Cidades

23 de janeiro de 2021 08:03

Síndrome Pós-Covid: sequelas podem levar meses ou nunca sumir

Coronavírus pode desencadear sintomas crônicos que vão desde tosse recorrente até continuidade da perda de olfato e paladar

↑ Célia França enfrentou uma série de complicações após vencer a Covid, que a acompanha desde maio (Foto: Arquivo pessoal)

Após enfrentar a Covid-19, muitas pessoas têm se deparado com a permanência de sintomas típicos da doença, como perda de olfato e paladar, tosse, falta de ar. O consenso médico é de que a doença deixa “rastros” ou sequelas em alguns pacientes. A chamada Síndrome Pós-Covid é mais comum e tem sido observada no dia-a-dia por especialistas.

É o caso da servidora pública Célia França. Hipertensa e diabética, Célia teve a doença em maio do ano passado. Após vencer a Covid-19 ela enfrentou uma série de complicações que até hoje permanecem, incluindo um infarto.

“Eu tive um infarto e estou sem olfato até hoje. Vamos dizer que de 100% só voltou 85% do meu olfato. Também fiquei com muitas dores nos ossos e cansando muito rápido com tudo o que faço. Depois de curada eu fiquei com todos esses sintomas até hoje e olhe que eu adoeci em maio. Quando eu adoeci foi como uma virose só que tive muita febre. A tosse foi muito grande. Pensei que ia morrer de tanto tossir. Comecei a sentir falta de ar e tive diarreia. Perdi o olfato e tive fraqueza física que não conseguia me levantar. Eu tinha muito medo pois sou hipertensa e diabética, mas graças a Deus eu venci sem precisar se internada”, relembra.

Célia diz que foi acompanhada pela unidade de saúde próxima de sua casa e que procurou um médico quando percebeu a permanência dos sintomas. “Ele me disse que é decorrência do coronavírus, que é sequela”, conta.

A infectologista e diretora do Hospital da Mulher, referência em tratamento da Covid-19 no estado, Sarah Dellabianca, explica que o vírus causa uma série de complicações diretas e indiretas nos pacientes, principalmente naqueles que possuem patologias preexistentes.

Dellabianca alerta pacientes com sintomas persistentes a procurar ajuda (Foto: Marcel Vital / Agência Alagoas)

“Existem os sintomas relacionados ao que o vírus faz, e também ao que vírus faz indiretamente com doenças existentes. Se é portador de doença renal que não fazia acompanhamento de hemodiálise, pode precisar de diálise, porque o vírus pode complicar a doença renal. Tem uma série de coisas que podem acontecer com sequelas crônicas e até permanentes diretas ou indiretamente relacionadas ao vírus da Covid-19”, enfatiza.

Mesmo sem histórico de problemas de saúde, Jadson Araújo tem precisado lidar há mais de seis meses com a perda do paladar. Ele adoeceu em junho do ano passado e após se curar percebeu que o paladar foi retornando aos poucos, mas com mudanças.

“Eu e minha esposa fomos infectados em junho de 2020. O primeiro sinal de que estávamos com a Covid foi a perda de olfato e paladar, depois senti muita febre e dor de cabeça. O meu teste deu falso negativo e o da minha esposa positivo. Foram 14 dias de isolamento. Até hoje não sinto direito o cheiro das coisas. Fiquei sentindo cheiro de fumaça. Tem uma colega que ficou sentido cheiro de água sanitária. Fomos ao médico, fizemos testes, mas não tem nenhuma obstrução, é sequela mesmo. Ele falou que como não tem estudo cientifico, os médicos estimam um ano pra voltar ao normal”, conta.

O neurologista Matheus Pires destaca que a síndrome Pós-Covid envolve uma série de sintomas, incluindo problemas cognitivos, o que requer cuidados e acompanhamento médico especializado.

“O que é chamada de Síndrome de Pós-Covid é um quadro caracterizado por fadiga, cansaço, dor muscular, fraqueza muscular, o paciente pode ter alterações cognitivas, lentificação de raciocínio, dificuldade de memória. A gente tem que lembrar que a doença está sendo acompanhada no dia-a-dia. Tem a tendência de pacientes que ficam meses com sintomas. O mais importante é que o paciente pós-Covid tem que ser acompanhando por um especialista, usualmente um infectologista ou pneumologista e se ele tiver sintomas cognitivos ele vai ser acompanhado também pelo neurologista. A própria doença do Covid tem acometimento neurológico já bem conhecido. Alguns pacientes têm complicações neurológicas que precisam ser acompanhadas ou sintomas neurológicos mais brandos que vão acabar sendo acompanhados pelo especialista”, destaca Pires.

