Cidades

11 de junho de 2021 09:47

Mais de 70% dos nordestinos perderam alguém para a Covid-19

Pesquisa ouviu entrevistados entre os dias 16 e 20 de abril deste ano por telefone

↑ Jornalista perdeu pai Edvaldo e irmã Iza (foto) num intervalo de 13 dias (Foto: Arquivo Pessoal)

E você conhece alguém próximo, como um parente, amigo ou colega direto de trabalho que tenha falecido por conta da Covid-19? Esta foi a pergunta aos entrevistados realizada por meio de telefones fixos e móveis entre os dias 16 e 20 de abril deste ano pela FBS Pesquisa encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

De acordo com o levantamento, 72% dos nordestinos ouvidos disseram conhecer alguém que faleceu por causa do coronavírus; 51% perderam amigos para a doença; 21% teve um parente falecido, mas que não morava com a pessoa; 14% perderam colega de trabalho; e 2% perderam parentes que moravam na mesma residência.

O jornalista Igor Castro faz parte desse índice da pesquisa. Ele perdeu o pai, Edvaldo Silva, 64, e a irmã, Iza Castro, de 37 anos, moradores de Arapiraca, para a doença num intervalo de 13 dias em junho do ano passado. “Sinto medo de contrair o vírus novamente e morrer em decorrência da doença, já tive em setembro do ano passado. O medo é o de sempre. Tento me cuidar, mas nunca se sabe, principalmente por ser o único homem de duas casas, a da minha com esposa e filho, e da minha mãe com minha irmã. Tenho que ser forte por elas e ele”, destaca.

Ele, que não teve sequelas após ser contaminado, se disse preocupado com a situação de crise sanitária existente no Brasil e classificou como muito grave o grau em que a doença se propagou no país. “É muito lamentável o que está acontecendo no mundo, em especial no Brasil, com gente negando o vírus ou fazendo protesto, aglomerando e colocando pessoas em risco. Enquanto não tivermos um líder que pense em salvar vidas e deixe o campo ideológico de lado, viveremos sempre com medo. A vacinação é e será sempre a esperança. Por isso, viva o SUS!”, destaca Igor Castro.

O jornalista enfatiza que após a morte de seu pai e irmã já viu muitas vidas irem embora por conta do coronavírus.

“Foram várias pessoas, muitos pais de amigos, e alguns colegas de profissão”, frisa. “Sem minha fé, acho que não teria conseguido segurar tudo que passei. Eu recebi ajuda do estado e da prefeitura com atendimentos psicológicos que me ligaram algumas vezes. Não cheguei a procurar terapia. Prendi-me muito a Deus, me agarrei à fé que tenho e a minha família”, menciona.

O relações públicas Aldo César também passou pela mesma situação que Igor, mas com a morte de sua mãe Maria Aparecida de Oliveira Holanda, de 53 anos, no dia 9 de maio do ano passado. “Poucos dias após a morte da minha mãe, a mãe de um amigo de trabalho faleceu, 40 dias após o pai também faleceu. Amigos de trabalho também faleceram, pais de amigos próximos, conhecidos do bairro”, afirmou.

“Impossível não se sentir apavorado em um contexto onde 2, 3, 4 mil pessoas estão morrendo no país. Pessoas próximas, desconhecidas. Os vínculos não são tão relevantes quando pensamos na dor coletiva. Não importa se era amigo, família… a dor é coletiva, ao menos deveria ser”, analisa.

Aldo, que teve Covid-19, diz que ainda sofre com as sequelas respiratórias, cardíacas e neurológicas. Segundo ele, não são situações graves, mas que sabe que mudaram seu corpo e as sente todos os dias.

“A pandemia segue piorando e acho um absurdo a forma como os governantes tratam isso como um jogo. Abre, e solta. Porém, ainda mais absurdo é a negligência da sociedade. Vivemos em um país com mais de 400 mil mortes decorrentes de um vírus letal, e que as pessoas só obedecem (quando obedecem) restrições mediante a decretos. Ou seja, não há uma consciência coletiva, mais de um ano após estarmos vivendo a maior crise sanitária do século”, lamenta.

“No primeiro sinal de flexibilização, as praias estão cheias, shoppings, centros. Então, infelizmente, não sairemos desse cenário tão logo que não haja uma empatia coletiva, uma consciência de que nossas ações impactam e muito em vidas que nunca nos relacionamos diretamente”, acrescenta Aldo.

