Cidades

8 de abril de 2021 07:57

Moradores do Pinheiro dizem que indenizações estariam 30% abaixo do previsto

Donos de imóveis no bairro criticam propostas apresentadas pela Braskem; segundo eles, valor vem diminuindo com o tempo

↑ De acordo com os proprietários de imóveis do bairro, valores apresentados nas propostas vêm caindo (Foto: Edilson Omena)

Em mais um capítulo do imbróglio que se arrasta desde 2018, proprietários de imóveis no bairro do Pinheiro, em Maceió, reclamam dos valores apresentados pela Braskem nas propostas de indenizações. Segundo alguns ex-moradores ouvidos pela reportagem da Tribuna Independente, as propostas teriam diferenças de 30% a menos que o esperado.

Ainda de acordo com os proprietários, os valores apresentados nas propostas vêm “caindo”. Imóveis com o mesmo padrão e tamanho, tiveram propostas diferentes em períodos distintos.

Proprietária de um apartamento, Mônica Medeiros afirma que tem havido diferenças nos valores ofertados pelo metro quadrado dos imóveis. Ela disse que não há uma padronização e que também não tem havido explicações por parte da empresa sobre os critérios utilizados.

“Aquela propaganda da Braskem é totalmente enganosa. Ela diz que leva em conta as condições do imóvel, acessibilidade, mas eles não levam em conta nada disso. Meu imóvel está situado numa rua principal, próximo ao Hapvida com várias funcionalidades, 108 m², três quartos, dependência completa de empregada. Mas na primeira proposta eles avaliaram meu apartamento em R$ 230 mil calculando o metro quadrado a R$ 1.900. Eu questionei porque meu apartamento com todas as características, eles vieram pagar um valor inferior ao Jardim Acácia e nas encostas. Não desmerecendo essas áreas. A questão é o quanto pagaram pelo m². Meu apartamento foi o menor valor dos prédios do Pinheiro. Questionei isso e eles disseram que seria o valor. Eu disse que também tinha outro apartamento, no Lagoa Manguaba e que eles pagaram R$ 3 mil o m². E porque esse foi pago R$ 1.900? Eles disseram que cada imóvel é individual. Questionei os critérios e eles disseram que os critérios eram sigilosos. Eu não estou vendendo o apartamento e não tenho o direito de saber?”, reclama.

Ainda segundo a proprietária, uma avaliação particular foi feita e uma nova reunião deve definir os rumos da negociação. “Todos os questionamentos foram feitos, junto com advogada. No Jardim Acácia foi pago R$ 2.700 o m². Pedi uma reanálise. Na segunda reunião disseram que o valor era o mesmo. Não ficamos sabendo os critérios de avaliação. Pediram para eu fazer uma reavaliação por fora, para apresentar e marcar outra reunião. Na avaliação que eu fiz deu muito superior. Eles mentem em dizer que pagam o valor similar do m² aos bairros próximos. Agora estou esperando a terceira reunião para ver o que eles vão me oferecer”, diz.

Mônica desabafa sobre a situação. Ela reclama também sobre os valores de indenizações pagos às famílias.

“A nossa situação é esta, é constrangedor, é muito difícil. Eu não tenho condições de com esse valor comprar um apartamento similar ao meu. Para mim é um valor vergonhoso. Eles estão nos iludindo. Moro com cinco pessoas adultas e dois idosos. Qual a consideração que tem? Braskem destruiu e continua destruindo nossas vidas. Esta semana houve um suicídio entre os moradores. Nos entristece ver uma situação dessas. Fiz representação no Ministério Público e a resposta que tive foi uma declaração da Braskem que o morador insatisfeito coloque na Justiça. O que a Justiça está fazendo por nós? Nada. Me expulsaram da minha casa, me tiraram à força do lugar que era meu sonho de vida, eu amava morar lá. É um absurdo”, lamenta.

Corretor: valor das propostas tem sido divergente

 

Corretor de imóveis, Pierre Lattiffe afirma que vem realizando avaliações individuais de imóveis no Pinheiro e que os valores das propostas têm sido divergentes. Pierre também é morador do Pinheiro, de uma área que não está classificada como de risco.

