Cidades

26 de setembro de 2020 15:52

Direito de ir e vir: como está a acessibilidade no transporte público de Maceió

Segundo Sinturb, quase 100% da frota está adaptada; usuários cobram mais avanços

↑ Acessibilidade no transporte público vem avançando, mas ainda não atende por completo necessidade das pessoas com problemas de mobilidade (Foto: Edilson Omena)

Um transporte público digno e totalmente adaptado às necessidades de pessoas com deficiência é um dever de quem oferece este serviço. Em Maceió, a situação do transporte público coletivo ao longo dos anos vem registrando avanços no direito de ir e vir das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. De acordo com o Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Maceió (Sinturb), quase 100% da frota está adaptada. Para os usuários é preciso avançar mais.

O presidente do Sinturb, Guilherme Borges, esclarece que as empresas vêm concentrando esforços para a universalização da acessibilidade na frota.  “Desde 2016 todos os veículos já saem de fábrica com os espaços de acessibilidade, contendo duas vagas por veículo. Neste ano, as empresas entregam 35 novos ônibus, todos contemplados com dois lugares para cadeirantes. A frota também é sinalizada quanto à existência de vaga, todos possuem o símbolo de acessibilidade no lado de fora do transporte”.

Segundo dados da Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito de Maceió (SMTT), atualmente, a frota do Sistema Integrado de Mobilidade de Maceió (SIMM) possui 660 ônibus. Deste total, 618 contam com elevadores de acessibilidade.

O presidente do Sinturb pontua que o processo de adequação para atender a este público começou ainda em 2015.

Para os usuários, o avanço vem se destacando nos últimos anos, mas é preciso mais para atender por completo as necessidades de um público que já enfrenta tantas dificuldades com a infraestrutura urbana.

A auxiliar administrativa Ana Tiburtino Lima utiliza o transporte público diariamente para o trabalho. Ela afirma que a situação já foi muito ruim e que percebe melhorias. Antes era preciso se deslocar com acompanhante para que a subissem nos braços e por fim ajustá-la na cadeira de rodas.

“Tem sim tido umas melhoras. Antes quem estava comigo subia comigo nos braços. Depois subia a cadeira. Hoje não. Hoje percebo que aumentou a quantidade de ônibus com elevador. Para mim o ideal seria que os cobradores fossem treinados e motoristas também para além de saberem operar os elevadores receberem bem as pessoas com deficiência. Não são todos, mas a grande maioria atende mal”, afirma Ana.

Os desafios para quem tem limitações, segundo Ana, são muitos. “Nós que temos uma deficiência queremos mais qualidade de vida seja nos espaços públicos, seja nos transportes”.

Dona Maria Cícera da Rocha precisa utilizar quatro conduções a cada saída de casa. Ela conta que os desafios são muitos. “A gente que precisa sair para resolver as coisas, fazer tratamento é muito custoso. E com a pandemia ficou bem mais complicado, a questão de horário, de atraso, muitas vezes a gente precisa pegar o ônibus, mas já tem um cadeirante”, expõe.

“Empresários já estão adaptados às necessidades”

O presidente da Associação dos Deficientes Físicos de Alagoas (Adefal), João Ferreira, avalia que os empresários vêm entendendo as necessidades dos usuários cadeirantes.

‘’Os empresários entenderam essa necessidade e começaram a se adaptar – existe uma legislação de 2004 com o decreto 5296 que nos garantiu a acessibilidade nos transportes – o prazo para a adequação nos veículos terminou em 2014. No entanto, ano passado saiu um novo decreto do governo federal para as empresas se adequarem com as adaptações, espero que nesses dois anos de espera todos os ônibus não só em Alagoas, mas em todo o país, sejam acessíveis’’, comenta João Ferreira.

João diz que a instituição foi criada para a defesa das pessoas com deficiência e isso inclui garantir acessibilidade nos transportes públicos e privados.

Presidente da Adefal, João Ferreira (Foto: Sandro Lima)

“Nosso maior projeto é esse, defender, fiscalizar e mostrar onde está a dificuldade de cada pessoa. Temos uma demanda de mais de quase 100% na frota de ônibus com acessibilidade. E quando quebra, corremos atrás, inclusive denunciando a SMTT – existem muitos deles que estão quebrados ou quebram no decorrer da viagem prejudicando os cadeirantes. Mas, de fato a frota está com acessibilidade”, comenta Ferreira.

