Cidades

2 de dezembro de 2021 09:42

‘Ato de Luto e Luta’ terá participação de movimentos religiosos, sociais e artísticos

Convocado por lideranças religiosas de diversas ordens, o protesto acontece na próxima sexta-feira (3) a partir das 6h30 e promete se estender até a noite

↑ Foto: Divulgação

Na próxima sexta-feira (3), em frente às portas do pólo cloroquímico da Braskem no Pontal da Barra, haverá o “Ato de Luto e Luta”, organizado por lideranças religiosas dos cinco bairros de Maceió destruídos pelo maior crime socioambiental em curso no mundo. O chamado protesto inter-religioso, com concentração às 6h30 na Igreja Batista do Trapiche, sairá em cortejo até a indústria de cloro-soda, chamando atenção para a catástrofe que acomete mais de 70 mil pessoas na capital alagoana e defendendo um programa de reivindicações para as vítimas da mineradora. Além das dez lideranças religiosas organizadoras, a mobilização, que deve durar cerca de 12 horas, tem aderência de oito entidades políticas e contará com mais de quinze apresentações culturais.

A iniciativa da comunidade religiosa

Um dos organizadores do ato, Wellington Santos, que é pastor há quase 30 anos na Igreja Batista do Pinheiro, destaca a amplitude do movimento. “O aspecto mais relevante dessa mobilização é concentrar a indignação de tantos e tão importantes representantes da sociedade civil num só grito: fora, Braskem! Independentemente do estágio em que as pessoas estejam no processo indenizatório.” Segundo ele, o levante das comunidades religiosas não poderia deixar de acontecer. “Como lidamos com um capital simbólico poderoso, que é a fé, jamais aceitaremos a injustiça, a morte e a trama dos poderosos contra o povo”, afirma.

São muitas e variadas as lideranças religiosas envolvidas na convocação do ato de 3 de dezembro. Desde organizações católicas, como a Cáritas da Arquidiocese de Maceió e a Paróquia Santo Antônio de Pádua, de Bebedouro, a grupos de religiões de matriz africana dos bairros afetados, mas também do Benedito Bentes e até do litoral norte da capital. O babalorixá Célio Rodrigues, outro organizador do protesto, declara que o crime da Braskem fez com que as pessoas perdessem, além de tudo, seus espaços religiosos. “Esse também é um crime contra a fé”, explica, “e precisamos deixar o poder público e toda a sociedade em estado de alerta”.

A aderência de organizações de vítimas

A Associação dos Empreendedores no Pinheiro e Região Afetada e o Movimento Unificado das Vítimas da Braskem (o MUVB), que demonstraram uma atuação ferrenha ao longo do ano, aderiram imediatamente ao ato inter-religioso. “Os cidadãos de Maceió finalmente se deram conta que o crime da Braskem violenta não só os moradores, trabalhadores e empreendedores dos cinco bairros afetados pela mineração”, comemora Alexandre Sampaio, presidente da Associação dos Empreendedores. “Por isso”, declara, “estamos unidos para dizer basta à injustiça por parte da mineradora, assim como à omissão e à conivência das autoridades”.

Junto à Associação dos Empreendedores, o MUVB elaborou o programa de reivindicações do protesto, aprovado por toda a comissão organizadora. Para Neirevane Nunes, uma das coordenadoras do movimento, as deliberações feitas são uma forma de mitigar as injustiças presentes na relação desigual entre as vítimas e a mineradora. “Precisamos denunciar e lutar contra o massacre da Braskem. Ela deve pagar pelos seus crimes e reparar de forma integral e justa todos os danos causados à população.” Nas palavras de Nunes, Maceió vivencia “o maior luto coletivo já visto”. “Temos aqui um genocídio social, cultural e ambiental”, alerta.

O programa de reivindicações do ato

  • A Braskem deve apresentar laudo de avaliação de imóveis, de acordo com as normas técnicas, para justificar suas propostas de valores sobre os imóveis;

  • Os danos morais devem ser calculados por indivíduo e não por imóvel;

  • Devem ser estabelecidos critérios objetivos, declarados às vítimas, quanto aos demais aspectos das indenizações devidas, como dano moral, lucros cessantes, fundo de comércio e outros, sendo esses critérios discutidos com os representantes das vítimas e firmados perante as instituições;

  • Devem ser instituídos comitês/comissões de conciliação, com a participação paritária dos moradores (ou empreendedores), da Braskem e de um membro do poder público, para facilitar a busca do entendimento e do acordo justo;

  • Devem ser imediatamente realocados os moradores e empreendedores das áreas mutiladas que não têm mais condições dignas de permanência, em Flexal de Baixo, Flexal de Cima, Quebradas, Rua Marquês de Abrantes e Vila Saem (especialmente os da Rua Santa Luzia);

  • Devem ser imediatamente indenizadas as vítimas das áreas do entorno das regiões de risco geológico direto e da zona de risco socioeconômico, devido à desvalorização de seus imóveis ou à inviabilização de seus negócios.

A aderência de movimentos populares

Com cerca de 140 entidades filiadas em todo o estado de Alagoas, a Central Única dos Trabalhadores (a CUT) também decidiu mobilizar sua base. “Não poderíamos estar de fora, pois temos milhares de famílias desabrigadas e sem emprego por conta do crime da Braskem”, justifica a presidente da CUT em Alagoas, Rilda Alves. Na opinião dela, o caso apenas será solucionado caso haja pressão popular. “Só nesse formato unificado, principalmente com os movimentos sociais, esse crime horrível pode chegar a ter uma punição”, ressalta. No protesto, ainda se farão presentes o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a Central Única das Favelas (Cufa).

Um destaque também deve ser feito às presenças do Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (o Sinteal) e do Sindicato dos Ferroviários de Alagoas (o Sinfeal), diretamente atingidos pelo crime. “Passamos por um sofrimento muito grande quando fomos expulsos de nossa sede histórica”, relembra Maria Consuelo Correia, presidente do Sinteal. “Os acordos firmados pelos poderes públicos não atendem às necessidades das vítimas. Por isso, já vemos tantas pessoas voltando a morar nos bairros destruídos”, menciona. Para o vice-presidente do Sinfeal, Marcos Feijó, o momento é de demonstrar revolta. “Em nosso transporte ferroviário, circulavam 19 mil pessoas por dia. Hoje, são apenas três mil. Vamos mostrar nossa revolta contra a forma decadente com que esse caso tem sido conduzido!”.

A aderência da classe artística

No “Ato de Luto e Luta”, se apresentarão os grupos culturais Projeto Ruptura, Capoeira Engenho Velho e Batuque Mundaú. Além deles, também comporão a programação os artistas musicais Dinho Zampier, Mel Nascimento, Igbonan Rocha, Chico Elpídio, Irina Costa, Júlio Uçá, Andréa Laís, Elizandra Benjoino, Zara Moraes, Léo Rosa, Rogério Dyaz, Roberta Moraes e Manudí. Compositor do samba “Bairro do Pinheiro”, que gerou verdadeira comoção no último Festival de Música Popular Em Cantos de Alagoas e foi contemplado com o prêmio de menção honrosa, Manudí é outro que entende o Caso Braskem como um problema de todo o estado. “Como artista da terra, fico muito indignado! Estou junto com o povo para dar esse grito e vou usar minha arte para fazer isso”, declara o músico.

 

Fonte: Assessoria

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