Relações públicas sepultou genitora no Dia das Mães: “é ironia dolorosa”

A genitora de Aldo faleceu no dia 9 de maio de 2020, véspera do Dia das Mães. Este ano, o aniversário de morte caiu no Dia das Mães. “Da mesma forma que a enterrei no Dia das Mães do ano passado. É uma ironia dolorosa”, desabafa.

Aldo César com sua mãe, na formatura dele, 7 meses antes dela vir a falecer (Foto: Arquivo Pessoal)

Indagado sobre se buscou alguma ajuda psicológica após a perda, Aldo disse que não necessariamente, que já vinha fazendo terapia há um tempo, mas deu continuidade. Ele frisou que o que lhe ajudou e tem ajudado bastante a lidar com todo o peso emocional de um momento como esse é se unir não somente a sua dor, como também a dor dos amigos, de familiares e de vizinhos. “Manter a mente e o coração em dia faz com que a gente também possa ajudar outras pessoas que atravessam esse momento tão duro”, afirma.

Ele contou ainda que no próximo dia 13 de julho se completam 15 anos do falecimento do seu pai e que durante esse tempo pôde aprender muito com a própria fé, relacionamento com Deus e o luto. “É uma montanha-russa de sensações, frustrações, dores, e também de muito amor e boas lembranças”, declarou.

“Me sinto seguro em dizer que não há alívio, e talvez seja melhor assim. É uma clareza do tanto que aconteceu, e da importância dessas duas figuras tão importantes da minha vida, mas que não estão mais comigo em vida. O alívio seria dizer da minha certeza de que eles me acompanharão em espírito até o meu último suspiro”, pontuou.

De acordo com Aldo, o apego em Deus é fundamental, porque acredita que por mais que haja uma imensa dor na ausência, é preciso reconhecer a misericórdia de Deus em privar sua mãe de um sofrimento ainda maior. “Tenho certeza que ela lutou enquanto pôde, e que quando chegou a hora de desencarnar, ela foi pro seu descanso eterno”.

“Nós vemos todos os dias materiais, artigos e especialistas falando sobre os efeitos da Covid-19, então é possível, de forma superficial entender o calvário que muitos enfrentaram e estão enfrentando em tantos leitos de UTI pelo país. Definitivamente minha mãe e todas essas mais de 400 mil vidas não mereciam estar a mercê de um país que amarra pessoas para entubar, por falta de medicação”, completou.

SAÚDE MENTAL

Mais da metade dos brasileiros entrevistados por uma pesquisa Ipsos declararam que sua saúde emocional e mental piorou desde o início da pandemia, em índice superior à média dos 30 países e territórios pesquisados.
Segundo pesquisa do instituto, 53% dos brasileiros declararam que seu bem-estar mental piorou um pouco ou muito no último ano. Em março dE 2020, 41% dos brasileiros relataram ter sintomas como ansiedade, insônia ou depressão já por consequência da pandemia.

Além do luto, famílias ainda têm que lidar com problemas financeiros

A psicóloga Wilzacler Pinheiro exemplifica que há pessoas que perderam o esposo para a Covid-19, ou seja, o provedor da família, e estão sem receber pensão há meses, que agora dependem da ajuda de vizinhos, parentes e amigos.

Wilzacler Rosa e Silva Pinheiro, psicóloga e presidente da Ong Cavida (Foto Arquivo pessoal)

“Isso gera vergonha, tristeza, constrangimento, angústia… Então, além de viver o luto, essas pessoas também têm que passar por todas essas dificuldades e tensões, que são propícias para um maior desenvolvimento de quadro psicopatológico, como a depressão, transtornos de ansiedade, entre outros”, mencionou.

Para ela, na desigualdade social também há uma questão importante a ser frisada tendo em vista que a situação foi agravada posteriormente para esta classe, “porque no início da pandemia quem era afetado estava na classe média ou alta. Mas na medida em que a pandemia foi se instalando no Brasil, principalmente as famílias que estão em maior vulnerabilidade social passaram a ser as mais atingidas e apresentando maior dificuldade financeira”, avaliou a psicóloga.

LUTO ÚNICO

A também psicóloga Vanessa Ferreira reforça que cada luto é único e cada pessoa irá lidar com o seu processo de perda de forma singular. Mas um ponto em comum e uma perda que todos sofremos nesse momento pandêmico foi o próprio apoio social e familiar e a possibilidade de velar aquele familiar que se foi.
“Então, mesmo que de forma distante, esse apoio familiar é importante e necessário. Outro ponto é que a própria pessoa se permita vivenciar esse luto, respeitando seu momento e sendo acolhida em sua dor. A depender do caso, a psicoterapia é indicada”, destaca Vanessa Ferreira.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Ana Paula Omena

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