Cidades

20 de novembro de 2020 11:55

Dia da Consciência Negra: público na Serra da Barriga será definido por ordem de chegada

Comemoração atípica com limitação de público no Quilombo dos Palmares obedece aos protocolos sanitários da pandemia

↑ Memorial Quilombo dos Palmares, que estava fechado desde o início da pandemia, será reaberto para festejo (Foto: Kaio Fragoso / Agência Alagoas)

A Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas (Secult/AL) por meio da assessoria de comunicação informou que não haverá programação nesta sexta-feira (20), quando se comemora o Dia da Consciência Negra, mas em alusão a data, haverá hoje a reabertura do Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga em União dos Palmares, Zona da Mata de Alagoas, que estava fechado desde o início da pandemia.

A ordem de chegada deve ser respeitada na Serra da Barriga cumprindo os protocolos sanitários determinados pelo Governo do Estado, como o uso de mascara, álcool em gel, medição de temperatura, distanciamento social, entre outros citados na norma.

“O parque é considerado um museu e dentro do decreto os museus ainda não estão abertos. Mas para fazer as comemorações do 20 vai reabrir a partir de então com as limitações de visitação das 7h às 17h com no máximo 300 pessoas por dia respeitando a ordem de chegada. Se ultrapassar, não sobe mais”, informou a Secult.

“O Governo de Alagoas – através da Secretaria de Estado da Cultura -, a Fundação Palmares e a Prefeitura Municipal de União dos Palmares informam que, tendo em vista o decreto No 71.467, de 29 de setembro de 2020, e em virtude da pandemia da Covid-19, as comemorações do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, serão realizadas de forma simbólica”, reforçou outra nota.

A Semana da Consciência Negra em Alagoas foi celebrada com uma ‘chuva’ de programação virtual por conta da pandemia do coronavírus. A jornalista Valdice Gomes – representante do Centro de Cultura e Estudos Étnicos Anajô explicou que este ano as comemorações vieram de forma diferente, mas não deixaram de acontecer.

Para ela, o dia 20 de novembro não pode ser esquecido principalmente em tempos de pandemia, onde se tornou mais evidente a descriminação do negro, escancarando a desigualdade e a vulnerabilidade da população negra. “Somos a maioria dos infectados e dos óbitos da pandemia; o racismo está sendo evidenciado cada vez mais, as redes sociais têm uma contribuição importante no sentido de divulgar o que está ocorrendo. Então é evidente que o movimento negro nacional e local não vão deixar que isso aconteça”, destacou.

“A data lembra o nosso maior herói, Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, um ícone pela luta da liberdade do povo negro. Esse é um dia de reflexão, um dia para pensar na cultura e na realidade da população negra e construir caminhos para uma sociedade mais justa, menos preconceituosa”, salientou Valdice Gomes.

Ela reforçou que o movimento negro realiza desde o início deste mês uma vasta programação online para celebrar a data. Na quinta (19) mesmo, o Núcleo de Estudos Afrobrasileiros (Neab) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) realizou um seminário pelos seus 40 anos de criação.

Nesta sexta-feira, segundo Valdice Gomes, acontece um grande evento nacional que é a marcha virtual, promovida pelo Coletivo de Intelectuais Negros com o apoio do Movimento Negro e Anajô. Ela ressaltou que será o dia inteiro de atividades a Palmares.

Valdice reforçou que aqueles que estão acontecendo de forma presencial, naturalmente há todo um cuidado em seguir os protocolos sanitários e os decretos governamentais que tratam da questão de isolamento social, para assim evitar a disseminação do vírus.

Anajô: projeto “Vamos Subir a Serra” terá edição especial

O projeto “Vamos Subir a Serra” terá edição especial este ano. O lançamento acontece no dia 24 deste mês. Serão duas etapas, uma em Maceió na Praça Multieventos e a outra em União dos Palmares na Serra da Barriga.

Na Praça Multieventos, a atividade acontecerá às 17h e será restrita a 150 pessoas, obedecendo às normas do decreto estadual Nº 71.467, de 29 de setembro de 2020, bem como os protocolos sanitários.

Durante lançamento, os responsáveis pelo projeto irão informar a data da edição especial, a programação prevista com as mudanças necessárias para se ajustar à nova realidade, as novidades desta edição e justificar os motivos da alteração de data.

De acordo com Valdice Gomes, coordenadora-geral do projeto, o sucesso das edições anteriores tem despertado uma expectativa sobre a realização do projeto este ano.

“O projeto tem atendido o seu objetivo de fomentar a reflexão sobre a realidade da população afrodescendente, valorizar e dar visibilidade à cultura afro-alagoana. Depois de três edições de sucesso é natural a expectativa este ano, por isso decidimos fazer o lançamento já este mês como forma de dar respostas ao público que já conta com as atividades do Vamos Subir a Serra”, enfatiza Valdice.