“Ter sintomas não significa que vírus está dentro de você”

Sarah ressalta que apesar dos sintomas estarem relacionados à doença, não significa que o vírus ainda está ativo no corpo. É uma espécie de rastro que permanece e precisa de tratamento. Além da perda de olfato e paladar, outros sintomas comuns são a fadiga e a falta de ar.

“Um outro sintoma mais relacionado a questão do metabolismo é a fadiga, não é um sintoma respiratório, é um cansaço osteomuscular, não é respiratório. Essa fadiga, já têm estudos que mostram a relação com a parte endócrino da gente. É um dos sintomas que parece ser mais resistentes e prolongados. A fadiga pode ser crônica, levar semanas. Por isso a reabilitação é tão importante, porque diferente do que muitas pessoas pensam que a Covid precisa de um repouso absoluto pela questão pulmonar, de forma alguma a orientação é a reabilitação, a necessidade de progredir para fazer esse ajuste da fadiga e da parte respiratória. Não está recomendado ficar totalmente parado, a não ser devido a orientação médica pela gravidade”, destaca.

O vírus pode piorar quadros existentes, mas também pode gerar problemas de saúde nunca vivenciados pelo paciente.

“Na parte respiratória você pode apresentar um tossido crônico, crise de broncoespasmo que é semelhante a crise de asma, mesmo alguém que nunca tenha apresentado a doença asmática, você pode apresentar falta de ar crônica em decorrência desse broncoespasmo. E isso precisa de um exame físico para saber se é preciso usar bombinha para inalar, corticoides pra ver se vai melhorar. Por isso o exame físico é insubstituível, é o grande tratamento, examinar o doente para direcionar o tratamento específico. Outros problemas podem ser um tromboembolismo, AVC, infarto, descompensação de uma doença de base, um paciente que é diabético aí descompensa, a infecção piora a glicemia e aí vai precisar de ajustes nas doses de medicamentos. Pode descontrolar a pressão”, reforça.

Em geral, o paciente pode levar de 4 a 8 semanas para se recuperar da fadiga, aponta a especialista, mas há casos onde os sintomas se tornam crônicos e se associados a outras doenças podem se tornar permanentes. No entanto, não há estudos ou evidências científicas que indiquem que o vírus sozinho consegue gerar sequelas permanentes.

A recomendação segundo a especialista é para que nos casos onde há permanência de alguns dos sintomas da doença o paciente procure atendimento médico.

“Passei um mês só comendo arroz porque tudo cheirava mal”

Roseane Xavier enfrentou restrições alimentares logo após se curar do coronavírus. A perda de paladar foi intensa e ao se recuperar o sentido foi voltando de forma desconexa. Oito meses depois de adoecer ela conta que ainda sente um “cheio ruim” que segundo ela não tem explicação.

“No início não conseguia comer nada, só arroz. Tudo fedia a madeira podre. Depois foi amenizando um pouco, foi a vez do ovo. Passei três meses sem comer. Até para escovar os dentes era um sacrifício, mas essa parte ainda bem que já passou. Hoje ainda sinto o cheiro ruim que vem de dentro, não sei bem explicar. Têm dias que está bom, outros ruim. Essa doença é terrível, do nada vem aquele cheiro forte de dentro da pessoa inexplicável”, diz.

As mudanças no olfato e paladar segundo a infectologista são alguns dos sintomas crônicos mais comuns. Ao contrário do que muitos imaginam, o problema está relacionado a sequelas que o vírus deixa no sistema nervoso.

“Os sintomas crônicos decorrentes da Covid eles podem ser estratificados pelos aparelhos. Por exemplo, a parte relacionada a perda de olfato e paladar podem ser sequelas. Apesar de não ser uma sequela motora ou física… Muitas pessoas pensam que são sintomas respiratórios, mas são sintomas do Sistema Nervoso Central, relacionados aos nervos do olfato e paladar. Então esses sintomas neurológicos são de permanência variável, de intensidade variável. E o retorno do paladar, além de ser variável, ele pode, à medida que retorne, ser disfuncional. Ou seja, ter necessidade de ajuste. É quando o paciente que volta a sentir gosto, mas não com totalidade, que volta, mas não consegue estabelecer. Nem sempre o retorno se dá com totalidade”, explica Sarah Dellabianca.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Evellyn Pimentel

Comentários

MAIS NO TH