Cidades

22 de janeiro de 2020 08:48

‘Medo é pouco, a gente tem é pavor’

Aumento de rachaduras em imóveis de Bebedouro que não estão no acordo de realocação cria tensão entre os moradores

↑ Fissuras avançam na zona de monitoramento em Bebedouro; imóveis estão fora do acordo para desocupação (Foto: Edilson Omena)

Dona Maria Luiza da Silva Ferreira tem 60 anos. Ela é moradora da Rua Camaragibe, no bairro de Bebedouro, há três décadas. O bairro é um dos quatro afetados pelo processo de afundamento. No entanto, seu imóvel não está incluído na área de desocupação imediata que será realizada pela Braskem. A rua em que ela mora é uma zona de monitoramento, mas na semana passada parte do imóvel vizinho ao dela desabou e foi desocupado de forma emergencial.

A rachadura que atravessa a casa vizinha é a mesma que atravessa sua casa. O medo, segundo Dona Maria Luiza é constante.

“Medo é pouco. A gente tem pavor. Desde que tudo isso começou eu já tive problemas seríssimos. Ninguém consegue. Como você tem sossego, como você fica tranquilo num lugar que pode afundar, que pode cair a qualquer momento? Quem é que tem sossego? Ninguém tem sossego. E as pessoas chegam aqui e dizem que não é nada. Que a casa em frente a minha tem risco, a escora desabou e a minha não tem problema. A minha não tem nada. Como é que tudo vai sair e a minha rua não está em perigo? Tem explicação? Vieram marcar aqui para cavar, mas disseram que para mexer tem que nos tirar. E como não tem nada? Quem entende isso? Como não tem nada num bairro e está uma confusão dessas? Um passa e diz uma coisa, outro passa e diz outra e estamos a ver navios, esperando uma solução”, desabafa a moradora.

A situação de dona Maria Luiza se assemelha a tantos outros casos no bairro de Bebedouro. É o que afirma o presidente da Associação dos Moradores, Augusto Cícero. Ele diz que vem tentando incluir esses imóveis no acordo firmado entre órgãos de controle e Braskem no Programa de Realocação e Compensação Financeira. Entretanto, ainda não obteve retorno.

“As rachaduras começaram aparecer e aumentar recentemente. Muitas casas aqui as rachaduras só começaram a aparecer há uns três meses atrás, outras só agora. Essas áreas não estão incluídas na realocação, pelo mapa não. Há algumas áreas em Bebedouro que serão desocupadas, mas isso representa apenas 5% do bairro. O problema é que têm imóveis que estão rachando e não serão realocados. Já entramos em contato com todos os órgãos, Defensoria, MPF, Defesa Civil, estamos aguardando, estamos esperando os estudos. Queríamos que nenhuma área precisasse ser desocupada, mas não sabemos o que vai acontecer”, diz o líder comunitário.

Imóvel desocupado oferece riscos a outro no mesmo terreno

 

Viviane Vieira Malta mora no mesmo terreno da casa onde houve o desabamento. Ela explica que o imóvel é de herdeiros e foram construídas três casas, a da frente, que foi desocupada e outras duas ao fundo. Numa destas, Viviane mora com o marido e a filha de dois anos.

Viviane mora com o marido e a filha em uma casa no mesmo terreno de imóveis onde houve desabamento (Foto: Edilson Omena)

“A casa da frente foi desocupada e disseram que está com risco de desabamento. A qualquer momento pode acontecer uma tragédia. Ela está isolada, mas não pode lacrar porque a gente está lá nos fundos. Porque a máquina deles que opera o trabalho, os técnicos da Braskem falaram que se fosse mexer ia abalar a estrutura da casa de trás, onde eu moro. Estamos na expectativa, porque não estávamos prevendo de se mudar, de sair, nada disso. Eles ficaram surpresos quando chegaram aqui e viram que a gente morava nos fundos, pensavam que só era a casa da frente”, pontua.

Viviane acrescenta que as informações que teve é que, apesar da casa dela não ter danos aparentes, há risco.

“O pessoal da Braskem pediu para abrir um protocolo na Defesa Civil. A Defesa Civil veio na segunda-feira, o engenheiro disse que a minha casa não tem nenhum risco aparente, mas o risco é por conta do acesso, que é feito ao lado da casa que está com problema. As escoras cederam porque o piso desceu. Meu esposo perdeu um dia de serviço hoje para resolver e disseram que a gente não tem direito, por mim a gente não ia sair, porque a gente não paga aluguel, a mãe dele deu a ele, mas tem risco. A gente está correndo perigo. A casa da rua de trás está nesse mesmo estado e a da frente também”, conta.