Valdice Gomes destaca importância de Zumbi para o povo negro (Foto: Arquivo pessoal)

O projeto Vamos Subir a Serra é uma iniciativa do Centro Anajô, entidade do movimento negro alagoano, vinculado aos Agentes de Pastoral Negros do Brasil (APNs). O projeto é considerado um dos maiores eventos afro-culturais no estado, destinado à valorização da população negra e da cultura afro, incentivo à geração de renda, o pertencimento étnico-racial e o combate ao racismo.

Para Valdice, o Dia 20 de Novembro é mais importante historicamente do que 13 de Maio quando foi assinada a Lei Áurea. “Foi o dia da morte do nosso herói maior, de um líder que formou uma comunidade na Serra da Barriga com estratégias de luta e que merece toda essa nossa atenção. O 13 de maio é apenas um artigo, que apenas permitiu que não acontecesse mais a senzala, ou seja, retirou os negros das senzalas, mas jogou no abandono, na rua, tirou da opressão dos senhores para colocar na opressão do Estado. Já que a partir daquela data, os negros que foram libertados não tinham direito à escola, não tinham direito à terra, não tinham emprego.”

Então, de acordo com Valdice Gomes, restou o abandono e os aglomerados em favelas, o que acontece até os dias de hoje. “A Princesa Isabel criou a Lei Áurea, porém não deu a importância devida a população negra para que se desenvolvesse, e tivesse a sua vida levada adiante”.

FERIADO

Sobre a circulação de uma nota da Fecomércio indicando que o feriado do Dia 20 de Novembro não vale para o comércio e a indústria, Valdice Gomes foi enfática ao afirmar que a entidade busca única e exclusivamente o lucro. Mas que os movimentos negros não se intimidam com tal prática e vai continuar na luta por igualdade.

“Com certeza assessoria jurídica da Fecomércio encontrou brechas no decreto governamental. Mas independente de ser feriado ou não para o comércio, a comunidade negra, o movimento negro estarão fazendo suas atividades seja online ou presencial, tomando todos os cuidados por conta da pandemia”, concluiu.

O Gabinete Civil informou que o Dia da Consciência Negra é feriado em Alagoas e que todas as repartições públicas estarão fechadas. A assessoria de comunicação do órgão reiterou que pelo calendário estadual por meio de decreto, a data é feriado.

“Zumbi é responsável por tentativa de firmar sociedade democrática”

A presidenta do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial em Alagoas, Marluce Remígio, explicou que 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, é uma data marcante, da morte do grande líder negro nacional, responsável pela primeira e única tentativa brasileira de estabelecer uma sociedade democrática, livre, em que todos e todas, negras, índios e brancos realizassem um grande avanço político-social.

“Então essa tentativa sempre está presente em todos os quilombos, sempre esteve e está presente em todos os quilombos. Continuamos reunidos e unidos numa luta de reconstrução da sociedade brasileira apontando para uma nova ordem mundial, onde haja a participação real e justa do povo negro, uma vez que somos os mais oprimidos dos oprimidos, não só em Alagoas mas em todos os lugares onde vivemos”, salientou.

Marluce Remígio lamenta racismo sofrido pelo povo negro e destaca necessidade de educação antirracista (Foto: Ascom Sinteal)

Marluce destacou que se nega o 13 de maio de 1988, dia da abolição da escravatura, como um dia de libertação, porque nesse dia foi assinada uma lei que apenas ficou no papel, encobrindo uma situação de dominação em que até hoje o povo negro se encontra.

“Jogado nas favelas, nos cortiços, empurrados para a marginalidade, a mendicância, nos presídios, com o desemprego, principalmente o subemprego e tendo sobre si o peso desumano da violência e da repressão policial. Então mantendo esse espírito de luta dos quilombos, nós enquanto negras e negros gritamos contra situação de exploração a que estamos submetidos. Lutamos contra o racismo e toda e qualquer forma de opressão existentes na sociedade brasileira, vamos continuar nessa mobilização e organização visando uma real emancipação política, econômica, social e cultural do povo negro”.

Ela lamentou que hoje em dia uma das principais formas de racismo seja por meio de xingamentos. E isso, segundo Marluce, se dá, sobretudo em ambientes escolares. Por esta razão há a necessidade de uma educação antirracista. “Todos devem ser acolhidos no espaço escolar. Então combater o racismo é lei e o papel das escolas está previsto em diversos documentos, como na Lei de Diretrizes e Bases, Plano Nacional de Educação e na Constituição”, lembra.

“Esse acolhimento e reconhecimento das identidades requer que as escolas repensem todas as suas dimensões no campo circular e normativo, da avaliação, do material didático, na pesquisa, no cumprimento da legislação e uma atenção cotidiana que cada escola construa, por isso, que não adianta existir uma sociedade em que todos tirem nota dez, mas ninguém sabe conviver com a diferença”, refletiu.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Ana Paula Omena

Comentários

MAIS NO TH