Cidades

Agosto Lilás: projeto que nasceu após desastre da Braskem usa jiu-jítsu para ensinar autodefesa a mulheres em Alagoas

Iniciativa participante da formação da Rede CT em 2025 alia esporte, educação e prevenção à violência de gênero

Por Assessoria 07/08/2026 14h42 - Atualizado em 07/08/2026 14h52
Agosto Lilás: projeto que nasceu após desastre da Braskem usa jiu-jítsu para ensinar autodefesa a mulheres em Alagoas
Projeto Arretadas, desenvolvido pela Associação das Alagoas Esporte de Combate e Movimento Integrado, organização alagoana que utiliza o jiu-jítsu e a autodefesa - Foto: Assessoria

O Agosto Lilás, mês de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, reforça a importância de iniciativas que unem esporte, educação e garantia de direitos para fortalecer a autonomia feminina. É o caso do Projeto Arretadas, desenvolvido pela Associação das Alagoas Esporte de Combate e Movimento Integrado, organização alagoana que utiliza o jiu-jítsu e a autodefesa como instrumentos de prevenção à violência e promoção da cidadania.

A história da associação é marcada pela reconstrução. A Das Alagoas nasceu a partir de um coletivo de jiu-jítsu criado em 2013, no bairro do Pinheiro, em Maceió. No espaço eram realizadas aulas, ações sociais e atividades voltadas à formação esportiva e cidadã. Com o avanço das rachaduras provocadas pelo desastre socioambiental associado à mineração da Braskem, o grupo foi obrigado a deixar o local, perdendo o tatame, o centro de treinamento e um importante espaço de convivência entre atletas, famílias e moradores.

Em vez de interromper sua atuação, a organização voltou seu trabalho para a reconstrução de vínculos comunitários por meio do esporte, da educação e da defesa pessoal. “O Arretadas surgiu em 2016, quando percebemos que quase não havia mulheres ocupando os espaços do jiu-jítsu. A partir dessa ausência, pensamos em como aproximá-las da modalidade e entendemos que a defesa pessoal poderia ser essa porta de entrada, mostrando que elas também pertencem a esse ambiente e podem aprender técnicas para se proteger”, ressalta Sibele Lima, idealizadora do projeto.

Conquistando rápida importância territorial, o projeto foi expandido para outros bairros de Maceió e cidades vizinhas, atuando em escolas e instituições da sociedade civil com suas oficinas. “Até o ano de 2024, a gente conseguiu consolidar o projeto com aulas fixas aos sábados, mas atualmente esses encontros gratuitos estão parados por falta de recursos. Estamos tentando acessar novos editais”, lamenta Sibele.

Apesar disso, a instituição segue oferecendo suas oficinas itinerantes, que vão além do ensino de técnicas de defesa física. As formações abordam estratégias de prevenção à violência, percepção de riscos, fortalecimento da autonomia, conhecimento dos direitos das mulheres e informações sobre a rede de enfrentamento à violência existente em Alagoas.



"Nós não ensinamos mulheres a brigar. Ensinamos mulheres a se proteger. A autodefesa começa muito antes da agressão física e passa pelo reconhecimento de ambientes, de comportamentos de risco e pelo fortalecimento da autonomia", afirma Sibele.

As oficinas combinam momentos teóricos e práticos. As participantes aprendem técnicas de desvencilhamento e proteção inspiradas no jiu-jítsu, mas também discutem violência doméstica, violência psicológica, violência patrimonial, políticas públicas para mulheres e os caminhos para acessar serviços de proteção e garantia de direitos.

Segundo a associação, o principal objetivo é fazer com que mulheres se sintam mais seguras, confiantes e preparadas para enfrentar situações de risco, especialmente em contextos de violência urbana ou doméstica. "A maior dificuldade é fazer as pessoas entenderem que ensinar autodefesa não é ensinar violência. É ensinar prevenção, autonomia e proteção. Queremos ampliar esse trabalho com equipes multidisciplinares, envolvendo psicólogos, assistentes sociais, advogados e profissionais de educação física para oferecer uma formação ainda mais completa”, acrescenta Sibele.

A metodologia da iniciativa foi compartilhada durante a formação promovida pela Rede CT- Capacitação e Transformação, em 2025, que atua há três anos na formação gratuita de Organizações da Sociedade Civil (OSC’s) que desejam pleitear recursos da Lei Federal de Incentivo ao Esporte. “O que o projeto CT faz é pegar na mão dessas organizações que precisam de recursos públicos para manter projetos sociais de interesse esportivo. Para elas, adquirir capacidade técnica é uma questão de sobrevivência”, explica Camila Fernandes, coordenadora de mobilização da Rede CT na região Nordeste.

Sobre a Rede CT- Capacitação e Transformação


Com o objetivo de descentralizar a distribuição de recursos da Lei de Incentivo ao Esporte, a Rede CT atua, há três anos, na capacitação de OSCs nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste. O projeto conta com patrocínio master do Itaú, bem como patrocínios da B3, a bolsa de valores brasileira, e do Instituto Aegea.

Desde 2024, a instituição já capacitou 797 organizações, impactando mais de 500 mil pessoas. Mais de R$ 40 milhões foram captados por cursistas e mentorados da Rede CT. Ao todo, 264 OSCs contempladas pela mentoria especializada chegaram a submeter projetos às Leis de Incentivo ao Esporte.