Cidades
“Incêndio é mais um atentado a quem vai contra Braskem”
Professor e ecologista José Geraldo Marques também teve arquivos destruídos em sua casa no Pinheiro
Para o professor e ecologista José Geraldo Marques, que também prestou depoimento à CPI da Braskem no Senado, o incêndio criminoso na casa do procurador Cássio Araújo é mais um atentado contra aqueles que se insurgem a mineração predatória praticada pela petroquímica em Maceió.
“Pode ser a velha tática de Nero e de Hitler: manda tocar fogo e depois inventa um culpado na parte opositora! Aguardemos!”, escreveu ele, quando questionado sobre quem estaria por trás do sinistro registado no bairro do Pinheiro, na madrugada da última terça-feira.
Ele lembrou que também foi vítima da truculência patrocinada pela mineradora, quando da desocupação forçada de seu imóvel, localizado no bairro do Pinheiro, na área afetada pelo afundamento do solo. “A minha biblioteca que continha todos os meus arquivos da Salgema foi depredada a marretadas na calada da noite e os documentos principais surrupiados!”, relatou Marques.
Essa denúncia ele fez à CPI da Braskem, quadro prestou depoimento no Senado, como um estudioso no assunto, já que foi o primeiro a se insurgir, nos anos 70, contra a implantação da Salgema (nome original da Braskem), na restinga do Pontal da Barra, em Maceió.
Segundo Marques, os senadores ficaram estarrecidos com o seu relato e depois da sessão se solidarizaram com ele. Questionado se sabia quantificar quantos livros perdeu na interdição da sua casa, ele disse que não teve coragem de voltar ao local. “Meu filho salvou o pouco que pôde. Mas não era só a quantidade de livros, mas também a raridade de vários deles”, completou.
Notas de Repúdio
Pelo menos duas entidades, que defendem as vítimas da Braskem e lutam contra a mineração predatória de sal-gema, divulgaram nota repudiando o incêndio criminoso que destruiu o primeiro andar da casa do procurador do Trabalho, Cássio Araújo, na madrugada da última terça-feira (8/10), no bairro do Pinheiro, em Maceió.
As manifestações de repúdio foram divulgadas ontem nas redes sociais, pelo Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (que é coordenado por Araújo) e o Movimento pela Soberania Popular na Mineração em Alagoas (MAM/AL), que conta com a liderança da bióloga Neirevane Nunes.
Segundo as duas entidades, o incêndio à casa de Cássio Araújo é mais um atentado em desfavor de quem luta por justiça no Caso Braskem em Maceió. Os representantes das vítimas da mineração dizem que já são vários os casos de violência, perseguição e intimidação contra quem denuncia os crimes da Braskem em Alagoas.
Na opinião do empresário Alexandre Sampaio, presidente da Associação dos Empreendedores Vítimas da Mineração em Maceió, não é de hoje que a petroquímica vem hostilizando as lideranças que se insurgem contra ela. Por isso, para ele, “100% da responsabilidade do incêndio que ocorreu na casa do Cássio Araújo é da Braskem”.

Alexandre Sampaio relata sequência de violências às vítimas da mineradora
Para Alexandre Sampaio, “é uma violência repetida: primeiro a Mineração sem o conhecimento dos moradores e comerciantes, que fizeram planos de vida, investiram nos seus negócios sem saber que um dia tudo poderia ruir. Depois a violência da expulsão sem direitos garantidos. Depois a violência da demora e da injustiça do penoso e desigual processo de negociação contra uma empresa gigante. Quem ousa discordar desse conluio criminoso entre a Braskem e as autoridades, começa a sofrer atos de violência individualizados”, acrescento.
Sampaio observou ainda que como o procurador do Trabalho, Cássio Araújo, não aceitou o acordo, então primeiro o impedem de entrar na casa, depois ameaçam derrubar e, como ele resistiu, permitem o vandalismo e o incêndio. “Para os que protestam, a violência, o assédio processual, como ocorre comigo e com diversas vítimas”, enfatizou.
