Cidades
Projeto gestAR fortalece assistência a gestantes de alto risco e amplia acesso ao pré-natal especializado em Alagoas
Programa permite identificar precocemente fatores de risco na gestação e capacitar profissionais da atenção básica
A gestação é um período que exige acompanhamento contínuo para garantir a saúde da mãe e do bebê. Quando fatores de risco estão presentes, o diagnóstico precoce, a adoção de cuidados específicos e o acesso rápido a serviços especializados podem ser determinantes para evitar complicações e reduzir a mortalidade materna e infantil. Com este propósito, nasceu o projeto gestAR, iniciativa que utiliza tecnologia para fortalecer a assistência ao pré-natal de alto risco e ampliar o acesso aos cuidados especializados, principalmente para gestantes residentes em municípios mais distantes dos grandes centros.
Idealizado pelo médico obstetra, pesquisador e professor José Antônio Martins, responsável técnico pelo projeto, o gestAR surgiu a partir de uma realidade vivenciada diariamente na assistência às gestantes que apresentavam complicações, com condições clínicas graves que poderiam ser evitadas por meio de uma assistência qualificada desde o início da gestação.
“Como professor, atuo no principal pré-natal de alto risco do estado. E uma constatação que muito me angustiava era o fato de que muitas gestantes chegavam lá em estágios muito avançados de complicações, onde pouco poderia fazer, focando em minimizar riscos ou complicações já instaladas. Foi quando eu entendi que se não houvesse uma melhoria na qualidade da assistência básica e a gente conseguisse identificar fatores de risco nessas pacientes precocemente e instalar, já no início da gestação, linhas de cuidados gerais específicos, nós não conseguiríamos diminuir as taxas extremamente altas de mortalidade materna, fetal, neonatal e infantil”, conta.
O especialista ainda ressalta que no Brasil vivemos o que os grandes centros de assistência pré-natal de países desenvolvidos chamam de inversão da pirâmide, onde a assistência inicial e o acesso a exames laboratoriais e complementares são escassos, o que dificulta a identificação precoce de riscos e a adoção de cuidados específicos como medicações e encaminhamentos para especialistas.
“Nós infelizmente exercemos uma obstetrícia curativa, ou seja, corremos atrás das complicações para minimizar prejuízos. Por exemplo, a principal causa de morte materna é doença hipertensiva, que pode ser rastreada ainda no primeiro trimestre, antes mesmo de qualquer sintoma clínico ou variação de pressão. A gente não consegue impedir que a doença se instale, mas através da adoção de vários cuidados conseguimos mudar o prognóstico materno-fetal”, enfatiza.
Através do EASY - Centro de Pesquisa em Engenharia e Sistemas da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), foi implantado o Núcleo de Telessaúde de Alagoas, do qual o gestAR é o primeiro projeto. Foram desenvolvidas várias ferramentas inovadoras, dentre elas uma plataforma tecnológica para dar suporte ao projeto, além de contar com o apoio e financiamento do Ministério da Saúde para os programas.
Por meio da plataforma, os profissionais conseguem identificar, precocemente, situações de maior risco, receber orientações sobre linhas de cuidado gerais e específicas, acompanhar a evolução clínica das pacientes e agilizar os encaminhamentos para serviços de maior complexidade, quando necessário. Além disto, o sistema monitora as gestantes de alto risco para garantir que as recomendações clínicas sejam cumpridas durante todo o período gestacional.
“Essa é uma ferramenta inovadora, onde a partir da inserção de alguns dados epidemiológicos, biofísicos, laboratoriais e ultrassonográficos, automaticamente estratifica o risco e identifica os riscos específicos que essa paciente tem. E para cada risco, é estabelecido e elaborado linhas de cuidado. No início da gestação, todos os profissionais que vão assistir aquela paciente irão saber os riscos que ela pode desenvolver ao longo da gravidez e também os cuidados que devem ser adotados”, explica o médico idealizador.
Outro importante eixo do projeto é a capacitação permanente das equipes da atenção primária. José Antônio Martins destaca que a iniciativa promove a aproximação entre os profissionais dos municípios e especialistas, fortalecendo a rede de atenção materno-infantil e contribuindo para uma assistência mais resolutiva e integrada, além de reduzir custos assistenciais.
“O projeto piloto está implantado em oito municípios no estado de Alagoas, capacitando e atualizando esses profissionais da assistência básica, que atuam nas UBS, principalmente nos locais longínquos. A proposta é aproximar esses trabalhadores com profissionais altamente especializados em gestações de alto risco. Hoje nós temos quatro médicos e oito enfermeiros no projeto, com 32 pessoas diretamente envolvidas”, salienta.
Até o momento, aproximadamente mil gestantes já foram atendidas pelo programa. O acesso é feito através da Unidade Básica de Saúde e os municípios participantes são Penedo, Branquinha, Maragogi, União dos Palmares, São Luís do Quitunde, Porto Calvo, Rio Largo e Colônia Leopoldina.
Com resultados aparentes, o médico obstetra aponta os principais benefícios que já são absorvidos pelo projeto, além da expectativa de expansão. “A principal mudança é a conscientização dos profissionais quanto a importância desse rastreio e identificação precoce de riscos e da própria paciente, porque não estamos nos preocupando só em formar o profissional, mas também em formar as gestantes, para que elas saibam os cuidados que precisam tomar. A comunicação está sendo mais simplificada e de mais fácil entendimento para todos. E em breve queremos expandir esse projeto para outras cidades e estados, até mesmo outros países, principalmente no continente africano e asiático onde essas taxas de mortalidade materna-fetal infelizmente ainda são muito altas”, finaliza.
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