Cidades

Alagoas lidera índice de mulheres que vivem violência sem reconhecê-la como tal

Mapa da Violência de Gênero revela subnotificação recorde em Alagoas

Por Tribuna Hoje com Assessoria 27/08/2026 12h27
Alagoas lidera índice de mulheres que vivem violência sem reconhecê-la como tal
Percentual de mulheres que vivenciaram situações de violência nos últimos 12 meses sem declará-las espontaneamente, por unidade da Federação - Foto: Divulgação

Alagoas se destaca de forma preocupante no cenário nacional da violência contra a mulher. Dados da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025 e reunidos no recém-atualizado Mapa Nacional da Violência de Gênero, mostram que o estado é o único do país acima da média nacional no percentual de mulheres que vivenciaram situações concretas de violência nos últimos 12 meses, mas não reconheceram espontaneamente essas experiências como violência doméstica ou familiar.

No estado, cerca de 36% das mulheres se encontram nessa situação. Nas demais unidades da Federação, os índices permanecem dentro da margem de erro da estimativa nacional. O dado evidencia uma lacuna importante entre a violência efetivamente vivida pelas mulheres e aquela que chega aos registros oficiais e aos serviços de proteção.

A constatação foi possível graças ao cruzamento de diferentes indicadores realizado pelo Mapa Nacional da Violência de Gênero, plataforma mantida pelo Observatório da Mulher contra a Violência (OMV), pelo Instituto Natura e pela organização Gênero e Número. Assim como a pesquisa do DataSenado, a iniciativa busca revelar dimensões da violência que não aparecem nas estatísticas oficiais.

Segundo Maria Teresa Prado, coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, os números apontam para a necessidade de ampliar não apenas os serviços de atendimento, mas também as ações de informação e conscientização.

“Ampliar a Rede de Proteção é fundamental, mas os dados mostram que precisamos olhar também para o que acontece antes de a mulher chegar na Rede. Uma política pública só consegue proteger plenamente quando as mulheres têm informação para reconhecer a violência, conhecem seus direitos e encontram caminhos acessíveis e seguros para buscar ajuda”, afirma.

Quase um terço das alagoanas já sofreu violência doméstica

A pesquisa revela que 29% das mulheres de Alagoas afirmam já ter sofrido violência doméstica ou familiar ao longo da vida. Já 15% relataram ter vivido esse tipo de violência nos 12 meses anteriores ao levantamento.

Entre as mulheres que disseram ter sofrido violência provocada por um homem, a violência psicológica foi a forma mais frequente, mencionada por 86% das vítimas, seguida da violência física (81%) e da violência moral (79%).

Em 67% dos casos, o agressor era o marido ou companheiro da vítima no momento da agressão.

Os dados também mostram que a violência frequentemente persiste no cotidiano das vítimas. Entre as mulheres que sofreram agressões, 14% continuam convivendo com o agressor. Destas, 83% ainda moram na mesma residência que ele.

Nas situações consideradas mais graves, os motivos mais citados pelas entrevistadas foram o ciúme do agressor (53%) e o consumo de álcool (50%).

Violência afeta trabalho, estudos e decisões de vida

Os impactos da violência vão além das agressões e atingem diferentes aspectos da vida das mulheres.

Entre as entrevistadas que encerraram o relacionamento com o agressor, 77% disseram que a violência teve muita influência na decisão da separação.

As consequências também foram percebidas na vida profissional e acadêmica. Mais da metade das vítimas (52%) relatou prejuízos no trabalho remunerado, enquanto 49% disseram que seus estudos foram afetados.

Para Vitória Régia da Silva, diretora-executiva da Gênero e Número, os dados mostram que a violência doméstica não pode ser tratada como um episódio isolado.

“Ela reorganiza a rotina, afeta relações, trabalho, renda e as possibilidades que uma mulher tem de tomar decisões sobre a própria vida. Quando olhamos para esses dados em conjunto, conseguimos entender que enfrentar a violência de gênero exige mais do que responder à agressão: exige políticas capazes de olhar para as condições que permitem que essas mulheres reconstruam suas vidas”, afirma.

Conhecimento sobre proteção ainda é limitado

Embora a maioria das alagoanas conheça os principais serviços de atendimento, a pesquisa aponta fragilidades no conhecimento sobre os mecanismos de proteção.

A Delegacia da Mulher é conhecida por 90% das entrevistadas, enquanto 81% já ouviram falar do Ligue 180. A Defensoria Pública aparece como o serviço mais conhecido, citado por 92% das mulheres.

Apesar disso, 65% afirmam conhecer pouco a Lei Maria da Penha e 12% dizem não conhecer nada sobre a legislação. Em relação às medidas protetivas, 65% relatam ter pouco conhecimento e 19% afirmam desconhecer completamente o instrumento.

Entre as vítimas de violência, 43% registraram denúncia em delegacias comuns ou especializadas.

