Cidades
Homem que matou ex-vereador de Anadia vai a júri
Professor Luiz Ferreira de Souza foi assassinado em emboscada entre municípios de Anadia e Maribondo há 15 anos
A família do ex-vereador de Anadia, Luiz Ferreira de Souza, assassinado no dia 3 de setembro de 2011, em plena luz do dia, em uma emboscada na estrada que liga Marimbondo à Anadia, clama por Justiça no julgamento do réu Wallemberg Wanderson Torres da Silva, acusado de ser um dos executores do crime. Exatamente ontem, o crime completou 15 anos sem a condenação de todos os acusados.
O julgamento será realizado no próximo dia 10, às 8h no Fórum do Barro Duro, na 9ª Vara Criminal. O réu ficou alguns anos foragido. O advogado da família, Gustavo Dacal, explicou que o réu que será julgado teria recebido a quantia de R$ 500 para participar do crime.
“As provas apontam que o mesmo estava reunido com os demais membros do grupo dias antes e no dia do crime e que o mesmo inclusive dirigia o carro usado para a execução”, detalhou o advogado.
Luiz Ferreira de Souza também era médico do Hospital Geral do Estado (HGE), onde, inclusive, atuou como diretor, e professor de Medicina na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Ele foi executado com mais de 12 tiros à queima-roupa, na rodovia AL-450.
Às vésperas do julgamento e imbuídos na esperança de ver o nome de Luiz Ferreira lembrado com justiça, a família divulgou um texto intitulado de “A política do vale-tudo”.
Um dos trechos fala que “esse texto é um convite, mas antes de tudo uma reflexão. Um convite porque após 15 anos de espera no dia 10 de setembro de 2026 ocorrerá mais uma etapa do julgamento”.
A viúva de Luiz Ferreira, professora aposentada da Ufal, Rita Luiza de Pércia Namé, afirmou que nesses 15 anos a família espera memória e justiça e segue acreditando em outra forma de fazer política. “Para que nunca se esqueçam, para que jamais aconteça!”
Luiz Ferreira foi assassinado dentro do próprio carro, com tiros disparados de uma pistola 9 milímetros depois de ser interceptado pelos criminosos. O vereador morreu aos 61 anos, sem chance de socorro.
O parlamentar estava em seu segundo mandato na Câmara Municipal de Anadia e tinha acabado de denunciar um esquema de corrupção em vigor no Poder Executivo.
O crime foi praticado depois que a vítima anunciou em uma rádio que concorreria à prefeitura do município de Anadia. A então prefeita de Anadia, Sânia Teresa, foi apontada pelo Ministério Público Estadual (MPE-AL) como a autora intelectual da emboscada, motivada pelas denúncias de corrupção que o professor vinha fazendo contra a sua gestão.
Ainda conforme o advogado Fernando Dacal, após este júri, restará o julgamento da mandante do crime, a ex-prefeita Sânia Teresa que se encontra em prisão domiciliar.
“Ela utilizou diversos recursos que resultaram em 15 anos sem que ela fosse julgada. Ainda não há data para o julgamento da ex-prefeita que segue em prisão domiciliar. Sânia Teresa chegou a ficar presa alguns meses logo após o crime. Quando presa, passou a alegar problema de saúde e teve a prisão preventiva convertida em prisão domiciliar”, detalhou.

No texto divulgado pela família, são citados dados de uma pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), em conjunto com a Universidade de São Paulo (USP). A pesquisa avalia o cenário de violência política no Brasil e, segundo o levantamento, e Alagoas é o primeiro estado do ranking, se comparado o número de assassinatos, tentativas e ameaças, contra pessoas exercendo cargos eletivos, pelo número de eleitores.
“Alagoas, em seguida Acre e Rio de Janeiro, avaliando casos de 2003 a 2023. Outros estudos, que consideram também violência política àquela cometida contra líderes comunitários, lideranças indígenas e defensores de direitos humanos já apontam estados do Norte liderando esse ranking, com Roraima no topo”.
Vítima e mandante intelectual eram da mesma coligação, mas ele havia decidido se afastar da aliada após descobrir o envolvimento em irregularidades. Um documento assinado 60 dias antes mostra que um grupo de vereadores acusava a prefeita de desviar mais de R$ 7 milhões.
O inquérito policial, feito por três delegados, além de apontar Sânia Teresa Barro como autora intelectual, apontou também mais seis pessoas. Entre os quais o ex-marido da política, Alessander Barros e o primo, Cláudio Magalhães, sargento da Polícia Militar.
O julgamento dos principais acusados pelo assassinato de Luiz Ferreira de Souza ocorreu em fevereiro de 2017, com desdobramentos e novas condenações realizadas em dezembro de 2019.
O processo foi dividido graças a recursos, se desdobrando em julgamentos realizados em diferentes ocasiões no Fórum de Maceió. O primeiro júri, em fevereiro de 2017, foi marcado pelas condenações de Alessander Ferreira Leal (ex-marido da então prefeita de Anadia. Ele foi apontado como autor intelectual junto à ex-prefeita. Ele foi condenado a 32 anos, sete meses e 15 dias de prisão.
Também foram condenados Éverton Santos de Almeida (32 anos, três meses e 15 dias) e Tiago dos Santos Campos (30 anos, 10 meses e 20 dias).
O segundo júri aconteceu em dezembro de 2019. Adaílton Ferreira foi julgado, posteriormente, por ter recorrido da sentença inicial. Ele foi condenado a 22 anos e seis meses de reclusão em regime fechado por homicídio triplamente qualificado, atuando como copartícipe na contratação dos executores.
Segundo as investigações, o dinheiro saía dos cofres públicos e ia para os bolsos da então prefeita e de alguns de seus associados. Luiz Ferreira vinha cobrando explicações sobre processos de licitação envolvendo a compra de combustível para a Prefeitura de Anadia. A Câmara Municipal planejava cassar o mandato da gestora municipal.
Em um dos trechos mais emocionantes da carta, a família de Luiz Ferreira diz que sempre soube quem mandou matá-lo. “Sempre soubemos. Nós lemos o processo, vivemos ameaças, ligamos os fatos e as provas. Outros crimes políticos famosos em Alagoas todo mundo sempre soube quem eram os mandantes, alguns exercem cargos até hoje. Assim como crimes famosos no Brasil. Mas os mandantes desfilam na cara das famílias, seguem na política, com seus filhos, sucessores da herança de poder e morte e seguem impunes”.
Ainda conforme o texto escrito pela família, Luiz Ferreira era um médico, professor da universidade e crente na possibilidade de mudanças sociais via políticas públicas, era também um apaixonado pela sua cidade natal, Anadia, e pela sua família.
“Nesses 15 anos nossa família sofreu muito. Sofreu de saudade e sofre esperando por justiça. O julgamento marcado para o dia 10 é de mais um dos executores, um que estava foragido há alguns anos e recebeu 500 reais para matar meu pai, assim soubemos. Claro que queremos que ele também seja condenado, mas o julgamento principal, o da principal mandante do crime, caduca esperando que a justiça seja feita”.
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