Ciência e Tecnologia
Pesquisador recupera cerca de R$ 10 milhões em Ethereum presos desde ICO de 2016
Um pesquisador de segurança conhecido como 0xflorent conseguiu ajudar a desbloquear aproximadamente 1.003 ETH, equivalentes a cerca de US$ 2 milhões, segundo o valor do ethereum hoje, (ou cerca de R$ 10 milhões), que estavam presos há quase nove anos em um contrato inteligente de uma ICO lançada em 2016 na rede Ethereum.
O caso chamou atenção da comunidade cripto por envolver uma combinação de falhas antigas em smart contracts, cooperação com os desenvolvedores originais e o uso de técnicas modernas de análise de blockchain.
A ICO da HongCoin e o erro que travou os fundos
Os valores pertenciam ao contrato da HongCoin (também chamada de “The HONG”), uma oferta inicial de moedas (ICO) que se apresentava como um fundo de investimento descentralizado. O projeto foi lançado em 2016, mas não atingiu a meta de captação prevista.
Como previsto no contrato, os investidores deveriam receber reembolsos automáticos em caso de falha na arrecadação. No entanto, uma falha na lógica do contrato impediu que parte desses reembolsos fosse executada corretamente, deixando centenas de ETH inacessíveis por anos.
Com o passar do tempo, reembolsos parciais foram realizados, mas um problema adicional surgiu: o mecanismo de devolução dependia de um contador global do contrato. Esse contador foi sendo reduzido ao longo dos anos e acabou limitando os saques a valores muito pequenos, mesmo para investidores que tinham quantias muito maiores a receber.
A falha técnica: overflow em contratos antigos
Segundo o pesquisador, o problema central estava em uma função administrativa do contrato que não possuía proteção contra overflow de inteiros; uma falha comum em contratos escritos nas primeiras versões da linguagem Solidity.
O overflow ocorre quando um número ultrapassa o limite permitido pela variável e “reinicia” para um valor menor ou zero, criando comportamentos inesperados na lógica do sistema. Esse tipo de vulnerabilidade foi amplamente corrigido posteriormente com bibliotecas como SafeMath, mas ainda persiste em contratos antigos imutáveis na blockchain.
No caso da HongCoin, essa falha permitiu uma condição específica: ao chamar a função administrativa com um determinado valor, era possível redefinir o saldo de um investidor para 1. Isso fazia com que o sistema de verificação de reembolso deixasse de bloquear a retirada, liberando os fundos presos.
A recuperação coordenada dos fundos
Apesar de envolver uma falha técnica, a operação não foi um ataque malicioso. A função administrativa do contrato só podia ser executada pela carteira multisig da equipe original da HongCoin, o que exigiu coordenação direta com os responsáveis pelo projeto.
O pesquisador testou a solução em uma cópia da mainnet do Ethereum usando ferramentas de desenvolvimento como Foundry, validando a sequência necessária para o desbloqueio. Em seguida, entrou em contato com a equipe original e explicou o procedimento.
Com a cooperação dos detentores da multisig, foram assinadas 41 transações individuais, uma para cada investidor que estava bloqueado pelo sistema. Isso permitiu a liberação de aproximadamente 1.000 ETH que estavam efetivamente presos desde 2016.
Ao todo, 48 investidores foram afetados. Desses, 41 precisaram da redefinição de saldo para conseguir realizar o saque, enquanto sete já possuíam valores pequenos o suficiente para serem reembolsados diretamente.
Dinheiro devolvido após quase uma década
Até o momento da divulgação, dois investidores já haviam recuperado juntos cerca de 96,5 ETH, o equivalente a aproximadamente US$ 193 mil. Outros ainda devem reivindicar seus valores ao longo do tempo.
Como forma de reconhecimento, alguns investidores enviaram voluntariamente recompensas ao pesquisador, mesmo sem qualquer exigência de pagamento. Segundo ele, o trabalho foi feito principalmente por curiosidade técnica e interesse em estudar contratos antigos da rede Ethereum.
O próprio pesquisador destacou que não havia incentivo econômico direto para investigar o contrato tão profundamente, já que a falha não permitia roubo de fundos; apenas a recuperação para os próprios investidores originais.
Outras recuperações semelhantes
Esse não foi um caso isolado. Dias antes, o mesmo pesquisador relatou ter recuperado cerca de 19,3 ETH presos em dois contratos diferentes. Um deles envolvia outra ICO fracassada de 2018, altura em que as criptos estavam num boom, enquanto o outro estava relacionado a swaps atômicos expirados de uma carteira que havia sido descontinuada.
Segundo ele, o trabalho começou após configurar um nó próprio da rede Ethereum e desenvolver ferramentas para identificar contratos com grandes quantias de ETH paradas. A partir disso, passou a analisar possíveis falhas ou funções esquecidas que ainda pudessem ser exploradas de forma legítima para recuperação de fundos.
Ele também afirmou utilizar ferramentas de inteligência artificial para ajudar na organização e triagem dos contratos analisados, embora tenha ressaltado que modelos ainda têm limitações na interpretação de smart contracts complexos.
O caso da recuperação de cerca de 1.003 ETH mostra como contratos antigos da rede Ethereum ainda podem conter falhas críticas e fundos bloqueados há anos. Mais do que um resgate financeiro, o episódio reforça a necessidade de auditoria contínua e evolução das práticas de segurança no ecossistema cripto, especialmente em contratos legados que continuam ativos na blockchain.
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