Moradores da região se queixam da falta de informações

 

Claudia Maria Lopes mora no mesmo imóvel há 45 anos. A casa é um primeiro andar compartilhado com a mãe na Travessa Belo Alves. E o problema, segundo ela, está tanto na construção antiga, quanto na mais recente. As rachaduras se espalham pelo imóvel e o piso da cozinha sofreu um desnível.  Agora, Claudia vai solicitar a visita da Defesa Civil.

Cláudia mostra rachaduras espalhadas pelo imóvel onde mora (Foto: Edilson Omena)

“Tinha uma rachadura pequena, antiga, da casa mesmo. Então nunca prestei tanta atenção nisso. Só que de uns meses para cá começou a rachar. E de lá de cima [primeiro andar] começou a descer. A parte de cima, foi feita há uns seis anos. Na parte de baixo o chão tá dando diferença, tem aparecido rachadura em vários lugares. Eu estou marcando os rachões. Vou pegar o número da Defesa Civil para ligar e saber o que está acontecendo”, garante a moradora.

Claudia comenta que tem medo de permanecer no imóvel, mas não tem renda suficiente para pagar um aluguel e sair.

“Eu fico apreensiva porque é primeiro andar. A gente vê prédio caindo, que dirá uma casa dessas, com terreno acidentado. De repente a gente vê a casa toda rachando, eu tenho medo. Não tenho para onde ir. A casa está no nome do meu pai, ele morreu há cinco meses. Eu estou desempregada há quatro anos. Sou diarista, ganho R$ 600 por mês. Minha mãe não é aposentada, ganha R$ 150 num lavado de roupa. Eu vou para onde? Vou procurar solução, tenho medo de ficar”, detalha.

Já na Rua Manoel Sampaio, Rejane da Silva Santos reclama da falta de respostas. Por lá já houve visita da Defesa Civil, mas segundo ela a informação dada é que não há relação com o fenômeno de afundamento.

“Começou mais na parte do quintal. Foi onde eu percebi que estava rachando. A Defesa Civil esteve aqui, veio hoje [ontem] e disse que não tem nada a ver com o problema. Que é da estrutura da casa. Eles mandaram continuar observando, mas a observação deles está desde abril do ano passado e até agora não resolveram nada. Colocaram um pegador de roupas, era só no começo. O pegador já está entrando todo. Eles dizem que não tem nada a ver. As rachaduras só aumentam e eu sem resposta, lá na frente que não tinha é nova, começou a se rachar. Eles colocaram até uma plaquinha de gesso para monitorar. São vários pontos da casa com rachadura”, conta Rejane.

Critérios para inclusão ainda não foram divulgados

 

Procurada, a Braskem informou que o acordo prevê a inclusão de novos imóveis mediante evolução de risco.

“Conforme definido em acordo assinado entre os ministérios públicos Federal, Estadual, defensorias públicas de Alagoas e da União e a Braskem, os imóveis localizados em áreas adjacentes ao mapa de risco definido pela Defesa Civil poderão ser avaliados por uma junta técnica, a pedido do morador. Se constatada a situação de risco estrutural grave, tais imóveis serão incluídos no Programa de Compensação Financeira e Apoio à Realocação da Braskem. A junta técnica reunirá especialistas das defesas civis Municipal e Nacional e um perito indicado pela Braskem”, diz a empresa em nota.

Contudo, segundo a Defesa Civil de Maceió, os critérios para que as famílias sejam incluídas ainda não foram divulgados. “De acordo com o Termo de Acordo para Apoio na Desocupação das Áreas de Risco, celebrado entre MPF, MPE, DPU, DPE e a Braskem, os casos de evolução de feição nos imóveis – que não estão no Mapa de Setorização divulgado em junho de 2019, poderão ser inseridos no Programa de Compensação da mineradora após avaliação de junta técnica formada por representantes da Defesa Civil Nacional, Municipal e Braskem. Os critérios técnicos para inserção no programa serão divulgados assim que o protocolo for definido e validado pelos órgãos públicos que celebraram o termo de acordo.”

Ainda segundo o órgão municipal o monitoramento nas áreas é constante e acontece independente do acordo e que a situação de alguns imóveis já havia motivado a solicitação de realocação. “A Coordenadoria Especial Municipal de Proteção e Defesa Civil (Compdec) informa que os imóveis inseridos nas áreas de monitoramento do Mapa de Setorização de Danos e de Linhas de Ações Prioritárias continuarão sendo vistoriados/revistoriados pela Defesa Civil de Maceió, que avalia o risco, podendo recomendar a realocação e adotar os encaminhamentos necessários para salvaguardar a população”.

Fonte: Tribuna Independente / Evellyn Pimentel

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