Cidades

Cratera aterroriza moradores da Santa Amélia

Eles estão preocupados com chegada do período chuvoso e temem que voçoroca afete diversos imóveis que ficam próximos

Por Valdete Calheiros - repórter / Tribuna Independente 04/03/2026 08h22 - Atualizado em 04/03/2026 09h57
Cratera aterroriza moradores da Santa Amélia
Com a previsão de chuvas começando a ser mais frequente, moradores do bairro temem que cratera que cresce a cada dia destrua moradias - Foto: Edilson Omena

Os moradores do bairro Santa Amélia estão convivendo com o medo de uma cratera, que cresce a olhos vistos no meio do bairro, ceder de vez, quando começar o período chuvoso na capital. O buraco, de aproximadamente 50 metros de profundidade, surgiu, há cerca de quatro, cinco anos, de acordo com os cálculos dos moradores.

A situação é assustadora, conforme a população que acompanha de perto, a cada chuva, a evolução do buraco. O precipício fica alguns metros após a Igreja Santo Antônio, em frente a um posto de combustível, na principal via do bairro.

A preocupação aumenta à medida em que as previsões de mais chuvas se aproximam. O risco de novos deslizamentos é iminente. O bairro margeia a Lagoa Mundaú.

De forma técnica, a cratera gigante é chamada de voçoroca. A voçoroca é um fenômeno geológico que consiste na formação de grandes buracos de erosão causados pela chuva e intempéries. A erosão acontece em solos onde a vegetação é escassa, deixando o solo vulnerável ao carregamento por enxurradas.

A água da chuva, ao invés de infiltrar no solo, corre pela superfície e, em áreas sem cobertura vegetal, começa a escavar sulcos. Esses sulcos vão se tornando maiores e mais profundos, formando buracos ou crateras. Práticas como o desmatamento, a construção de estradas, a mineração e a agricultura intensiva podem acelerar a erosão e a formação de voçorocas.

Conforme um estudo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), divulgado no ano passado, na capital existem pelo menos 15 crateras gigantes, cuja erosão é agravada por ações como lançamento de esgotos ou canalização de águas pluviais, causando a degradação do solo.

Uma delas é justamente no bairro Santa Amélia, onde o tamanho das crateras gigantes assusta os moradores, aguça a pesquisa de especialistas e cresce a olhos vistos e – silenciosos – do poder público municipal.

Imagens aéreas feitas com exclusividade pela equipe do jornal Tribuna Independente, mostram o desmoronamento de uma área de terra às margens de casas, evidenciando o risco real de novos deslizamentos. O perigo aumenta ao considerar a precariedade de muitas construções próximas ao despenhadeiro.

A voçoroca já “engoliu”, cerca de 40 metros do terreno do aposentado Ademar José da Silva. Morador do local, há 29 anos, ele disse que cada vez que vai ao quintal do terreno observa o buraco cada vez maior.

“A voçoroca está crescendo, dia a dia, nos fundos do meu terreno. Por coincidência, me aposentei hoje (ontem) e essa será minha preocupação diária até ser resolvida. Me aposentei para querer sossego. Preciso descansar e não me preocupar com uma cratera que pode me engolir, engolir minha casa e meu negócio”, disse, preocupado, enquanto atendia fregueses em sua loja especializada em rações.

De acordo com os relatos de moradores, o buraco se formou nas proximidades do Parque Municipal, logo após a subida da ladeira de Chã de Bebedouro, em frente a um posto de combustíveis.

O perigo é ainda maior, uma vez que a cratera está “escondida” pelos muros de construções, casas e demais edificações erguidas no local. Os moradores do bairro, de uma forma geral, têm conhecimento sobre o buraco gigante.

No entanto, quem, transita ou eventualmente circula pela região, anda beirando o perigo sem ter a menor noção do que pode acontecer.

A dona de casa Maria Cidália da Silva, 54, costumava caminhar diariamente pela região, bem próxima à cratera. Ao saber da existência da cratera, mudou o percurso mesmo aumentando a distância entre sua casa e o destino.

Conforme a dona de casa Elisa Barros, a cratera começou na Marquês de Abrantes e agora está tomando conta do bairro.

“É, no mínimo assustador, a pessoa acordar todas as manhãs e não saber se a casa foi engolida pelo buraco. Qualquer barulho nos assusta, já ficamos pensando o pior. Nossas vidas estão aqui, estamos no fio da navalha. Vez ou outro ouvimos barulhos, estrondos. É como se o barro tivesse cedendo ainda mais”, desabafou.

Além do medo da cratera tomar proporções ainda maiores, a falta de informações e providências por parte do poder público causa indignação nos moradores que questionam sobre o destino do bairro, caso a cratera continue a avançar.

Quem passa pelo local, teme que a situação se agrave ainda mais e está à espera de uma solução definitiva.

A equipe da reportagem registrou a voçoroca com imagens aéreas, fotografias convencionais, ouviu relatos preocupantes de moradores e procurou os órgãos públicos municipais a fim de cobrar uma solução definitiva para a população.

Prefeitura de Maceió

A Defesa Civil de Maceió informou que já possui o mapeamento e tem acompanhado a situação das voçorocas existentes em Maceió e tem atuado junto à Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminfra) na fase de realização dos estudos para apontar os encaminhamentos necessários, com prioridade para aquelas que oferecem maior risco. Os trabalhos incluem vistorias técnicas e estudos preliminares para definir as soluções mais seguras e adequadas a cada situação.

Conforme a nota conjunta, assinada pela Defesa Civil e pela Seminfra, Maceió possui atualmente, de acordo com dados coletados no novo Plano Municipal de Redução de Risco, cerca de 230 áreas de risco.

A Defesa Civil afirmou que segue monitorando esses locais para indicar as intervenções adequadas como obra de contenção definitiva, obras de drenagem e reflorestamento com vegetação.

No caso específico da voçoroca da Santa Amélia, a Seminfra esclareceu que já iniciou as intervenções e os estudos técnicos necessários para viabilizar a execução da contenção definitiva no local.