Cidades

Bairro Cidade Universitária lidera em violência contra a mulher

De janeiro a junho de 2025, foram registrados 6.811 boletins de ocorrência em Maceió

Por Valdete Calheiros / Tribuna Independente 29/11/2025 14h35 - Atualizado em 29/11/2025 15h19
Bairro Cidade Universitária lidera em violência contra a mulher
Coordenadora da Casa da Mulher Alagoana, Paula Lopes, afirma que o local também serve de abrigo temporário e funciona desde 2021 - Foto: Divulgação

Nos seis primeiros meses deste ano, foram registrados um total de 6.811 boletins de ocorrência relacionados à violência contra a mulher. Os números são do relatório do Observatório Alagoas Igualdade de Gênero e são os mais recentes publicados. Os dados foram extraídos do Perfil da Violência contra Mulheres em Alagoas: Janeiro a Junho de 2025.

As denúncias por ameaça, difamação, injúria, estupro, stalking, lesão corporal, descumprimento de medidas protetivas aparecem em destaque, indicando maior conscientização na busca por proteção e denúncia com base na Lei Maria da Penha.

A maior parte das ocorrências de violência contra a mulher tem endereço certo e acontecem nos bairros Cidade Universitária 23,7%; Benedito Bentes 18,0%; Jacintinho 12,9%; Tabuleiro do Martins 12,4%; Clima Bom 8,8%; Santa Lúcia 6,0%; Jatiúca 6,0%; Vergel do Lago 4,5%, Santos Dumont 4,1% e Feitosa 3,6%.

As ameaças são 34,5% dos boletins; lesão corporal (21,4%); perseguição/stalking (9,5%); injúria (9,2%); descumprimento de medida protetiva (5%); difamação e calúnia (4,5%); vias de fato (3,8%); dano (3,4%), estupro (tentativa e vulnerável 1,8%) e outros (6,7%).

No primeiro semestre de 2025, 297 mulheres idosas fizeram denúncias de violência, 250 denúncias foram de crimes cometidos contra meninas entre 12 e 17 anos e 99 boletins envolvendo crianças de zero a 11 anos.

A faixa etária predominante das vítimas é entre 35 e 45 anos, sendo seguida por 25 a 29 anos; 30 a 34 anos; 46 a 59 anos; mais de 60; 12 a 17 e 0 a 11 anos.

A violência não escolhe idade, nem profissão. Entre as vítimas, 37,28% são do lar; 16,62% agricultoras e 11,8% estudantes.

Para o Observatório Alagoas Igualdade de Gênero, o enfrentamento à violência contra as mulheres são pode se limitar à punição dos agressores. É preciso investir em políticas públicas que promovam autonomia econômica.

Sobre a sexualidade das vítimas, 17,9% são de mulheres heterossexuais. As mulheres bissexuais e homossexuais não chegam a 1%.

Quase sessenta e um por cento das vítimas são pardas; 17,8% brancas; 14,8% não informou; 6,1% pretas; 0,3% amarelas e 0,1% indígenas.

Noventa e três por cento dos agressores são ex-companheiros; 49% companheiros, 38% ex-cônjuge; 35% cônjuges; 10% cunhada; 9% ex-namorado; 8% mãe/pai; 4% sobrinho; 3% filho/irmão; 2% genro/nora/outros; 1% enteado/namorado/sogro/neto.

Em todo o Brasil, foram 555.001 medidas protetivas de urgência, das quais 2.542 nos primeiros seis meses em Alagoas.

Agressores

são jovens

A violência contra a mulher em Alagoas tem um perfil bem definido, segundo o Observatório Alagoas Igualdade de Gênero. De uma forma em geral, o agressor tem menos de 60 anos, sendo que a maioria tem entre 20 e 44 anos.

Dentre as profissões declaradas pelos agressores, 6% são motoristas; 3,2% agricultores; 3% autônomos; 2,6% serventes de obras e 1,6% pedreiros. Os desempregados representaram uma parcela de 4,9%.

