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Corpo de alagoano permanece há um ano no IML de São Paulo

Por Valdete Calheiros - repórter / Tribuna Independente 17/06/2026 08h26 - Atualizado em 17/06/2026 09h11
Corpo de alagoano permanece há um ano no IML de São Paulo
Jeferson Souza vivia em situação de rua em São Paulo e foi assassinado por policiais militares - Foto: Divulgação

Passado mais de um ano do assassinato do alagoano Jeferson de Souza, 24 anos, morto em São Paulo, depois de uma abordagem policial, a família do rapaz ainda aguarda – sem prazo estimado – o translado do corpo do jovem para Alagoas. Na verdade, os parentes seguem sem detalhes sobre como, quando ou até mesmo se o corpo será trazido para que eles possam providenciar um enterro digno.

No mês passado, a irmã de Jeferson, Micaeli Soares, enviou mensagem, via WhatsApp, à Defensoria Pública daquele estado perguntando sobre os trâmites para que o corpo seja enviado. Até a tarde de ontem, a mensagem sequer havia sido respondida.

Micaeli Soares afirmou não entender o porquê de o governo de São Paulo ainda não ter cumprido a decisão de enviar o corpo à família. Já que existe decisão judicial determinando o translado.

Ainda assim, a família segue sem data prevista. A Defensoria Pública de São Paulo ficou de acompanhar a situação, mas há quase um mês não responde mais as indagações da família.

A família espera a chegada do corpo de Jeferson de Souza para poder se despedir, de forma digna, do alagoano. O translado do corpo está avaliado em cerca de R$ 15 mil. No momento, o corpo segue no Instituto Médico Legal (IML) paulista.

Segundo Micaeli Santos, a demora foi por conta da realização do exame de DNA. No entanto, o resultado do exame saiu em dezembro de 2025. “Falta agora, o estado de São Paulo efetuar o pagamento e fazer o translado do corpo do meu irmão. A família quer muito que ele seja enterrado aqui, onde ele cresceu. Nós não aceitamos que ele seja enterrado lá”, explicou a irmã do jovem.

Natural de Craíbas, interior de Alagoas, Jeferson de Souza estava morando em São Paulo desde 2019, e foi no executado por policiais militares da Força Tática daquele estado, com tiros de fuzil. O crime foi registrado pela câmera corporal de um policial.

Os policiais envolvidos na execução, Alan Wallace e Danilo Gehring, foram presos no dia 22 de julho pela própria corporação e levados ao Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Leste de São Paulo, onde permanecem detidos. Ambos responderão por homicídio qualificado.

Alan foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo à Justiça Comum por homicídio doloso duplamente qualificado (motivo torpe e mediante recurso que impossibilitou a defesa da vítima). Já Danilo responderá, na medida de sua culpa, por ter contribuído para a execução do crime.

O crime aconteceu no dia 13 de junho no Viaduto 25 de Março. As imagens obtidas mostram que os militares mentiram ao dizer que o alagoano reagiu à abordagem. Jeferson teve ferimentos de fuzil na cabeça, no tórax e no braço.

Micaeli Soares contou que o irmão se mudou para capital paulista com o objetivo de melhorar de vida. Nos primeiros anos, trabalhou em uma pizzaria, mas começou a usar drogas e passou a morar na rua. Órfão após a morte da mãe, vítima de câncer, e o assassinato do pai, Jeferson foi tentar a sorte na cidade mais movimentada do país.

“O sonho dele era ser jogador de futebol. Muitas vezes ele me falou que queria voltar [para Alagoas], que queria sair dessa vida. Ele era um menino tranquilo. É uma dor muito forte que eu não desejo para ninguém. Já me perguntei mil vezes o que ele fez para chegar ao ponto de tirarem a vida dele?”À época, o porta-voz da Polícia Militar de São Paulo classificou a morte do morador em situação de rua como “inaceitável” e “vergonhosa” a conduta dos policiais.

A Justiça de São Paulo responsabilizou o estado de São Paulo pela morte do alagoano. A decisão 11ª Vara de Fazenda Pública da Comarca de São Paulo, assinada no último dia 29 de agosto, é considerada inédita e determina que o estado providencie ou arque com o translado do corpo para o município de Craíbas.

Os policiais militares alegaram que o jovem teria tentado tomar a arma de um dos agentes, justificando os disparos. No entanto, os vídeos mostram que a vítima estava desarmada, acuada e chorando, com as mãos para trás, quando foi morta com tiros na cabeça, no tórax e no braço.