Cidades
Tilápias invadem mar e ameaçam outros peixes
Considerada espécie exótica, ela vem povoando rios e escapando para áreas de oceano, onde tem se reproduzido com rapidez

Tilápias se adaptaram ao mar e estão invadindo a costa brasileira, já tendo sido identificados cardumes do Maranhão ao Rio de Janeiro. O caso consta de artigo científico divulgado na publicação Aquatic Ecology, em outubro de 2023.
Pesquisadores alagoanos não constataram ainda a presença do peixe no litoral alagoano, mas admitem que estejam presentes e mostram preocupação de que ameacem espécies nativas.
Originária do Rio Nilo, na África, e introduzida no país na década de 1970 espécie pertence à família dos ciclídeos, um dos últimos grupos marinhos que migraram para a água doce. Seus ancestrais viviam no mar e por isso, ela pode ter mais facilidade em se readaptar à água salgada.
A espécie está invadindo o mar, se espalhando pela costa brasileira e, conforme pesquisadores, pode comprometer a preservação do ecossistema marinho. A preocupação é que as tilápias passem a competir por alimentos com os peixes nativos.
Em Alagoas, pesquisadores admitem que essa situação possa já estar ocorrendo, conforme adiantou a ecóloga que tem liderado pesquisas nesse campo, Ana Clara Sampaio Franco. Ela é doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora da Universitat de Girona, na Espanha.
A reportagem da Tribuna entrou em contato com a pesquisadora. Segundo ela, o estudo não teve nenhum coautor sediado em Alagoas.

O objetivo do estudo é, segundo o estudo, alertar sobre o fenômeno para que os órgãos de monitoramento e fiscalização identifiquem o que desencadeou a invasão de tilápias no mar. Dessa forma, ações preventivas podem ser realizadas, a fim de reduzir os impactos ambientais.
Na avaliação de Ana Clara Sampaio Franco, o fato de as tilápias estarem chegando na costa significa, basicamente, que tem sistemas de aquicultura em rios conectados com esses sistemas marinhos.
“Provavelmente, as tilápias são carregadas pela chuva. A espécie tolera bem a salinidade desses sistemas, e, inclusive, em baias, se estabelecem por bastante tempo”, teorizou. Segundo a pesquisadora, é difícil ainda prever os impactos sobre a pesca da região.
A tarefa de identificar o que motivou o fenômeno está ligada à falta de informações sobre as atividades aquícolas no Brasil.
Em outras localidades do Brasil, já houve registros desse fenômeno. A falta de controle nas aquiculturas é apontada como um agravante.
Mas enfim, como as tilápias foram parar no mar? Uma das hipóteses para responder pode estar numa das principais características da espécie: seu crescimento rápido, o que a torna um dos peixes mais cultivados no país.
Outro invasor que também preocupa os pesquisadores é o peixe-leão. Originário do Indo-Pacífico, está presente em grande parte da costa brasileira, já tendo sido encontrado no litoral alagoano. É uma espécie venenosa e dotada de grande capacidade para se adaptar a diferentes ambientes e compete com espécies nativas por alimento e habitat.
Ele é considerado uma ameaça aos ecossistemas marinhos porque, além de apresentar alta capacidade de adaptação, não possui predadores naturais e se reproduz rapidamente.
Faltam informações sobre a criação no Brasil
O mistério, neste caso, está ligado à falta de informações sobre a criação de peixes. “Chegamos à conclusão que não existe no Brasil uma base boa, unificada e atualizada de dados sobre as estruturas de aquicultura, as espécies que são cultivadas e onde são cultivadas em pequena e média escala. A ausência desse levantamento não nos permite traçar com exatidão as possibilidades de ocorrência da tilápia”, avaliou a ecóloga.
Mas de que forma um peixe de água doce resiste à água salgada? A explicação está na evolução da espécie. As tilápias pertencem à família dos ciclídeos, a mesma do famoso Tucunaré da Amazônia, um dos últimos grupos marinhos que migraram para água doce.
“Os ancestrais da tilápia vieram do mar, por isso, a espécie tem capacidade de tolerar algum grau de salinidade”, argumentou o coordenador da pesquisa, Jean Vitule, do Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná.
Há possibilidade das tilápias usarem os rios de água salobra como um corredor ecológico entre o mar e os ambientes de água doce, já que a salinidade da água não seria uma barreira, deixando um rastro de impactos ambientais.
“A tilápia é uma invasora que pode transferir patógenos e elevar as taxas de eutrofização – surgimento excessivo de organismos como algas e cianobactérias, causando a intoxicação de outros animais marinhos. Além disso, com a infestação de organismos tóxicos, a água do mar pode se tornar imprópria para banho”, explicou biólogo.
As tilápias também competem com espécies nativas por recursos, por alimentos e espaço. A tilápia é um bicho territorialista. Ela pode predar vários organismos, desde peixinhos até camarões, crustáceos e corais. Em último estágio, ela pode causar até a extinção de algumas espécies”, alertou Jean Vitule.
Outra preocupação apontada pelo estudo é a criação de tilápias em água salobra em alguns lugares do mundo. “A gente pode ter uma seleção de linhagem, uma seleção artificial feita pelo homem criando tilápias cada vez mais adaptadas a esses ambientes salinos. O que coloca em risco, além dos ambientes de água doce, os ecossistemas marinhos”, comentou.
ECÓLOGA
Falha no manejo facilita escape da espécie exótica
Conforme a ecóloga Ana Clara Sampaio Franco, as estruturas de criação não são imunes a falhas, por isso acontecem escapes. Há também descartes de aquicultores equivocados, que soltam essa espécie exótica invasora nos rios.
“O Brasil, apesar de deter uma das maiores biodiversidades do mundo, compra pacotes tecnológicos para aquicultura de espécies que não são daqui. Em vez de explorar nosso potencial”, explicou ela.
O peixe, o mais consumido no país, é ingrediente garantido em restaurantes de qualquer região. Dificilmente, unidades gastronômicas não oferecem no cardápio filé de tilápia. Ao indagar o garçom algum detalhe sobre o sabor, a resposta sempre será “é um saboroso peixe de água doce”. Ou pelo menos era, já que as tilápias estão buscando seu lugar ao sol, em água salgada.
A invasão de tilápias em água doce no Brasil já é conhecida na ciência. O aparecimento de centenas delas na costa marítima brasileira tem provocado preocupação entre especialistas em biologia marinha.
“Surgiram vídeos na internet feitos na região de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, que mostravam a presença de cardumes de tilápias no mar. Essa é uma região de água muito fria e salina, que sofre a influência de uma corrente oceânica que é profunda e que aflora na costa”, explicou a ecóloga.
Os primeiros vídeos registrados no litoral fluminense foram somente a ponta dessa investigação que durou mais de ano. “Nós temos registros que vão desde o Maranhão, até Santa Catarina. Passando por Espírito Santo, São Paulo e pelo Rio de Janeiro. Detectamos que esses casos não eram isolados, o que consideramos preocupante”, afirmou Ana Clara Sampaio Franco.
Por isso, os pesquisadores fizeram um amplo cruzamento de informações para saber se as espécies chegaram ao ambiente marinho pelos rios que desaguam no mar.
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