Economia

27 de fevereiro de 2020 09:02

Mulheres relatam desafios de empreender

Longe do perfeccionismo, elas precisam encarar jornadas duplas ou triplas; em todo país são mais de 24 milhões de empreendedoras

↑ Para Dartiane Vasconcelos, principal desafio é conciliar as prioridades no mundo onde a mulher “não pode errar” (Foto: Arquivo Pessoal)

Mais de 24 milhões de mulheres no Brasil estão à frente do seu próprio negócio. Em Alagoas, 31% dos pequenos negócios são gerenciados por mulheres que precisam encarar as dificuldades de empreender e ainda lidar com as jornadas duplas e até triplas. As empreendedoras alagoanas, Dartiane Vasconcelos e Keyla Gabrielle, detalharam a Tribuna Independente os desafios entre o ponto de partida e o protagonismo.

Um estudo feito pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no ano passado mostrou que a grande maioria das mulheres empreende por necessidade, ou seja, para se manter ou por não ter outra opção de emprego. Apesar disso, elas ainda ganham 22% a menos que os empreendedores. Outro ponto é dura realidade de conciliar trabalho, renda, filhos e a vida pessoal e tantas outras demanda que surgem diariamente.

Dartiane Vasconcelos é relações públicas e especialista em comunicação digital. Para ela, o principal desafio é conciliar todas as prioridades num mundo onde a mulher “não pode errar”. Ela avalia que é preciso descontruir a ideia de “mulher maravilha” que dá conta de tudo. Questões como insegurança, culpa e medo de errar também pesam na balança.

“A dificuldade de ser mulher e empreender é realmente muito grande porque eu não faço apenas isso, eu faço dez mil coisas ao mesmo tempo. Além do meu trabalho regular, sou funcionária pública, eu tenho minha filha, meu marido, minha casa, todas essas dificuldades que nós mulheres encontrarmos. Então para a mulher é muito mais difícil. Tem também a questão da culpa, do medo, porque nós fomos ensinadas que é responsabilidade da mulher tomar conta da família, ter uma família perfeita, os filhos bem criados, educados, a casa sempre limpa, o marido sempre feliz. E quando a gente entra no mercado de trabalho vira um caos, porque a gente não é mulher maravilha, somos pessoas comuns, têm dias que estamos cansadas, estressadas, tem dias que não queremos fazer nada, nem trabalhar [risos]. Mas a gente precisa fazer porque somos a ‘engrenagem’ de tudo por essa carga histórica, então é muito mais difícil. Porque você tem que dar conta da criação do filhos, no caso quem é mãe, então você tem que estar presente, dar conta do trabalho”, enfatiza.

Dar o ‘start’ no modo empreender está muito relacionado com a própria condição da mulher, da rotina e do desejo de mudança. Ela diz que passou um bom tempo desejando empreender mas não conseguia “encaixar” em sua realidade.

“Foi difícil, foi muito demorado para maturar a ideia. Eu já tinha vontade de empreender, desde que me formei, porque eu tinha uma necessidade muito grande de atuar na minha área que é Relações Públicas. Como eu sou funcionária pública, nem sempre estou atuando com isso. Queria muito trabalhar com comunicação, o tempo foi passando e eu sem coragem de colocar em prática e aliar as duas coisas: o meu trabalho como funcionária pública e o tempo de colocar isso para fora. Quando essa ideia do empreendedorismo digital no Instagram começou a ganhar corpo eu comecei a me interessar. Eu fiz uma pós em comunicação digital e vi que seria possível fazer, mas ainda foi muito lento. Em 2018 fiz um curso de consultoria em imagem e estilo e foi o que realmente me deu coragem para empreender”, detalha.

Atualmente ela utiliza as redes sociais para encorajar mulheres a empreender e utilizar a comunicação de forma positiva.

“A ideia de colocar o meu conteúdo para fora era justamente isso, eu conheço muitas mulheres que têm um conteúdo muito bacana para colocar para fora, para expor, mas não conseguem, por medo de falar, por vergonha, por culpa. Então eu resolvi usar o conhecimento que eu adquiri ao longo dos anos estudando comunicação para dizer para elas que é possível colocar isso para fora e dizer o que elas têm para dizer, do jeito delas, que ninguém precisa usar uma cartilha, elas podem fazer usa própria cartilha”, afirma.

“Jornada da profissional deste setor é diferente”, diz consultora

Keyla Gabriele decidiu empreender após o nascimento da filha. Para ela, a mulher empreendedora enfrenta muito mais obstáculos até o protagonismo.

“A jornada da empreendedora é diferente da jornada do empreendedor. Porque é preciso ter essa consciência sobre o protagonismo feminino, sobre planejamento, planejamento financeiro, muitas mulheres não têm noção do quanto ganham, de precificar valores, negócios. São muitas trilhas, e eu vejo mulheres muito perdidas. O que é mais importante fazer numa transição de carreira, ou se eu acabei de sair da maternidade, voltar ao mercado de trabalho, mas não mais trabalhando para uma empresa, mas por onde eu começo? É toda uma estrutura para que essa mulher tenha saúde, bem estar, preparar a família para esse novo momento que é dela”, explica Keyla.

Ela conta que o desejo de empreender foi uma opção encontrada para não retornar ao mundo corporativo. Atualmente ela atua com mentoria para mulheres que desejam se lançar no empreendedorismo.

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Keyla Gabriele atua com mentoria para mulheres que desejam se lançar no empreendedorismo (Foto: Acervo pessoal)

“O primeiro ponto importante é a questão do protagonismo feminino. Muitas vezes a mulher está fazendo transição de carreira, então ela está vindo do mundo corporativo. Eu trabalhava numa empresa quando tive minha filha, ela tem seis anos agora, e realmente eu não quis voltar para o mercado tradicional, eu quis vir para o empreendedorismo, hoje eu tenho um controle de tempo muito maior do que se tivesse trabalhando para empresas tradicionais. Então a proposta é essa, saber quais as habilidade para que ela consiga se desenvolver nesse mar que é o empreendedorismo feminino”, destaca.

Para Keyla é preciso compreender que as redes sociais atuam como uma importante ferramenta para as empreendedoras. “A mulher empreendedora precisa de um método, um caminho seguro para fazer seus investimentos de tempo e financeiros, de forma assertiva, preservando o máximo o seu emocional. Justamente por sua jornada ser mais extensa do que a do empreendedor. Hoje a principal ferramenta do pequeno empreendedor são as redes sociais, então tem toda essa esfera de produzir vídeos, planejar conteúdos, organizar a parte financeira, e além de toda essa trilha ela tem a casa, as demandas pessoais, pode ser casada, ou ter filhos”, opina.

Fonte: Tribuna Independente / Texto: Evellyn Pimentel

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