Cidades
Rio Jacarecica corre risco de impactos ambientais severos
Entidades denunciaram crime ambiental ao Ministério Público Federal
O desvio do curso do Rio Jacarecica acarretará uma série de impactos significativos na região, conforme alerta o ambientalista Alder Flores. O rio passou a escoar a 1.400 metros de distância de sua foz original, caracterizando uma alteração artificial sem precedentes. Entre os efeitos previstos estão erosão severa, contaminação hídrica, instabilidade ambiental e outros problemas que poderão comprometer o futuro do Litoral Norte alagoano.
Para Alder Flores, situações como a do Jacarecica resultam em graves problemas ambientais que, mais adiante, afetarão toda a região. “Quando ocorre o desvio da foz de um rio, surgem impactos como erosão e assoreamento, que alteram a dinâmica natural do curso e provocam sedimentação”, frisou. Ainda segundo o ambientalista, o processo pode causar salinização, permitindo o avanço da água do mar em razão da redução do fluxo de água doce, o que leva à perda da biodiversidade da foz, incluindo manguezais e estuários, habitats cruciais para diversas espécies. “A alteração da salinidade e do fluxo modifica drasticamente esse ambiente, levando à perda de peixes nativos, aves e plantas que não conseguem se adaptar às novas condições, podendo chegar à extinção”, afirmou.
A bióloga e doutoranda Neirevane Nunes, do SOTEPP-UNIMA, que denunciou o crime ambiental, destacou que o Litoral Norte de Maceió está ameaçado pela ocupação desordenada intensificada com a duplicação da AL-101 Norte. Segundo ela, diversas intervenções vêm sendo realizadas na restinga e em áreas de preservação permanente. “Essa corrida do mercado imobiliário no Litoral Norte ocorre sem planejamento, sem respeito à legislação ambiental, sem fiscalização adequada e sem rigor no licenciamento de projetos pelos órgãos competentes, além da ausência de atualização do Plano Diretor de Maceió, do Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) e de um plano de enfrentamento às mudanças climáticas. Não é possível conceber crescimento sem planejamento”, ressaltou.

Sobre Jacarecica, Neirevane reforçou que as consequências são inevitáveis: “A restinga funciona como barreira natural de proteção da costa e, com sua degradação crescente, a região fica mais exposta à erosão, agravada pelas mudanças climáticas. O desvio do curso natural do rio provoca assoreamento do leito, erosão acelerada das margens, aumento do risco de alagamentos e comprometimento da qualidade da água”. Para ela, a médio e longo prazo, os impactos podem se tornar ainda mais graves, com perda de áreas naturais, redução da biodiversidade e até risco de desaparecimento de espécies. A mudança no curso do Jacarecica e a destruição da restinga prejudicam fauna e flora, afetando a qualidade da água, a oferta de alimento e a reprodução dos animais. Um exemplo é a tartaruga-de-pente, espécie ameaçada de extinção, que pode perder áreas de desova e ter filhotes desorientados, comprometendo sua sobrevivência e representando um dano ambiental grave.
Como evitar
o crime ambiental
Neirevane Nunes defende que é necessário reabrir imediatamente o curso natural do Rio Jacarecica, conforme solicitado em requerimento ao Ministério Público Federal de Alagoas. Outro passo é suspender todas as intervenções irregulares e projetos imobiliários previstos para a área até a aprovação do novo Plano Diretor, como recomendado pelo Ministério Público Estadual. Ela também reforça a urgência de um plano municipal de adaptação às mudanças climáticas, além da responsabilização dos agentes envolvidos e da implementação de ações de recuperação ambiental, como a recomposição da restinga do Litoral Norte.
IMA
Em nota enviada à Tribuna Independente, o Instituto do Meio Ambiente de Alagoas (IMA/AL) informou que uma equipe esteve no Rio Jacarecica para identificar o problema que causou o desvio do curso natural. “O IMA/AL informa que técnicos já foram enviados ao local para verificar a suposta alteração no curso do rio, em Maceió, relacionada a obras no bairro de Jacarecica. As equipes seguem realizando análises técnicas na região a fim de apurar denúncias de crimes ambientais e, caso sejam constatadas irregularidades, medidas cabíveis serão adotadas conforme a legislação vigente. O Instituto esclarece que, até o momento, não recebeu comunicação oficial da Associação de Moradores de Jacarecica nem do Ministério Público Federal sobre o assunto, mas realiza regularmente o monitoramento da balneabilidade e ações contínuas de fiscalização ambiental. Qualquer denúncia pode ser registrada pelo aplicativo IMA Denuncie, disponível para Android e iOS.”
No dia 18 de dezembro do ano passado, a Associação dos Moradores dos Conjuntos Residenciais Jacarecica I e II (Amorjac), o Observatório Ambiental Alagoas, o Instituto Salsa-de-Praia e outras entidades ambientais denunciaram ao Ministério Público Federal, em Alagoas, o crime ambiental relacionado à alteração do curso do Rio Jacarecica. As entidades aguardam definição das medidas que serão adotadas.
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