Cidades

29 de maio de 2020 08:20

Games ajudam mente a permanecer ativa durante isolamento

No entanto, especialistas alertam que, em excesso, passar várias horas do dia jogando pode trazer consequências à saúde

↑ Fissurado em games, o adolescente Michael Douglas diz que só para de jogar quando o celular descarrega (Foto: Cortesia)

Com a manutenção do isolamento social para combater a pandemia do novo coronavírus (Covid-19), crianças, jovens e adultos estão passando grande parte do tempo entretidos com jogos de videogame, jogos online, que podem ter diversos benefícios para manter a mente ativa, para o desenvolvimento cognitivo e até mesmo para o aprendizado de outras línguas. Mas o excesso também pode fazer mal e de acordo com os especialistas “é uma faca de dois gumes”.

Doze horas por dia é o tempo que o enteado do auxiliar administrativo Joel da Silva Filho, Lucas Kauã Marques da Silva, 16 anos, passa na modalidade de jogos online. “Ele já jogava antes, mas o tempo aumentou cerca de 70% com a pandemia. Diz ele, que é para passar o tempo, ganhar pontos contra os colegas e dinheiro virtual. Mas isso já está atrapalhando na rotina. Não faz as atividades escolares que são online, passa a noite e entra a madrugada jogando. e pela manhã não toma café porque acorda tarde, só almoça e janta’’, conta.

Além disso, Joel diz que Lucas já dorme com o celular do lado. “Um dia desses, esqueceu de desligar a mangueira que enche a caixa d’água por estar no relacionamento com esses jogos. Outro dia, a mãe dele deixou ele olhando a panela e o menino esqueceu. A comida queimou. Falei com a mãe dele para dar mais limites. Como fiz o curso de psicopedagogia, sempre dou conselhos a ele e aos colegas que ficam aqui em casa jogando. Tento mostrar alguns problemas que podem acontecer”, ressalta o padrasto.

Tempo de Lucas Kauã jogando aumentou em 70% durante pandemia (Foto: Joel Filho/Cortesia)

O gamer Michael Douglas Alves Nascimento, 16 anos, conhece uma diversidade de jogos online e até participa de alguns campeonatos com a modalidade. Ele joga desde oito anos de idade. “Comecei a jogar com 8 anos, um jogo chamado Tibia (RPG). E daí fui conhecendo muitos jogos online. É legal para fazer amizades novas e se divertir. Já ganhei dinheiro, mas ultimamente só entretenimento. Nessa quarentena só paro de jogar quando o celular descarregar [risos]. Aumentou muito durante o isolamento social, é uma forma de se distrair muito boa. Acho muito bom os jogos online, porque você pode fazer amizades legais, se distrair de algum problema’’, avalia.

A dona de casa Renicacia Moreira relata que a filha, Myrelle Raynne, 12 anos, também não desgruda do celular. E o maior motivo são os jogos. “Ela já jogava antes, mas agora no isolamento piorou, passa quase todo tempo. Brigo muito por isso. Fico lembrando dos afazeres, mas ela esquece. Daí, deixo já que não estão podendo sair nem receber as coleguinhas em casa’’.

Quem também está mais tempo nos jogos é o administrador Fontan Neto. Ele conta que só joga Free Fire, por entretenimento, mas confessa que o jogo tira o foco para outras atividades. “Aumentou com toda certeza o tempo que passo no jogo. Antes era cerca de meia hora no máximo uma hora. Agora jogo umas quatro horas por dia. Deixei de fazer uma caminhada, ler um livro para ficar no jogo, por exemplo”.

MERCADO

Vale ressaltar que, em meio à pandemia, download de jogos de celular aumentaram em março segundo dados da companhia de análise de mercado App Annie. O levantamento mostra que o crescimento foi de 30% na comparação com o quarto trimestre inteiro de 2019. Os maiores mercados são Brasil e Índia.  O gasto com os games em lojas de aplicativos no mês passado foi de R$ 123 bilhões no mundo todo.

“Pode ser uma faca de dois gumes”, diz psicólogo

 

O psicólogo Bruno Freire explica que, em época de isolamento social, as pessoas ficam literalmente “ilhadas’’ em suas casas, sem poder ter contato com o “exterior”. Mas avalia que em tempos modernos há ferramentas de se ter contato com outras pessoas. E os jogos online pode fazer essa função.

“Existe a  indústria de jogos online, existe uma forte produção de jogos  e existem jogadores profissionais  de  Tibia, Dota, League of Legends, Ragnarok, MU, Word Of Warcraft, Free Fire, Counter Strike e muitos outros, há muito tempo, a comercialização  desses jogos  é  enorme e gera  lucro  para as empresas que os desenvolvem, isso vem gerando fontes de renda, por exemplo existem pessoas que deixaram empregos para viver de jogos online,  existem sites como ferramentas  para viabilizar o acesso dos jogadores streamers  aos demais e isso gera renda com doações e propaganda. Mas o que está em questão não é só a cultura dos jogos online e sim a relação do sujeito com os jogos, a necessidade de jogatinas e a dificuldade do sujeito de fazer outras atividades que sejam alheias ao contato virtual, ou seja, o afunilamento do sujeito às demandas’’, ressalta o especialista.

Psicólogo Bruno Freire diz que os jogos tem o lado positivo e o negativo (Foto: Jonathan Canuto)

Freire diz que está ampliando a visibilidade pois, para muitos, o isolamento social só é visto na atualidade como meio preventivo à propagação de doenças, mas retrata a impossibilidade de contato com o mundo alheio ao virtual. “Existem pessoas que passam o dia em jogos e se relacionando com pessoas de outros lugares do Brasil e do Mundo, passando várias horas no computador, celular. Alguns como meio de vida e outros de entretenimento, mas até que ponto isso é saudável e até que ponto isso pode gerar problemas na vida do sujeito? O que o sujeito busca na realidade virtual? E o que falta na realidade em si? Como estão as relações? O que abdica no dia a dia para estar inserido naquela realidade?”, questiona e esclarece que jogos online podem ser um passatempo. Mas também pode se tornar compulsão.

“Quando se trata de compulsão há outra questão, quando o sujeito apresenta sinais e sintomas de abstinência, agressividade e diversos sintomas que são passíveis de intervenção. Mas também os jogos online podem vir como um ponto de descarga de tensão, um auxílio durante uma época turbulenta, o que está em questão não é o jogo e sim a forma que se joga, a necessidade e os comportamentos, sensações e emoções que o sujeito tem durante e na falta do jogo. Não existe mais faixa etária. Os jogos online estão repletos de pessoas de todas as idades’’, avalia.

Para o psicólogo, pode ser uma “faca de dois gumes’’, tem o lado positivo e o negativo. “Em países que estão passando por grandes crises econômicas, pessoas estão sobrevivendo por conta dos jogos online, a moeda do jogo é convertida em moeda real. Existem jogos nos quais o valor da moeda do jogo é pautado no euro, outros no dólar e consequentemente no real. E o que fazer para abarcar esse mercado que a priori seria de entretenimento e se tornou um campo profissional?  Pode ser um hobby, uma profissão ou uma forma disfuncional de lidar com a realidade? Nas clínicas, chegam pessoas com necessidades diferentes, sejam lá quais forem. Se existe sofrimento, há a necessidade do cuidado e acolhimento, de intervenção e, no decorrer do processo, tomada de consciência”, finaliza

Fonte: Tribuna Independente / Lucas França

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