Cidades

Mulheres pedem o fim do feminicídio e cobram respeito

Elas exigem mais políticas públicas, que contribuam para o fim da violência que tem crescido nos últimos anos no estado

Por Valdete Calheiros / Tribuna Independente 07/03/2026 09h01 - Atualizado em 07/03/2026 09h29
Mulheres pedem o fim do feminicídio e cobram respeito
Para Lenilda Lima, mulheres têm o direito a uma vida sem medo com liberdade e independência - Foto: Sandro Lima / Arquivo

O fim da violência contra as mulheres é o desejo unânime das mulheres ouvidas pelas ruas de Maceió pela reportagem do jornal Tribuna Independente na semana que antecedeu o Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo, dia 08 de março.

Para a vendedora ambulante Cristina Maria de Oliveira, a violência contra as mulheres está fazendo dezenas de vítimas diariamente e deixando órfãos muitas crianças e adolescentes.

“Hoje em dia, todo mundo conhece alguma mulher que sofreu algum tipo de violência do companheiro ou do ex-companheiro. Não sei como, mas essa situação tem que parar. Os casos já estão fora do controle. As pessoas que entendem do assunto precisam arrumar uma solução e acabar com esse cenário, onde as mulheres são sempre vítimas”, alertou Cristina Maria de Oliveira.

Cristina Maria de Oliveira não admite que em pleno século 21 as mulheres ainda sofram violência (Foto: Sandro Lima)

A vendedora de lingerie Silva Batista afirmou que trabalha de domingo a domingo para ajudar a garantir o sustento da casa, onde mora com o marido e dois filhos. “A sociedade exige muito da gente. A mulher tem que trabalhar fora de casa e dentro de casa. Nunca temos tempo para a gente. Temos que ser sempre fortes, batalhadoras, termos coragem, determinação e ousadia. Tudo isso cansa, não podemos falhar. Aí, além de tudo isso, ainda tem homem que bate na mulher quando ela chega do trabalho. Assim não dá. Homem que bate em mulher tem que apodrecer na cadeia.

Mãe de 10 filhos, dos quais seis mulheres, avó de 30 netos e bisavó de 16 crianças, a aposentada Antônia Quitéria da Silva disse que se pudesse presentear todas as mulheres, acabaria com a violência praticada pelos homens. “Criei meus 10 filhos sem pai. Na verdade, quem criou foi Deus porque eu passava o dia inteiro trabalhando para dar de comer a todos eles. Hoje em dia, todos estão crescidos, casados e formados”, frisou.

A secretaria de Estado da Mulher (Semu), Marília Almeida de Albuquerque Melo, celebrará o dia 08 de março, ressaltando a resistência da mulher.

Na sua avaliação, a data serve como um dia de reflexão marcado pela luta diária por igualdade, justiça, reparação, liberdade e o direito de viver sem as amarras e violências imputadas ferozmente pelo machismo estrutural e pela misoginia em todas as suas formas, das mais latentes às expressamente escancaradas.

“Por meio da luta, fizemos nossas vozes serem ecoadas alto e conquistamos o direito ao voto, direitos reprodutivos e trabalhistas, a Lei Maria da Penha e uma representatividade política, mesmo que ainda baixa perante a proporção populacional e as necessidades da população feminina em todos os seus recortes e segmentos”, frisou.

Secretária da Mulher, Marília Albuquerque, diz que data serve como um dia de reflexão marcado pela luta diária (Foto: Divulgação)

Em Alagoas, acrescentou Marília Albuquerque, conquistamos avanços históricos na gestão do governador Paulo Dantas, como a implementação de uma secretaria de estado exclusivamente dedicada a cuidar, proteger e atender as demandas das mulheres por meio de políticas públicas e articulações.

Ainda conforme a secretaria de Estado da Mulher, também foi desenvolvido, de forma inédita em todo o Brasil, uma política estadual direcionada para o enfrentamento à violência doméstica, com enfoque no fortalecimento da rede de enfrentamento, para ampliar o atendimento e desenvolver estratégias de prevenção.

Para a advogada Kyvia Maciel, o Dia Internacional da Mulher vai além de uma data comemorativa e se consolida como um marco de reflexão sobre direitos, avanços e desafios ainda enfrentados pelas mulheres no Brasil.

“A Lei Maria da Penha, a tipificação do feminicídio como circunstância qualificadora do homicídio e a criminalização da importunação sexual representam conquistas importantes no enfrentamento às diversas formas de violência contra a mulher”.

No entanto, de acordo com Kyvia Maciel, o principal desafio não está apenas na criação das normas, mas na sua efetiva aplicação. “Não basta termos direitos no papel. É preciso que as mulheres saibam que têm esses direitos e que o Estado esteja preparado para garantir proteção rápida e eficaz”, lembrou.

A advogada ressaltou que a violência contra a mulher não se restringe à agressão física. A legislação brasileira, completou ela, reconhece também as violências psicológica, patrimonial, moral e sexual, que muitas vezes ocorrem de forma silenciosa e contínua.

Segundo a advogada, situações como comentários que desqualificam mulheres no ambiente profissional, quando configuram discriminação ou assédio, podem gerar responsabilização civil e, em determinados casos, criminal.

A dirigente da Central Única dos Trabalhadores, Lenilda Lima, ressaltou a importância da participação feminina na política e a centralidade da Lei 14.611/23, que institui a equiparação salarial e a ratificação de convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT), seja a 190, que visa garantir um ambiente livre da violência e do assédio no local de trabalho, e a 156, para combater a discriminação no trabalho relacionadas responsabilidades familiares exercida pelas mulheres serão temas que exigirão mais lutas e compromisso da classe política para assegurar o direito ao trabalho com segurança e equidade.

“A ampliação da participação feminina na política é um tema de extrema relevância numa conjuntura onde a violência política atinge cotidianamente as mulheres que conseguem quebrar as barreiras visíveis, as camufladas e ocupam cargos eletivos. Somente quebrando essa permissividade de controle do poder masculino, que subestima a capacidade, a competência das mulheres e ditam os lugares a elas reservados, podemos pautar políticas públicas voltadas às necessidades e proteção a vida das mulheres”, completou a dirigente sindical.

Como não podia deixar de ser, a luta contra o feminicídio marcará as atividades em alusão ao 08 de março, neste final de semana. A camiseta selecionada com a frase “Ser mulher não pode ser sentença de morte” traduz a indignação diante do número de feminicídios e violências múltiplas sofridas pelas mulheres diante da inércia dos governantes. Em 2025, 1.568 mulheres foram mortas apenas pelo fato de terem nascido mulher. Em Alagoas, 29 mulheres sofreram feminicídios.

“A crueldade desses assassinatos sinaliza que o patriarcado, a misoginia tem sido alimentada nas redes sociais e nas instituições políticas, onde parlamentares mulheres são desrespeitadas no exercício dos seus mandatos”, comentou Lenilda Lima.

Lenilda Lima, afirmou que as mulheres exigem políticas públicas e que o Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio e o Plano Nacional de Cuidados sejam implantados pelos governos em todas as instâncias. E que a violência de gênero, racial e lesbofóbica, barreiras estruturantes da sociedade, também sejam removidas. Acrescentando que as mulheres têm o direito a uma vida sem medo, fazer suas escolhas, construir seu caminho com liberdade e independência.

O Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 08 de março, surgiu no início do século XX, consolidando-se a partir de manifestações de trabalhadoras por melhores condições de vida, igualdade de direitos e voto, com um marco histórico decisivo em 08 de março de 1917, quando operárias russas protestaram contra a fome e a guerra.