Cidades

4 de abril de 2020 13:05

Imprensa Oficial lança “Metamorfose das Oligarquias”, de Douglas Apratto

Livro é uma análise aprofundada das transformações políticas e adaptações sociais ocorridas em Alagoas com o começo da República no Brasil

↑ Douglas Apratto terá clássico livro relançado (Foto: Edilson Omena)

Em épocas de redes sociais, que se tornaram terras de análises político-filosóficas superficiais e que são tidas como verdades absolutas, a velha máxima que é preciso olhar o passado para compreender o presente e planejar o futuro deve ser levada a sério. É por isso que a coleção da Imprensa Oficial Graciliano Ramos lança é uma excelente novidade. O projeto batizado de Raízes das Alagoas, traz clássicos não ficcionais sobre Alagoas, escritos por alagoanos. Os primeiros livros da coletânea são assinados por Douglas Apratto, Dirceu Lindoso, Aberlardo Duarte e Nicodemos Jobim.

Assinada por Douglas Apratto e lançada em 1977,  “Metamorfose das Oligarquias” aborda o processo de transformação da realidade socioeconômica de Alagoas durante a chamada República Velha. Este estudo crítico revela como as famílias tradicionais alagoanas se adaptaram às mudanças políticas nacionais para evitar mudanças reais no eixo do poder local, mostrando que o fenômeno das oligarquias é bem mais complexo do que supõe o senso comum.

O livro possui uma narrativa de fácil entendimento e demonstra ser fruto de uma pesquisa minuciosa, inclusive com passagens interessantes sobre os costumes e rotinas da sociedade da época como o espanto com os cabelos curtos das mulheres, noticiados nos jornais, e a chegada no comércio de meia finas cor de carne. Segundo o escritor, essas mudanças tão radicais quase causam uma revolução na velha Maceió.

Mas claro que o objetivo do trabalho vai a passos largos longe de descrever costumes de uma época. Fica claro, inclusive na introdução feita por Douglas Apratto. A ideia é olhar para uma época pouco estudada, é entender de que maneira as elites alagoanas, imperialistas de nascimento, se comportaram com a chegada da República, que acabou ficando conhecida como República Velha para melhor entendimento didático.

“É preciso entender nosso passado, compreender o comportamento da sociedade, seus dirigentes e a camada da elite para saber como chegamos e quem somos. Por isso, entre outras obras lançadas por mim, interessou-me descerrar o véu desse período morno, interrompido apenas por espasmos que se seguem nas unidades federais, após a mudança decretada pela espada de Marechal Deodoro. E, sabemos, que passado o vendaval dos primeiros anos republicanos, o sistema de sustentação do poder reestruturou-se formando uma base de poder marcada pelo imobilismo e pela quase vitaliciedade dos dirigentes. Temos como exemplo Euclides Malta que já era um substituto de seu sogro – o Barão de Traipu, que foi governador. Agora veja bem esse detalhe, um governador em uma Alagoas republicana que carregava com orgulho o título de barão”, explica o historiador.

O estudo que é ‘Metamorfose das Oligarquias” é fundamental para se visualizar como aconteceu a modificação da estrutura política e social dentro de Alagoas e isso acaba ajudando a ampliar o conhecimento da economia, da cultura, dos episódios políticos de repercussão no centro e na periferia dos poderes e das relações entre eles.

Douglas Apratto Tenório é um dos maiores difusores do conhecimento histórico sobre Alagoas. Mesmo com uma obra vasta e profunda, amplamente reconhecida no meio intelectual e acadêmico, o historiador é responsável pela democratização do acesso às informações sobre o passado alagoano, publicando boa parte de suas pesquisas em publicações direcionadas ao público não iniciado, numa linguagem simples e descomplicada. Formado em História pela Universidade Federal de Alagoas, com mestrado e doutorado na Universidade Federal de Pernambuco, o professor, vice-reitor do Centro Universitário Cesmac, é autor de A Tragédia do Populismo: o Impeachment de Muniz Falcão e Capitalismo e Ferrovias no Brasil, entre outros livros sobre os principais fatos históricos do estado. O autor estará presente no lançamento para uma sessão de autógrafos.