“Vemos imóveis que há uns meses atrás recebiam R$ 600 mil de proposta e um outro do mesmo padrão, hoje recebendo R$ 450 mil. Quando vamos avaliar, não é só a questão do imóvel em si, temos que avaliar móveis planejados, por exemplo, são várias coisas que entram na questão. Se um proprietário aceita esse valor, como fará para conseguir outro, nas mesmas condições, com o mesmo conforto? Porque muitas coisas não podem ser reaproveitadas. Isso sem contar a pressão na demanda por imóveis que tem impulsionado os preços, ou seja, as pessoas saem de suas casas sem querer e não conseguem morar em outra casa do mesmo nível. Vejo gente que saiu do Pinheiro para morar na Barra Nova, imagine a mudança drástica de vida, de deslocamento”, pontua.

Amanda Ferreira morava em um imóvel de alto padrão no bairro do Pinheiro, ela conta que antes do ocorrido, chegou a receber proposta de compra do imóvel por R$ 740 mil. Embora não revele valores, Amanda diz que o valor apresentado na proposta foi bem abaixo do esperado. Além disso, ela reclama da exigência de documentos que a empresa teria feito.

“Nossa casa fica localizada na Avenida Francisco de Amorim Leão, uma rua principal, bem movimentada, onde só tem casas de alto padrão, próximo a bancos, shopping, escola, posto de combustível, hospital, padaria, farmácia, entre outros.  Nosso terreno tem quase 400 m² e quase 300 m² de área construída e desde o início do processo foi dito que minha mãe faleceu e só no dia da reunião de proposta eles pediram o inventário e alegaram que não poderia receber nenhum valor sem antes apresentá-lo. Fiquei confusa, pois há todo momento eles sabiam do óbito e só vieram cobrar no dia da proposta. Para  mim fizeram isso só para ganhar mais tempo se eu aceitasse a proposta indecente deles”, avalia.

Morando há 58 anos no Pinheiro, Fernando Jorge aguarda ainda pela primeira proposta. Ele afirma que tem acompanhado o recebimento de propostas por familiares e amigos com decepção. A expectativa segundo ele é de que caso a proposta não seja satisfatória, ele busque na Justiça o valor esperado.

“Estou disposto a recusar se for abaixo do esperado. E também estou disposto a voltar. Já estou me programando, já falei com pedreiro, carpinteiro, caso não ofereçam um valor digno. Não existe de aceitar uma proposta indecente. Moro apenas há 58 anos no Pinheiro, meu pai foi um dos primeiros comerciantes, investi toda a minha vida nesse imóvel. Estou disposto a recusar a depender do valor que eles ofereçam”, diz.

De acordo com a Braskem, índice de aceitação chega a 99%

 

Procurada pela reportagem, a Braskem informou por meio de assessoria de comunicação que vem cumprindo todas as cláusulas dos acordos.

“A empresa vem cumprindo o acordo assinado em janeiro de 2020 e todos os dados vêm sendo apresentados às autoridades. O programa tem mantido o alto índice de aceitação das propostas, que é de 99,8%. Em todos os casos, a empresa avalia os pleitos trazidos pelos moradores e, se comprovada a necessidade de uma nova análise, as propostas são revistas. E os acordos assinados entre a Braskem e os moradores e comerciantes das áreas de desocupação são homologados pela Justiça. A Braskem já pagou quase R$ 713 milhões em indenizações, auxílios financeiros e honorários de advogados”, disse.

No mês passado, o Ministério Público Federal (MPF) instaurou procedimento para apurar os critérios utilizados pela empresa para definir as propostas de indenização, devido à denúncias feitas por proprietários de imóveis das regiões atingidas pelo afundamento. Questionado pela reportagem, o órgão não detalhou quantas reclamações teriam sido protocoladas. Mas afirma que segue acompanhando de perto o caso e tomando providências.

“Desde a celebração do Termo de Acordo, em janeiro de 2020, as instituições signatárias vêm acompanhando a execução do Programa de Compensação Financeira. Por meio da cláusula quinta do Termo de Acordo, a Braskem apresenta mensalmente relatório das ações de desocupação realizadas, bem como a quantidade de famílias atendidas. Além disso, são realizadas reuniões de acompanhamento em um intervalo de tempo menor, às vezes semanais ou quinzenais. À medida que insatisfações são relatadas às instituições providências vão sendo adotadas. Todo o programa é muito grande e executá-lo demanda muito de todas as entidades envolvidas. Assim, acompanhando de perto, as medidas são adotadas tão logo necessárias para que o programa vá se aperfeiçoando”, explica.

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