A pesquisa também mostra que o problema é amplamente percebido pela população. Sessenta e sete por cento das alagoanas conhecem alguma amiga, familiar ou pessoa próxima que já sofreu violência doméstica ou familiar, enquanto 85% acreditam que a violência contra as mulheres aumentou no último ano. Além disso, 71% consideram o Brasil um país muito machista.

Realidade nacional reforça desafio

Os resultados de Alagoas refletem uma realidade observada em todo o país, mas de forma mais intensa.

Segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, quase 29 milhões de brasileiras sofreram violência doméstica ou familiar nos 12 meses anteriores ao levantamento. Deste total, cerca de 25 milhões relataram situações concretas de violência sem defini-las espontaneamente como violência doméstica.

Somadas às mulheres que reconheceram a violência, mas não procuraram a polícia ou os canais de denúncia, chega-se a 93,6% das vítimas brasileiras fora do alcance imediato dos registros policiais e das estatísticas oficiais.

Os dados revelam que o enfrentamento da violência contra a mulher passa não apenas pelo fortalecimento da rede de proteção, mas também pela ampliação do acesso à informação, para que mais mulheres consigam identificar situações de violência e buscar apoio antes que os casos se agravem.

Acesse o Mapa (https://www.senado.leg.br/inst...) e a Pesquisa (https://www.senado.leg.br/inst...).

SOBRE O DATASENADO

O Instituto de Pesquisa DataSenado tem mais de 20 anos de história e foi criado pelo Senado Federal para reforçar a representação parlamentar federativa do Senado Federal. Este levantamento tem o método, a responsabilidade técnica estatística e a produção de resultados realizada pelo instituto e integra série histórica iniciada em 2005 e tem por objetivo ouvir cidadãs brasileiras acerca de aspectos relacionados à desigualdade de gênero e a agressões contra mulheres no país. (senado.leg.br/datasenado)

SOBRE O OBSERVATÓRIO DA MULHER CONTRA A VIOLÊNCIA

Criado em 2016 pelo Senado Federal, o Observatório da Mulher contra a Violência reúne, analisa e divulga dados sobre a violência de gênero no Brasil. Em parceria com o Instituto DataSenado, atua na produção e integração de informações que subsidiam políticas públicas e fomenta o intercâmbio entre as principais instituições envolvidas no enfrentamento à violência contra mulheres. (senado.leg.br/omv)

SOBRE O MAPA NACIONAL DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO

O recorte estadual da 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher estará disponível, a partir de 25/8*, na página "Pesquisa Nacional" do Mapa Nacional da Violência de Gênero. O Mapa é resultado da união de esforços de muitas mãos e corações. A ideia de fazer diferente, de construir algo relevante, motivou organizações, profissionais e vontades, todos com um único propósito: criar uma ferramenta poderosa na luta contra a violência que atinge mulheres e meninas. Realizado por meio da cooperação entre Estado, sociedade civil e imprensa, o projeto é fruto da parceria entre o Senado Federal (representado pelo Observatório da Mulher e DataSenado), o Instituto Natura e a Gênero e Número, que reuniram seus projetos em uma plataforma pública e interativa dedicada à integração e à transparência dos principais dados sobre a violência de gênero no Brasil. (senado.leg.br/mapadaviolencia)

SOBRE O INSTITUTO NATURA

Fundado em 2010 no Brasil, o Instituto Natura é uma organização sem fins lucrativos que atua pela transformação sistêmica da realidade social na América Latina. Viabilizado pela venda de produtos sociais como o Natura Crer Para Ver e as Ofertas do Bem Avon e presente na Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México e Peru, organiza sua atuação em três causas estratégicas: Educação, com foco na alfabetização na idade certa, no fomento ao Ensino 'Médio e no fortalecimento de todo o ecossistema necessário para uma escola de qualidade; Desenvolvimento Integral das Consultoras de Beleza Natura e Avon, com ações multissetoriais voltadas para este grupo, agente de transformação em suas comunidades; e, desde 2024, Direitos e Saúde das Mulheres, agenda que é realizada em parceria com a Avon e foi incorporada a partir da integração com o Instituto Avon, que atuava há mais de 20 anos com iniciativas pelo cuidado com a saúde das mamas e fim da violência contra as mulheres. Em articulação com governos, sociedade civil e setor privado, o Instituto Natura apoia a formulação e implementação de políticas públicas de impacto sistêmico e duradouro e promove ações e campanhas de conscientização dentro da causa das mulheres, sempre apoiada pela Avon.

SOBRE A GÊNERO E NÚMERO

A Gênero e Número é uma associação sem fins lucrativos dedicada à produção, análise e comunicação de dados especializados sobre gênero, raça e sexualidade. Seu propósito é promover transformações sociais em prol da equidade e da justiça social, apoiando a tomada de decisões e a participação cidadã por meio de linguagem gráfica, conteúdo audiovisual, pesquisas, relatórios e reportagens multimídia.