Cidades

Caso Rhavy: “lesão foi ocasionada por instrumento contundente”, afirma médico-legista

Depoimento apontou sinais de violência recente e lesão grave no fígado da criança de dois anos; babá também prestou esclarecimentos e relatou episódios anteriores de possíveis agressões

Por Lucas França com Tribuna Hoje 19/10/2026 11h42 - Atualizado em 19/10/2026 11h52
Caso Rhavy: “lesão foi ocasionada por instrumento contundente”, afirma médico-legista
Ministério Público pede condenação por homicídio qualificado - Foto: MPAL

A morte de Rhavy Abraão Alves de Lima, de apenas dois anos, foi provocada por múltiplas lesões causadas por instrumento contundente, segundo o médico-legista Marcos Braga Xavier, ouvido na manhã desta segunda-feira (19), durante o júri popular de Nicole Maria de Lima Braga e Manoel Pedro Tavares de Souza, mãe e padrasto da criança. O menino foi encontrado morto em maio de 2025, no povoado Boca do Rio, na região de Garça Torta, em Maceió.

Durante o depoimento, o legista afirmou que os sinais de violência já eram perceptíveis durante o exame externo do corpo e foram confirmados na necropsia. “A violência era visível, o que foi confirmado com os exames internos. Havia lesões na cabeça e no tronco também”, relatou ao responder aos questionamentos do juiz Geraldo Amorim, responsável pela condução do julgamento.

Segundo o médico, a lesão no fígado foi provocada por um trauma grave. Ele explicou que não foi possível determinar qual objeto ou parte do corpo teria causado os ferimentos, mas destacou que instrumentos contundentes podem incluir as mãos e até o próprio solo.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de a criança ter sofrido uma queda, o legista considerou essa hipótese pouco provável diante das características e da gravidade das lesões, especialmente no abdômen. Ele também informou que o corpo apresentava equimoses e que os ferimentos eram recentes.

Sobre o horário da morte, Marcos Braga Xavier explicou que não era possível estabelecer o momento exato, mas afirmou que o óbito havia ocorrido havia menos de 24 horas. O médico também destacou a presença de grande quantidade de sangue na região abdominal.

Babá relata episódios anteriores e fala sobre possíveis agressões


Após o depoimento do médico-legista, a babá Viviane foi ouvida pelo júri e relatou situações que, segundo ela, envolveram a rotina de Rhavy e dos irmãos antes da morte do menino.

Ela contou que cuidou das crianças durante aproximadamente três meses, em sua própria residência. Segundo a testemunha, Nicole tinha três filhos, e ela também acolhia os mais velhos em algumas ocasiões.

“Eu também cuidava dos mais velhos, na verdade, um deles não ficava com ela, ficava com o Peu, mas aparecia lá em casa e eu ficava com pena porque ele ficava olhando os irmãos e mandava ele entrar também”, declarou.

Pais de Rhavy (Foto: Reprodução)



Viviane afirmou que Rhavy tinha dificuldades para se expressar e explicar o que sentia. De acordo com ela, em uma ocasião, o menino reclamou de dor de cabeça e apontou para a região dolorida.

Dias depois, conforme a babá, Nicole mostrou a ela um vídeo em que a cabeça da criança aparecia inchada.

A testemunha também disse que não tinha convivência próxima com o casal e que esteve na residência deles apenas cerca de duas vezes.

Ao recordar o dia da morte, Viviane afirmou que soube do ocorrido após ouvir uma vizinha comentar que a criança havia morrido. Ela disse que telefonou para Nicole e perguntou o que tinha acontecido com Rhavy.

“Eu perguntei a ela o que aconteceu com o Ravy, e ela disse: ele caiu da cama”, relatou.

Segundo a babá, Nicole também teria contado que a queda ocorreu por volta das 11h e atribuído a morte do filho ao acidente doméstico. Viviane afirmou ainda que, quando recebeu a notificação relacionada ao caso, foi até o local e ouviu da mãe que ela não sabia se a criança havia morrido. De acordo com o relato, Nicole teria percebido a morte depois de subir para verificar o menino.

A testemunha mencionou ainda que, no dia anterior à morte, havia visto um vídeo publicado por Nicole em que ela aparecia dançando reggae com Rhavy.

Testemunha relata hematomas e suspeitas de agressão


Durante o depoimento, Viviane afirmou que já tinha ouvido relatos de possíveis agressões contra as crianças, embora tenha ressaltado que nunca presenciou diretamente os episódios.

Questionada pela promotora de Justiça Adilza de Freitas sobre quem seria responsável pelas agressões, a babá respondeu: “Era a mãe que agredia”.

A testemunha também contou que Rhavy chegou à sua casa com uma das orelhas roxa. Segundo ela, fez uma fotografia e enviou a imagem para Nicole, que teria respondido que o menino havia prendido a orelha na porta.

Outro ponto abordado foi a alimentação das crianças. Viviane afirmou que a mãe costumava levar lanches, mas, segundo ela, não fornecia o almoço durante o período em que os filhos ficavam sob os cuidados da babá. A testemunha disse considerar inadequado oferecer salgadinho e refrigerante a Rhavy, que, conforme seu relato, tinha anemia.

Ela também declarou saber que Nicole e Manoel faziam uso de maconha, mas não soube dizer se a substância havia sido consumida durante a gravação do vídeo mencionado no depoimento.

O Ministério Público de Alagoas (MP/AL) defende a condenação de Nicole Maria de Lima Braga e Manoel Pedro Tavares de Souza por homicídio qualificado. A acusação sustenta três qualificadoras: motivo do crime, meio cruel e recurso que teria dificultado ou impossibilitado a defesa da vítima.

A promotora Adilza de Freitas afirmou que o caso envolve uma criança de dois anos submetida a uma violência grave e destacou as lesões que, segundo a acusação, provocaram a morte.

“Era uma criança de dois anos de idade, e dois adultos praticando o golpe fatal: arremessando essa criança contra o chão”, declarou a promotora ao comentar o caso.

Ela também ressaltou que, segundo a acusação, havia um histórico anterior de violência contra Rhavy, incluindo episódios de pancadas na cabeça e uma situação em que teria sido colocada cola nos olhos da criança.

“A mãe omitiu essas informações de violência e falou que a morte poderia ser por hidrocefalia. Mas o laudo cadavérico diz que não foi nada disso”, afirmou Adilza.

O caso teve início em maio de 2025, quando Nicole procurou uma viatura da Polícia Militar e informou que o filho precisava de socorro. Os policiais foram até a residência, encontraram o menino sem sinais vitais e acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que confirmou a morte.

O julgamento ocorre no Fórum da Capital, em Maceió, sob a condução do juiz Geraldo Amorim, da 9ª Vara Criminal. O júri busca apurar a responsabilidade dos dois acusados pela morte da criança.