“Para os que lideram, as ameaças de morte, ou a violência do assassinato de reputação como o que eu sofri ao chegar em Brasília para depor na CPI, sob ataque da minha imagem nas redes sociais. Tudo sob o silêncio igualmente criminoso das autoridades. A lei e a justiça não fazem parte do vocabulário da Braskem ou de quem a protege às escondidas”, relatou Sampaio, que foi ouvido na CPI da Braskem, em maio deste ano, no Senado.
Sobre a nota da Braskem no caso do incêndio, Sampaio disse que “é uma nota cínica”, atribuindo, indiretamente, a culpa à vítima, já que não usou os serviços do programa de apoio à realocação. “Só não fala que quando a pessoa sai, perde o poder de barganha, pois a Braskem faz o que quiser com o imóvel. Por isso critico tanto os acordos feitos com o aval das autoridades”, acrescentou.
MUVB: INCÊNDIO FOI ATENTADO
O Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (MUVB) divulgou na terça-feira (8) nota de repúdio contra o incêndio à casa do procurador do Trabalho, Cássio Araújo.
“Decidimos expressar nossa mais profunda indignação e total solidariedade ao coordenador-geral do MUVB, Cássio Araújo, vítima desse incêndio criminoso, ocorrido na madrugada dessa terça-feira, em sua residência, no bairro do Pinheiro”, afirmou o servidor público Maurício Sarmento, integrante do Movimento.
Segundo ele, as vítimas da Braskem em Maceió apelam às autoridades policiais que tomem as providências para encontrar os criminosos que atearam fogo na casa do coordenador-geral do MUVB. Sarmento espera também que os órgãos de fiscalização e controle também se manifestem sobre a política de “silenciamento” imposto pela mineradora, em Alagoas. “Exigimos uma investigação rigorosa e imparcial por parte das autoridades competentes para identificar os responsáveis por este atentado”, disse ele, em nota.

Movimento divulga que houve destruição de uma coleção de 200 mil livros
O Movimento pela Soberania Popular na Mineração em Alagoas (MAM/AL) também divulgou nota de repúdio ao incêndio que destruiu a casa do procurador do Trabalho, Cássio Araújo, coordenador-geral do MUVB. De acordo com a bióloga Neirevane Nunes, que lidera o MAM em Alagoas, “além de criminoso, esse sinistro é uma tentativa de apagamento da nossa memória e silenciamento das vítimas das Braskem em Maceió”.
O movimento ressalta que Cássio Araújo vem desempenhando papel essencial na defesa das vítimas do maior crime socioambiental em área urbana no mundo, sendo uma das vítimas resistentes no bairro do Pinheiro, viu sua casa e seu patrimônio serem destruídos por um incêndio de característica criminosa.
Em nota, o MAM afirma que essa é a quinta vez que a residência de Cássio Araújo é invadida desde novembro, quando a Braskem de forma arbitraria e sob força policial, teria invadido o imóvel. O incêndio desta madrugada representa mais uma violência não só a Cássio Araújo e sua família, mas também à luta das mais de 60 mil vítimas dos cinco bairros afetadas pela mineração da Braskem. Além do prejuízo material estimado em R$ 6 milhões, o incêndio destruiu parte de uma vasta e inestimável coleção de cerca de 200 mil livros, afetando profundamente o patrimônio cultural da vítima e da sociedade. Esse ato de violência fere, acima de tudo, os princípios democráticos de justiça e o direito de defesa das vítimas, tentando intimidar e calar a voz de quem luta por reparação e dignidade.
“Reiteramos que não toleraremos qualquer forma de violação, intimidação, ameaça ou violência contra aqueles que dedicam suas vidas à defesa dos direitos dos atingidos pelos crimes da mineração no Brasil. Exigimos que as autoridades competentes realizem uma investigação rigorosa e imparcial sobre o ocorrido, punindo os responsáveis por mais este ataque covarde”. E prossegue o comunicado: “Neste momento, nossa solidariedade está com Cássio Araújo e com todas as vítimas da Braskem, reforçando nosso compromisso em lutar ao lado daqueles que buscam justiça pelo crime socioambiental da Braskem em Maceió. Não nos calaremos diante de tentativas de silenciamento. A justiça e a verdade devem prevalecer”.
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