Cidades

4 de abril de 2020 12:18

Distanciamento social muda forma de celebrar a Páscoa

Muitas famílias devem optar pela comemoração restrita; psicólogo ressalta necessidade de se adaptar às mudanças

↑ Ana Carolina e família: limitações da presença física, mas orações unindo todos neste momento difícil (Foto: Arquivo pessoal)

“Neste ano, sabemos que a Páscoa não será a mesma coisa. Mas devemos manter o espírito e não esmorecermos. Pois acredito que é um momento que Deus está nos permitindo refletir sobre tudo. Mas principalmente sobre o tempo” afirma a professora Ana Carolina Beltrão Peixoto que precisou reprogramar a forma de comemoração da Páscoa este ano.

Muitas famílias precisaram se adaptar e rever a maneira como vão comemorar a data. Ana Carolina diz que apesar das dificuldades impostas no momento, tem realizados os rituais religiosos na sua própria casa. Este ano, a Páscoa será comemorada em casa, apenas com o marido e o filho.

“Acompanhamos todo esse período desde o início da quaresma, e fatidicamente com as imposições da quarentena, minha família vem buscando refletir todos os dias a liturgia que recebemos no grupo. Voltamos nossas intenções e orações para nossa casa, onde seguindo o Pároco, fizemos de nossa casa nossa igreja”, comenta Ana Carolina.

A professora explica ainda que todos os anos mantinha a tradição de visitar a casa da sogra e visitar o avô. “Geralmente na Sexta-feira da Paixão preparamos tudo e vamos para casa da minha sogra.  Aqui em Maceió mesmo.  No sábado de aleluia vamos visitar meu avô que tem 94 anos e mora em Marechal. Por isso mesmo com as limitações da presença física, nos uniremos em oração, pedindo ainda mais a misericórdia divina para que tudo isso passe”, detalha.

A funcionária pública Wilma Soares conta que a realidade exige que as famílias passem por adaptações neste momento, principalmente entre as famílias onde há pessoas nos grupos risco.

“Acho que grande parte das pessoas não reunirá toda família, há muitas pessoas com medo e priorizando o isolamento”, resume.

O comerciário Ezequiel Bittencourt conta que optou por uma comemoração apenas com as pessoas de casa. “Compramos chocolate e vamos, com a ajuda da internet, fazer ovos de páscoa em casa para alegrar e distrair um pouco, é preciso em meio a tantas notícias ruins”, garante.

Ele afirma que também vai usar as redes sociais para se confraternizar com os familiares que costumavam estar reunidos todos os anos neste período. “Vamos fazer chamada de vídeo pelo WhatsApp, não vamos reunir toda a família. Lembrando sempre que Jesus morreu por nós para nos dar a vida. Nossa comemoração é voltada ao sacrifício de Cristo”, acrescenta.

“Momento exige bom senso”, alerta psicólogo sobre contágio

O psicólogo Carlos Gonçalves afirma que as pessoas precisam compreender que o momento exige mudanças, adaptações e principalmente bom senso.

“Ninguém vai morrer, ou ter algum problema porque não vai celebrar uma data, um aniversário. A palavra-chave é adaptação. A gente tem que entrar nesse ritmo, mas sem perder nosso ritmo interno, que é a capacidade que a gente tem de não gerar pensamentos destrutivos entender que isso é uma fase e vai passar. E só vai fazer menos catástrofes se usarmos o bom senso. Se cada um fizer sua parte e preservar o isolamento, dá muito certo vivenciar essa data de outra maneira, ela não vai perder o sentido. Se os idosos tem mais essa tradição, de sair pra missa, fazer a celebração, nós mais jovens temos que pensar neles, é hora de ter empatia. Minha mãe por exemplo tem 98 anos, faz aniversário em abril, mas como vamos com nove irmãos comemorar o aniversário dela? Minha filha que é médica passou logo o recado de que deveríamos tocar nossas vidas, mas sem celebrar o aniversário, que a gente sempre se reunia, mas não iremos fazer isso este ano.”

Não é hora, segundo ele, de extremismos. Seja pela questão religiosa seja por fatores como a preocupação exagerada com a doença.

“Tem um fator muito importante é que muitas pessoas não conseguem separar a religião do fanatismo. Se o Papa fez uma celebração sem público é porque o momento exige. Mas muitas pessoas não conseguem encarar que é um momento, que não pode passar em branco esse momento histórico ou de tradição familiar. Isso tem que tem uma separação muito clara, tem que usar o bom senso, não é por causa disso que vou deixar de ser filho de Deus, vou ser menos católico, por exemplo, se eu não fizer o ritual. A saúde mental está atrelada ao contexto em que a gente está vivendo, tentando encontrar o contexto do que estamos vivenciando. Outras pessoas estão focadas no que a gente chama de pensamento antecipatório, que é pensar que [a doença] vai chegar em Alagoas, em nossa casa, atingir o pai, a mãe. A pessoa começa a ficar envolvida nessa preocupação”, detalha.

O psicólogo garante que utilizar a criatividade e até mesmo as redes sociais é uma boa estratégia para celebrar a data.

“É o momento de tentar fazer a celebração online, dentro da estrutura familiar que está em isolamento, realizar uma live para celebrar aquele momento. O que não dá é querer fazer de todo jeito, como seria feito sem o coronavírus. Neste momento o que prevalece é o bom senso”, finaliza.

Fonte: Evellyn Pimentel / Tribuna Independente

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