Cidades
Crateras gigantes ameaçam imóveis em Maceió
Um estudo da Ufal mostra que na capital existem 17 voçorocas, mas Defesa Civil reconhece a existência de quatro
Com o início do período chuvoso que afeta Maceió nos últimos dias, os moradores vizinhos das voçorocas passam a contar com a própria sorte para não acordarem com suas residências engolidas pelas crateras gigantes.
Enquanto estudos da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) dão conta de 17 voçorocas, a Defesa Civil de Maceió reconhece apenas quatro. A constatação dos estudiosos da Ufal é que se nada for feito, parte da capital pode ser engolida pelas crateras gigantes.
Imagens aéreas feitas com exclusividade pela equipe do jornal Tribuna Independente mostram o desmoronamento das áreas de terra às margens de casas, evidenciando o risco real de novos deslizamentos. O perigo aumenta ao considerar a precariedade de muitas construções próximas ao despenhadeiro.
No bairro Petrópolis, no conjunto João Sampaio I, na Rua Pimentel, os muros da residência do morador Jorge Vital dos Santos escondem uma voçoroca que ocupa parte dos fundos da casa, onde funcionava também um terreiro.
O local, foi condenado pela Defesa Civil de Maceió desde o dia 24 de fevereiro deste ano. Desde então, os trabalhos no ilê estão suspensos e os encontros das pessoas de religião de matriz africana sem data prevista para retorno.
“Estou com minha casa e meu local de oferendas totalmente isolado e sem perspectiva alguma. Minha família já saiu da tragédia da Braskem, morávamos por trás do Hospital Sanatório. Saímos de uma tragédia para outra”, lamentou.
No bairro Santa Amélia, outra voçoroca cresce a olhos vistos na principal via local e já tomou conta de 150 metros de largura, 100 metros de profundidade e está a 30 metros da principal via do bairro.
O precipício fica alguns metros após a Igreja Santo Antônio, em frente a um posto de combustível, na principal avenida do bairro que margeia a Lagoa Mundaú.
De forma técnica, a cratera gigante é chamada de voçoroca. A voçoroca é um fenômeno geológico que consiste na formação de grandes buracos de erosão causados pela chuva e intempéries. A erosão acontece em solos onde a vegetação é escassa, deixando o solo vulnerável ao carregamento por enxurradas.
A água da chuva, ao invés de infiltrar no solo, corre pela superfície e, em áreas sem cobertura vegetal, começa a escavar sulcos. Esses sulcos vão se tornando maiores e mais profundos, formando buracos ou crateras. Práticas como o desmatamento, a construção de estradas, a mineração e a agricultura intensiva podem acelerar a erosão e a formação de voçorocas.
De acordo com os relatos de moradores, o buraco se formou nas proximidades do Parque Municipal, logo após a subida da ladeira de Chã de Bebedouro, em frente a um posto de combustíveis.
Uma das voçorocas mais impressionantes é a localizada na Ladeira do Catolé, no Clima Bom (onde estão localizadas sete voçorocas ao todo). Elas crescem a olhos vistos e – silenciosos – do poder público municipal.
As pesquisas da Universidade mostram também voçorocas no Tabuleiro dos Martins, na Chã da Jaqueira, na Chã de Bebedouro, no distrito de Fernão Velho, na Serraria, no Feitosa, no Sítio São Jorge em Jacarecica, em Ipioca, Riacho Doce e na Pescaria.

Em áreas de ocupação desordenada, o surgimento de voçorocas é maior
O professor da Ufal Bruno Ferreira é doutor e mestre em Geociências pela Universidade Federal de Pernambuco. Ele ensinou que nas áreas de urbanização periférica, onde geralmente a ocupação é implantada de forma desordenada e sem o emprego de técnicas construtivas adequadas, o risco de processos de voçorocamento é maior, assim como em áreas onde foi necessário cortar o relevo para a abertura de vias de circulação.
“Durante os eventos de maior chuva, a população fica exposta aos riscos de desestabilização do terreno, levando a desmoronamentos e escorregamentos, a montante, na porção superior das voçorocas, bem como, a corridas de lama e soterramentos nas porções inferiores. Além desses ricos diretos, existe também o processo de assoreamento dos vales, córregos, canais e riachos, pelo material sedimentar que desce das voçorocas, agravando ou gerando riscos secundários a elas, como as áreas de inundação e soterramento de casas por lama”, esclareceu.
Segundo ele, o poder público, nas esferas federal, estadual e municipal possui conhecimento das áreas de risco, uma vez que levantamentos já foram realizados, a exemplo do “Diagnóstico da população em áreas de risco geológico: Maceió, AL”, apresentado pelo Serviço Geológico do Brasil – SGB em 2022 e disponibilizado em seu sítio eletrônico. Além de levantamentos realizados por órgãos estaduais e municipais.
“Revisar e ampliar esses estudos pode ajudar na busca por soluções e mitigações nessas áreas, com vistas a proteger a população, seja em medidas emergências, quando do risco iminente, mas principalmente na implantação de soluções de médio e longo prazos de resolução dos problemas”, considerou.
Conforme Bruno Ferreira, emergencialmente algumas ações podem ajudar a desacelerar os processos, protegendo a população e a estrutura edificada, dentre elas, a canalização adequada e desvio de fluxos superficiais, ações de terraceamento, reflorestamentos e revestimento das encostas. Mas todas essas soluções emergenciais devem ser implantadas no momento de risco iminente, mas incluídas em planos maiores de resolução dos problemas, uma vez que as quadras chuvosas se repetem todos os anos.
Ainda conforme o pesquisador, a requalificação dessas áreas deve envolver as obras, mas também ações de médio e longo prazo de educação da população residente, reordenamento e fiscalização das formas de uso e ocupação do solo.
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