheiros especializados desenvolverem estratégias eficientes na preservação e restauração das zonas costeiras.”

A experiência de Alagoas
Em diferentes trechos do litoral alagoano, soluções destinadas ao controle da erosão costeira vêm sendo empregadas em praias como Ipioca, Costa Brava, Marceneiro, Tatuamunha, Patacho, Boqueirão, Burgalhau, Barra Nova e Barra Mar, entre outras.

Nesses locais, foram utilizadas estruturas dissipativas dos tipos Sandbag e Bagwall, concebidas para atuar no controle da energia das ondas e favorecer a estabilização do perfil praial.

Quando corretamente projetadas, implantadas e integradas às características de cada trecho da costa, essas estruturas podem permanecer incorporadas ao ambiente arenoso, reduzindo sua interferência visual e permitindo que a própria dinâmica sedimentar participe da recuperação da praia.
O objetivo não é construir uma nova linha de costa artificial, e sim recriar as condições para que a praia volte a existir como praia.
Após a implantação da estrutura, o processo de recuperação não acontece de forma instantânea, pois a natureza trabalha em seu próprio ritmo.
Com a redução da energia incidente e a alteração das condições de transporte do sedimento, a areia começa gradualmente a se reorganizar. O perfil da praia se recompõe, novas áreas de acumulação podem surgir e a faixa arenosa passa a apresentar condições mais favoráveis à formação da berma natural.
Com a estabilização do ambiente, a vegetação de restinga também pode voltar a ocupar áreas anteriormente degradadas. Pouco a pouco, a paisagem recupera características que haviam sido perdidas.
``A engorda natural representa, acima de tudo, uma mudança de paradigma. Não se trata apenas de colocar areia onde ela desapareceu. Trata-se de criar condições para que a areia seja retida, redistribuída e incorporada novamente ao sistema praial. Quando isso acontece, a própria natureza passa a participar da recuperação. Assim a estrutura de engenharia deixa de ser o elemento principal da paisagem e passa a cumprir uma função silenciosa: reduzir a energia, favorecer a estabilização e permitir que a praia reassuma seu papel´´, afirma o especialista.
Como o próprio engenheiro afirma: No final do processo, o que se pretende ver não é uma obra. É uma praia. Uma praia mais larga, mais estável, integrada à paisagem e capaz de recuperar parte de sua dinâmica natural. Porque a melhor obra de defesa costeira pode ser aquela que, depois de cumprir sua função, deixa a natureza voltar a aparecer.