A coleção

A coleção Raízes das Alagoas é uma antologia formada por obras seminais, sobre a formação social, cultural e econômica do estado de Alagoas. Seu objetivo é promover o resgate de títulos consagrados pelo tempo, há anos fora de catálogo, mas que continuam indispensáveis para os estudantes e pesquisadores contemporâneos.  Além de Metamorfose das Oligarquias, o projeto ainda conta com a obra Formação de Alagoas Boreal, de Dirceu Lindoso; História de Anadia, de Nicodemos Jobim; e Os negros muçulmanos nas Alagoas – Os malês, de Abelardo Duarte. Contudo, nos próximos meses, serão agregados novos títulos de Thomas Espíndola, Craveiro Costa, Sávio de Almeida e Jayme de Altavilla. A curadoria das obras selecionadas para a coleção é realizada pelos membros do Conselho Editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos e pelos membros da comissão responsável pela produção dos livros que pertencem à editora da Imprensa Oficial, à Fapeal e à Eduneal.

“A coleção Raízes das Alagoas vem responder a uma demanda não realizada nas comemorações do Bicentenário da Emancipação de Alagoas, em 2017, quando faltou uma iniciativa que retomasse a publicação dos livros clássicos sobre Alagoas, obras já referendadas pelo tempo e pela crítica, necessárias para compreender a formação alagoana”, afirma Fábio Guedes Gomes, diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), membro do Conselho Editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Em consonância, o economista e professor Cícero Péricles de Carvalho, também membro do Conselho Editorial da Graciliano diz que essa coleção, que agora ficará à disposição do público interessado, tanto os estudiosos e pesquisadores como os leitores comuns, é formada por um conjunto de livros que estavam fora de circulação, mas que eram lidos em cópias antigas ou nos poucos exemplares existentes nas bibliotecas. “Sem essas obras, que são referências obrigatórias pela qualidade do texto e profundidade no tratamento de seus temas, fica mais difícil pensar o desenvolvimento cultural, econômico e social do estado. Significativamente, a Raízes das Alagoas começa com quatro obras muito citadas, mas de difícil acesso porque estavam esgotadas, fora de catálogo: o livro de Douglas Apratto estava há uma década sem edição; o livro de Dirceu Lindoso foi publicado e rapidamente esgotado há duas décadas; o estudo do Abelardo Duarte esperava por uma reedição desde 1958 e, no caso extremo, o do Nicodemos Jobim, publicado em 1881, era lido em raras cópias desgastadas há mais de um século”, ressalta.

“Como já estão garantidos os livros de Thomas Espíndola, Sávio de Almeida, Jayme de Altavilla e Craveiro Costa, a Raízes das Alagoas já pode ser considerada um sucesso editorial. É uma iniciativa tão ousada que precisou contar com o apoio de três instituições estaduais vinculadas à cultura e à educação do estado. Para receber uma coleção desta importância, o momento e o local não poderiam ser outro que a Bienal de 2019”, afirma Dagoberto Omena, diretor-presidente da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

“Já há uma grande expectativa em torno das novas edições destes clássicos. Há anos a comunidade acadêmica demandava o resgate de vários estudos relevantes sobre Alagoas que se tornaram raros, inclusive no mercado livreiro, como o livro Os negros Muçulmanos nas Alagoas – Os Malês, e o História de Anadia, mais raro ainda”, reflete Odilon Máximo, reitor da Uneal, membro do Conselho Editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, explicando que novos títulos com o mesmo perfil e a mesma relevância serão agregados à coleção Raízes das Alagoas daqui pra frente.

Fonte: Redação

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