O presidente da Adefal defende que o transporte público é para toda a população. ‘’Não existe um dado de quantos cadeirantes existem em Maceió ou em Alagoas, pois não tem um censo para isso.  A Adefal e outras instituições trabalham com o público deficiente – e em todas existem o grupo de cadeirantes, inclusive muitos não fazem parte de nenhuma instituição ou não tem atendimentos nelas. Por isso, não dá para precisar quantos cadeirantes utilizam o transporte coletivo. Mas, defendo que é criado para toda a população. Todos nós precisamos nos locomover e ter acesso a diferentes locais em nossa cidade seja para lazer, trabalhos e atendimentos nas instituições’’.

Empresas investem em cursos de qualificação e reciclagem para atender usuários cadeirantes

Por muitos anos os ônibus das grandes cidades não apresentavam condições de acessibilidade. Mas essa realidade está mudando. Por exemplo, atualmente é obrigatório que todos os veículos ofereçam rampas automáticas em uma das portas para pessoas em cadeiras de rodas. Também é uma exigência legal a indicação de alguns assentos preferenciais, cinto de segurança para cadeirantes e placas de sinalização internas e externas.

Guilherme Borges ressalta que as empresas possuem parceria com o Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest/Senat) e por causa dessa parceria, os rodoviários têm acesso a diversos cursos, entre eles o de atendimento ao cliente.

Empresas investem em cursos de qualificação para um melhor atendimento aos cadeirantes de Maceió que utilizam os coletivos para se locomover (Foto: Edilson Omena)

“Uma das matérias trabalhadas é sobre o atendimento ao público especial, passageiros com necessidades especiais. E é muito enriquecedor para eles porque durante este módulo eles participam de simulações, onde utilizam cadeira de rodas e também andam com os olhos vendados, simulando entrar em um ônibus, tendo a experiência de sentir na pele as dificuldades que esses passageiros têm. Esse treinamento além de despertar nos rodoviários a empatia, também muda a forma de atender todos os passageiros. Se colocar no lugar do outro é primordial, além de que durante o trabalho eles passam a atender melhor às necessidades desse público e respeitar”, explica Borges.

Letício Montenegro é rodoviário da empresa Cidade de Maceió há 16 anos, 10 anos como motorista. Ele conta que todos os anos tem curso de reciclagem e um dos módulos é o atendimento ao público especial.

“Todos os anos passamos por reciclagem. E isso é muito importante porque trabalhamos com pessoas de várias idades e temperamentos e cada um tem necessidades específicas. Os cadeirantes, por exemplo, precisam de uma atenção maior – nem todos estão com acompanhantes e precisamos ajudar no embarque e desembarque”, esclarece o rodoviário.

O motorista diz que nos cursos eles têm a experiência de como é ser um cadeirante ou ter deficiência visual. “Utilizamos a cadeira de rodas no curso para sabermos a sensação e sentir na pele os cuidados que os cadeirantes têm que ter. E isso é bom porque nos possibilita ter o maior cuidado na hora de atendermos a eles”.

Letício Montenegro – Rodoviário (Foto: Edilson Omena)

O rodoviário conta que já está acostumado a trabalhar com este público e não se queixa. “Na linha que faço tem muitos cadeirantes. Atualmente por conta da pandemia a média é três por dia, mas antes era bem mais”.

O Sinturb não tem dados sobre a quantidade de usuários com necessidade especiais que são atendidos diariamente. “Em média o sindicato possui 385 passageiros especiais cadastrados, passageiros que não passam na catraca, mas que possuem o Cartão Bem Legal. Mas nem todos esses passageiros são cadeirantes, estima-se que apenas 1/3 deles. A maioria desses passageiros por se locomover com a cadeira de rodas e não passar na catraca, acaba não fazendo o Cartão Bem Legal’’.

“Medidas de segurança devem ser prioridade”, afirmam instrutores

A coordenadora de desenvolvimento profissional do Sest/Senat, Thaís Cabral de Almeida Müller, explica como é feita a preparação dos rodoviários. Ela afirma que o curso é necessário para a garantia de um bom serviço e atendimento aos cadeirantes.

“Mensalmente temos duas turmas por empresa de transporte de passageiros que passam por uma reciclagem no curso de Qualidade no Atendimento de Pessoas com Deficiência, Idosos e Gestantes. Este curso é obrigatório para todos os motoristas e cobradores para que eles possam estar prontos para o melhor atendimento aos usuários do transporte. Utilizamos uma abordagem prática, fazendo com que o aluno passe por todas as etapas que os usuários passam. Desde a parada quanto ao acesso ao ônibus. Fazemos prática em cadeira de rodas, com elevador para cadeirantes entre outras práticas. As empresas cedem os ônibus para que os profissionais possam realmente vivenciar todas as situações”.

