Cidades
CNBB fiscaliza tragédia da Braskem em Maceió
Comitiva de bispos visita áreas de risco, ouve vítimas e debate mineração predatória em audiência pública na Assembleia
O envolvimento da Igreja Católica com a extração de areia na Praia do Francês, que resultou numa denúncia de crime ambiental investigada pelo Ministério Público Federal em Alagoas (MPF/AL), será um dos assuntos debatidos pela comitiva da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que visita essa semana os bairros atingidos pelo afundamento do solo, em Maceió.
Até o atual arcebispo Dom Beto Breis assumir o comando da Arquidiocese de Maceió, em abri de 2024, a Igreja Católica, por meio da Fundação Leobino e Adelaide Motta, extraía areia do Sítio Bom Retiro, na Praia do Francês, em Marechal Deodoro, para vender à Braskem, em parceria com a empresa Mandacaru Extração de Areia e Comércio de Materiais de Construção em Geral, com sede na Usina Utinga Leão, em Rio Largo.
Por determinação de Dom Beto, o contrato com a Mandacaru foi cancelado e a extração de areia definitivamente suspensa. Até porque a extração de areia no local já havia sido suspensa por ondem do MPF/AL, que constatou indícios de irregularidades e crime ambiental na atividade desenvolvida, até então, com a participação da Igreja.
À época, a denúncia chegou à coordenação da Pastoral da Mineração da CNBB, que combate as atividades minerais predatórias em todo país. O próprio Dom Beto, quando assumiu a Arquidiocese como arcebispo coadjutor, em 6 de janeiro de 2024, classificou a mineração como uma atividade altamente predatória e estranhou a parceria da gestão do então arcebispo Dom Antônio Muniz com a empresa Mandacaru, para a extração e venda de areia.
Dom Beto
Quando assumiu de vez o comando da Igreja em Maceió, Dom Beto solicitou ajuda do Ministério Público de Alagoas (MP/AL) para apurar denúncia de desvio de dinheiro da Arquidiocese, bem como a falta de prestação de contas dos recursos arrecadados com a venda da areia à Braskem. A mineradora usava a areia para tamponar as minas desativadas de sal-gema, nas áreas atingidas pelo afundamento do solo, em Maceió.
Dom Vicente Ferreira, presidente da Comissão Especial para Ecologia Integral e Mineração (CEEM), é um dos bispos que estarão participando da caravana da CNBB em visita a Maceió. A comitiva desembarcou ontem e inicia os trabalhos na capital alagoana hoje. O objetivo é visitar as comunidades atingidas pelo crime socioambiental da Braskem e debater com as vítimas da mineração soluções para os impasses criados até então.
Segundo Maurício Sarmento, do Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB), a vinda dessa comitiva da CNBB é uma excelente oportunidade para a comunidade dos Flexais reivindicar a realocação do bairro, que enfrenta problemas socioambientais provocados pela mineradora. “Vamos acompanhar essa caravana da CNBB e cobrar a revisão dos acordos, que até agora só beneficiaram a criminosa Braskem”, comentou Sarmento.
A pesquisadora Rikartiany Teles Cardoso, integrante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM) em Alagoas, disse que o MAM também vai acompanhar a caravana dos bispos em Maceió. “Vamos participar da programação e acompanhar tudo de perto”, afirmou a pesquisadora, militante e defensora de direitos humanos alagoana, com forte atuação acadêmica e social vinculada à Universidade Federal de Alagoas (Ufal).
Moradores da região dos Flexais, a exemplo do vendedor ambulante Valdemir Alves, também estão na expectativa dessa visita da CNBB às comunidades atingidas pela mineração. Eles vão solicitar apoio à comissão para a realocação das famílias que querem deixar os Flexais, porque já não suportam mais o isolamento social.

Comitiva tem agenda na capital alagoana e audiência pública na Assembleia
A comitiva da CNBB, com bispos do Regional Nordeste 2 (NE2) e representantes da CEEM, desembarcou em Maceió no início dessa semana, para uma série de atividades voltadas à tragédia socioambiental provocada pela Braskem na capital alagoana.
Integram também a comitiva agentes das pastorais sociais, organismos da Igreja Católica, movimentos sociais e pessoas atingidas pela mineração. O objetivo dos bispos e da comitiva é conhecer a realidade das comunidades afetadas pelo crime socioambiental da Braskem.
Segundo o arcebispo de Maceió, Dom Beto Breis, a iniciativa integra a Caravana pela Ecologia Integral: Igreja e comunidades em diálogo sobre os impactos da mineração no Regional Nordeste 2, com programação até o dia 5 de novembro.
Entre os participantes estão Dom Vicente Ferreira, presidente da CEEM - CNBB; Dom Beto Breis, arcebispo de Maceió; Dom Limacêdo Antônio da Silva, bispo da Diocese de Afogados da Ingazeira (PE); e Dom Gabriel Marchesi, bispo da Diocese de Floresta (PE).
A caravana também é formada por representantes da Rede Cáritas Brasileira Regional Nordeste 2 dos estados de Pernambuco, Alagoas, Rio Grande do Norte e a Paraíba, da Cáritas Arquidiocesana de Maceió, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), além de organizações locais e lideranças comunitárias e da Comissão para a Ação Sociotransformadora da CNBB Regional Nordeste 2.
De acordo com a assessoria de comunicação da Arquidiocese de Maceió, a caravana busca fortalecer a presença da Igreja junto às populações atingidas, promover a escuta de suas reivindicações e ampliar a articulação em defesa dos direitos humanos, da justiça socioambiental e da reparação integral.
“A Caravana pela Ecologia Integral chega a Maceió para fortalecer o diálogo entre a Igreja Católica e as comunidades atingidas pelo crime socioambiental da Braskem, reafirmando a importância da luta pela garantia de direitos e pela reparação integral”, destacou Dom Beto Breis.
Segundo ele, a programação tem como eixos fundamentais conhecer os territórios e escutar as pessoas atingidas, suas histórias e reivindicações. “Ao final, a audiência pública será um espaço de incidência e compromisso coletivo diante desse crime socioambiental, que não afeta apenas as famílias diretamente atingidas, mas compromete todo um território, suas relações comunitárias e o direito à vida digna”, acrescentou Dom Beto.
Hoje a comitiva visitará o Bom Parto, a Igreja Batista do Pinheiro e os Flexais, territórios marcados pelos impactos do afundamento do solo e pelo deslocamento de famílias. À tarde, das 14h às 17h, será realizado o momento de escuta Território, Memória, Direitos e Reparação, no Novo Juvenópolis.
A programação inclui ainda uma Celebração Eucarística, às 19h30, na Matriz provisória de Santo Antônio de Pádua, em Bebedouro.
No dia 5 de novembro, às 9h, a Caravana participará de uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Alagoas, levando ao debate as demandas das comunidades atingidas e a urgência da garantia de direitos e da reparação integral. A expectativa é que a audiência resulte em proposições concretas e na construção de um documento que formalize compromissos públicos diante do crime socioambiental da Braskem, fortalecendo a responsabilização, a defesa da Casa Comum e os direitos das populações atingidas.
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