Ciência e Tecnologia
Cientistas criam líquido que armazena energia solar por meses
Pesquisadores da University of California, Santa Barbara (UCSB) desenvolveram um material líquido capaz de armazenar energia solar diretamente em moléculas químicas e liberá-la posteriormente na forma de calor. O estudo, publicado recentemente na revista Science, descreve um sistema baseado em uma solução de pirimidona Dewar, que funciona como uma espécie de “garrafa de luz solar”.
A proposta busca resolver um dos desafios clássicos da energia solar: o armazenamento da energia captada durante o dia para uso quando não há luz do Sol. Segundo os cientistas, a nova abordagem dispensa baterias convencionais e utiliza um mecanismo molecular que mantém a energia armazenada por longos períodos.

Método pode ajudar a solucionar um problema clássico da energia solar (Imagem: Kewiko / Shutterstock.com)
Como funciona o armazenamento molecular
A tecnologia foi desenvolvida pela professora associada Grace Han e sua equipe na UCSB. O sistema pertence a uma classe emergente chamada Molecular Solar Thermal (MOST), que armazena a energia do Sol diretamente nas ligações químicas das moléculas.
No método proposto, uma solução líquida contém moléculas modificadas de pirimidona fotoresponsiva. Quando expostas à luz solar, essas moléculas passam por uma transformação estrutural reversível: saem de uma configuração de baixa energia e assumem uma forma tensionada e rica em energia.
Cada molécula funciona de maneira semelhante a uma pequena mola. A luz solar “torce” a molécula, levando-a para a configuração Dewar, que concentra energia. Nessa forma, o composto pode permanecer estável por meses ou até anos, sem liberar a energia armazenada.
Quando um gatilho é aplicado — como calor ou ácido — a molécula retorna à sua estrutura original, liberando a energia acumulada na forma de calor.
Processo pode ser repetido diversas vezes
O material foi projetado para ser reutilizável e reciclável, permitindo múltiplos ciclos de armazenamento e liberação de energia.
Han Nguyen, um dos pesquisadores e autor principal do estudo, comparou o mecanismo ao funcionamento de óculos escuros fotocromáticos.
“Pense em óculos fotocromáticos. Dentro de casa, as lentes são transparentes. Ao sair para o sol, elas escurecem automaticamente. Ao voltar para dentro, ficam claras novamente”, explicou Nguyen. “Esse tipo de mudança reversível é o que nos interessa. Só que, em vez de mudar de cor, queremos usar o mesmo princípio para armazenar energia, liberá-la quando necessário e reutilizar o material repetidamente.”
Inspiração na estrutura do DNA
Os pesquisadores se inspiraram em processos naturais. A molécula sintetizada foi baseada na estrutura de um componente presente no DNA, capaz de sofrer mudanças estruturais reversíveis quando exposto à luz ultravioleta.
Sistemas MOST já haviam sido estudados anteriormente, utilizando diferentes reações moleculares reversíveis, como moléculas baseadas em azobenzeno ou sistemas dihidroazuleno/vinilheptafulveno. No entanto, muitas dessas tecnologias ainda se encontram em fases iniciais de pesquisa ou testes piloto.
Segundo os autores, o sistema de pirimidona Dewar é o primeiro da área a alcançar usabilidade prática, representando um avanço significativo.
Energia suficiente para ferver água
Nos experimentos realizados, o isômero Dewar liberou calor suficiente para ferver aproximadamente 0,5 mL de água.
“Ferver água é um processo que exige muita energia”, afirmou Nguyen. “O fato de conseguirmos ferver água em condições ambiente é uma grande conquista.”
Vantagens em relação a baterias
Uma das diferenças centrais em relação às baterias tradicionais é que o novo sistema não converte a energia solar em eletricidade antes de armazená-la. Em vez disso, ele armazena a energia diretamente como calor.
Além disso, as moléculas podem ser carregadas e descarregadas repetidamente sem perder sua estrutura. O isômero Dewar apresenta meia-vida calculada de até 481 dias em temperatura ambiente, indicando estabilidade prolongada.
Outro ponto destacado pelos pesquisadores é a escalabilidade. Como o sistema é composto por moléculas dissolvidas em um líquido, aumentar a capacidade de armazenamento depende apenas de utilizar maiores quantidades da solução. O líquido também pode ser bombeado, transportado e armazenado utilizando sistemas convencionais de tubulação.
Alta densidade energética
De acordo com os dados do estudo, o sistema de pirimidona desenvolvido na UCSB atinge densidade energética de cerca de 1,6 megajoule por quilograma.
Esse valor é aproximadamente o dobro da densidade energética de baterias padrão de íons de lítio, que possuem cerca de 0,9 MJ/kg.
Possíveis aplicações
Os pesquisadores apontam diferentes cenários de uso para a tecnologia. Um exemplo seria um coletor solar instalado no telhado, que faria circular o líquido MOST durante o dia para carregar as moléculas com energia solar.
O líquido energizado poderia ser armazenado em um tanque isolado. Quando fosse necessário calor — para aquecimento de água, preparo de alimentos ou aquecimento de ambientes — a solução passaria por um reator que desencadearia a liberação da energia.
Outra possibilidade é o armazenamento sazonal de energia, no qual a solução seria carregada durante o verão e utilizada para aquecimento no inverno.
Segundo os pesquisadores, o sistema também pode ter potencial para geração de eletricidade, caso seja integrado a geradores termoelétricos ou ciclos termodinâmicos com turbinas.
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