Thaís afirma que com os cursos os profissionais se tornam aptos ao atendimento aos usuários. ‘’Todos eles passam obrigatoriamente pela capacitação e uma reciclagem anual. As empresas nos enviam uma relação mensal das pessoas que realizarão o curso e a partir daí podem fazer o acompanhamento se o profissional está executando seus atendimentos conforme preconiza as resoluções e conforme o usuário do transporte merece receber. Desde a cordialidade aos equipamentos disponíveis para tal”.

A coordenadora de desenvolvimento profissional avalia que é de fundamental importância a qualificação. “A cada dia temos mais informações e mais tecnologia para nos auxiliar nesse processo de tornar o mundo mais acessível. Ainda que seja muito comum tratarmos de acessibilidade priorizando os deficientes físicos, não são apenas eles que são considerados dentro desse contexto. Também integram a lista de beneficiários as pessoas idosas, as mulheres grávidas, os obesos e os deficientes visuais. Essas pessoas também apresentam problemas com a sua mobilidade, e é importante que os meios de transporte considerem as suas necessidades para oferecer um atendimento de melhor qualidade aos seus passageiros. Por isso, a importância do aperfeiçoamento ser constante”.

Thaís diz que a parceria com as empresas de transporte coletivo existe há mais de 10 anos. “Porém estamos trabalhando fortemente esses temas de cinco anos para cá e vamos acompanhando os dados da ouvidoria da SMTT com o número de reclamações”.

TEORIA E PRÁTICA

O instrutor do Sest Senat, Heitor Souza afirma que as medidas de segurança para atender ao público são a prioridade e são alinhadas com a prática dos rodoviários.

“No curso – em um dos módulos -, os rodoviários aprendem a usar os dispositivos, as tecnologias e seguir as orientações de máquinas para o manuseio dos elevadores. E temos como prioridades esse aprendizado para uma medida de segurança, que é nosso principal objetivo. Como é uma operação que eles já vivenciam, o aproveitamento é muito bom, ou seja, um casamento perfeito: teoria e prática. Eles gostam de aprender e se renovar. Além dos motoristas, os cobradores também passam por este curso, pois eles também necessitam ter essa ideia de operar a máquina para auxiliar os motoristas nesse processo”, explica Heitor acrescentando que o projeto de Requalificação é justamente para reaproveitar os cobradores que podem vir a ser motoristas adiante.

Segundo o instrutor, as aulas teóricas estão acontecendo de forma on-line durante a pandemia e as práticas são feitas com agendamentos.

SMTT realiza fiscalização nos coletivos da capital diariamente

Segundo a SMTT, de janeiro a agosto de 2020. 24 denúncias de elevadores de acessibilidade danificados foram registradas. O órgão afirma que realiza fiscalizações periódicas no sentido de ofertar um melhor serviço à população.

“Diariamente, os agentes e os fiscais de coletivos do órgão vistoriam as garagens das empresas e os principais terminais de ônibus de Maceió com o objetivo de verificar as condições dos veículos. Na ocasião, são vistoriados o funcionamento dos elevadores de acessibilidade e todos os itens de segurança dos ônibus, a exemplo dos bancos, pneus, para-brisas, dentre outros equipamentos. Durante as abordagens, caso seja flagrado que algum coletivo esteja circulando com o elevador de acessibilidade danificado, a empresa é notificada e autuada”, destaca a Superintendência.

De janeiro a agosto deste ano, SMTT registrou 24 denúncias de elevadores de acessibilidade danificados (Foto: Edilson Omena)

Ainda de acordo com a SMTT, a população também pode auxiliar nos trabalhos de fiscalização e denunciar irregularidades através do Disque SMTT, no número 118, de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h.

Para o presidente da Adefal ainda falta uma fiscalização mais rigorosa. ‘’Existe uma fiscalização, mas a demanda é pequena – e a demanda de ônibus é grande para as equipes de fiscalização. Ainda falta denúncia por parte da população e inclusive dos cadeirantes, por isso, se o deficiente está no ponto de ônibus e observar que está quebrado deve anotar e denunciar para garantir nossos direitos’’, comenta João Ferreira.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Lucas França e Evellyn Pimentel

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