Violência deve ser denunciada pela mulher, parceiros não podem continuarViolência deve ser denunciada pela mulher, parceiros não podem continuar impunes diante da agressão impunes diante da agressão (Foto: Reprodução)

O Observatório Alagoas Igualdade de Gênero destacou que “nota-se uma predominância de atividades manuais e ligadas ao setor informal, caracterizada por baixa exigência de escolaridade formal e, frequentemente, associadas a rendimentos reduzidos e vínculos laborais instáveis”.

Cinquenta e dois por cento dos agressores são pretos. Um percentual de 26,8 não informou a raça. Os brancos são 14,5% dos agressores, os pardos 6,3% e os amarelos 0,3%.

Maceió tem o maior número de casos

Os municípios onde mais se concentram a violência contra as mulheres são Maceió (dois mil registros), Arapiraca (646), Rio Largo (181), União dos Palmares (178) e Penedo (165). Estes dados sobre os municípios são de 2024.

Conforme o Observatório Alagoas Igualdade de Gênero, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas que levem em consideração essa escalada de violência contra a mulher e atuem, de forma articulada, entre os diferentes níveis governamentais com foco na prevenção e assistência ampla.

O Observatório Alagoas Igualdade de Gênero é coordenado pela assistente social e professora associada da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Andréa Pacheco de Mesquita. Ela lidera o Grupo de Pesquisa Frida Kahlo: estudos de gênero, feminismos e serviço social – CNPq/Ufal. Pela delegada da Polícia Civil de Alagoas e doutoranda da Ufal Ana Luiza Nogueira de Araújo e pela coordenadora da Casa da Mulher Alagoana, Paula Simony Lopes Ferreira.

Dia Internacional

Os dados extraídos da violência de gênero estão estarrecendo a sociedade e aumentando as estatísticas de forma assustadora. Para chamar a atenção para o problema, a semana foi marcada por manifestações em alusão ao Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, celebrado no último dia 25.

De janeiro a setembro deste ano, a Casa da Mulher Alagoana realizou 1.649 atendimentos de forma presencial e remota. Deste total, 129 mulheres precisaram de alojamento, das quais 76 estavam acompanhadas dos filhos. Em 2024, foram atendidas mais de 1.511 mulheres e 47 abrigamentos.

As mulheres que procuram atendimento na Casa da Mulher Alagoana relatam casos de violência psicológica, ameaça e violência física.

O local recebe mulheres de todo o estado, inclusive turistas ou pessoas que estão passando pela cidade e sofrem violência ou ameaça.

Acolhimento

Temporário

A Casa da Mulher Alagoana funciona desde 2021. É um espaço humanizado que conta com atendimento psicossocial, Delegacia Especializada para boletim de ocorrência e pedido de medida protetiva, Juizados Especializados, Defensoria Pública para prestação jurídica, brinquedoteca, prioridade nos programas sociais da prefeitura, como aluguel social e casa própria.

“Além disso, a Casa também serve como abrigo temporário para aquelas que estejam em situação de risco ou que não tenham para onde ir com seus filhos”, destacou a coordenadora da Casa da Mulher Alagoana, Paula Lopes. Ela garantiu que o local é o mais completo de atendimento para mulheres vítimas de violência no estado.

Na avaliação da coordenadora da Casa da Mulher Alagoana, Paula Lopes, o enfrentamento a esse problema não é responsabilidade apenas das vítimas e, sim, um compromisso coletivo.

Uma das lideranças do Grupo Mulheres do Brasil – núcleo Maceió, Manuela Melo, afirmou que, no ano passado, mais de um milhão de mulheres pediu ajuda por causa da violência doméstica.

“São duas chamadas por minuto. A maioria dessas chamadas acontece dentro do próprio lar. Esses dados reforçam a urgência de ampliar o debate e fortalecer a rede de proteção às mulheres”, destacou Manuela Melo.

A Casa da Mulher Alagoana conta com os telefones (82) 2126-9650 e (82) 99157-3023 e fica localizada ao lado da Praça Sinimbu, no Centro de Maceió. O espaço funciona 24 horas todos os dias da semana para os serviços de abrigamento, e para os atendimentos, de segunda a sexta, das 7h30 às 18h.

Além da Casa da Mulher, Maceió possui duas delegacias para casos de violência contra a mulher, uma que funciona 24 horas no Complexo de Delegacias, em Mangabeiras e outra no Salvador Lyra, na parte alta de Maceió.