Cidades
A escalada da violência contra a mulher
Casos recentes em Alagoas reacendem debate sobre prevenção, proteção e atuação dos órgãos de segurança e Justiça
A sequência de casos de feminicídio e de violência extrema contra mulheres registrada em Alagoas nos últimos meses voltou a acender o alerta para a necessidade de fortalecer a rede de proteção às vítimas. Para a advogada Andrea Alfama, especialista em Direito das Mulheres, os crimes revelam um padrão de escalada da violência que, muitas vezes, poderia ser interrompido com uma atuação mais rápida e integrada dos órgãos responsáveis.
O debate ganhou novo impulso após a prisão de Victor Bruno da Silva, conhecido como “Vitinho”, investigado por estuprar, espancar e tentar matar Maria Daniela, em Coité do Nóia. Embora ressalte que não teve acesso aos autos do processo e, por isso, não possa analisar tecnicamente o caso, Andrea afirma que espera que a investigação apure todas as circunstâncias e que, sendo comprovados os fatos, o investigado responda por tentativa de feminicídio, além dos demais crimes eventualmente denunciados pelo Ministério Público.
“Não tive acesso ao processo, então não posso fazer uma análise específica desse caso. Mas o que chama a atenção é que ele permaneceu cerca de um ano foragido, supostamente contando com uma poderosa rede de proteção que dificultou sua localização. A expectativa da sociedade é que toda essa dinâmica seja esclarecida durante a investigação e que, sendo comprovados os fatos, ele seja responsabilizado na forma da lei, inclusive por tentativa de feminicídio, se esse for o enquadramento adotado pelo Ministério Público e pelo Judiciário.” Segundo a advogada, mais do que analisar casos isolados, é preciso compreender que os episódios recentes refletem uma violência cada vez mais intensa contra as mulheres.
“Estamos observando crimes extremamente violentos, praticados com requintes de crueldade. Isso demonstra que a violência doméstica não começa no feminicídio. Ela costuma ser precedida por ameaças, agressões psicológicas, controle, perseguição e violência física. Quando essa escalada não é interrompida, o desfecho pode ser fatal.”
O cenário preocupa também as instituições públicas. O Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL)t em reforçado que os assassinatos registrados neste ano evidenciam uma violência estrutural e persistente, destacando casos que mobilizaram o estado nos primeiros meses de 2026 e a necessidade de fortalecer as ações de enfrentamento ao feminicídio.
Dados divulgados pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Sinesp) apontaram oito feminicídios registrados em Alagoas apenas no primeiro trimestre de 2026, número que manteve o estado em alerta para o enfrentamento desse tipo de crime.
Além dos homicídios, os indicadores de violência contra mulheres permanecem elevados. Boletim epidemiológico da Secretaria de Estado da Saúde mostra que, entre 2020 e 2024, foram registradas mais de 26 mil notificações de violência contra meninas e mulheres em Alagoas. A residência aparece como o principal local das agressões, e o parceiro íntimo figura entre os principais autores da violência contra mulheres adultas. O levantamento também aponta elevado índice de violência de repetição, indicando que muitas vítimas já haviam sofrido agressões anteriormente.
Para Andrea Alfama, esses números evidenciam que o enfrentamento ao feminicídio depende de uma rede de proteção mais eficiente.
“A Lei Maria da Penha é uma legislação avançada. O problema não está apenas na lei, mas na efetividade da sua aplicação. Precisamos fortalecer toda a rede de proteção, garantindo atendimento rápido, fiscalização do cumprimento das medidas protetivas, acolhimento das vítimas e integração entre Polícia Civil, Polícia Militar, Ministério Público, Defensoria Pública, Judiciário e assistência social”.
A especialista destaca que muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos por medo, dependência financeira ou emocional, o que exige uma atuação preventiva do Estado.
“Não basta conceder uma medida protetiva. É necessário acompanhar essa mulher, oferecer suporte psicológico, assistência social, autonomia financeira e garantir que ela esteja efetivamente protegida. O combate ao feminicídio passa por políticas públicas permanentes”.
Outro ponto ressaltado pela advogada é a necessidade de conscientização da sociedade para identificar sinais de risco antes que a violência alcance níveis extremos.
“Família, amigos, vizinhos e colegas de trabalho também fazem parte dessa rede de proteção. Muitas vezes, o agressor já apresentou comportamentos de controle excessivo, perseguição, ameaças ou agressões anteriores. Esses sinais não podem ser minimizados”.
Andrea também observa que o endurecimento das penas para o feminicídio representa um avanço importante, mas, sozinho, não impede que novos crimes aconteçam.
“A punição é necessária e deve ser rigorosa. Porém, ela atua depois que a violência aconteceu. O grande desafio continua sendo impedir que as mulheres sejam assassinadas. Isso só será possível com prevenção, educação, acolhimento e uma rede de proteção funcionando de forma articulada”.
Para a advogada, cada caso recente registrado em Alagoas reforça que o combate à violência contra a mulher exige respostas permanentes do poder público e participação ativa da sociedade.
“Cada feminicídio representa uma falha coletiva. Precisamos agir antes que a violência chegue ao seu estágio mais extremo. Esse é o verdadeiro desafio”.
Confira a entrevista completa no link abaixo:
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