Esporte

7 de dezembro de 2019 19:15

Pá de sal no campo do CSA

Com 97 anos de história, Campo do Mutange deixará de existir por causa da extração do sal-gema que prejudicou população do entorno, obrigada a evacuar toda a área próxima por risco de afundamento

↑ Clube azulino se soma à evacuação obrigatória de áreas no Mutange no entorno de 15 minas de sal da Braskem. Cerca de 400 imóveis no local também precisarão ser evacuados (Foto: Adailson Calheiros)

O fim de uma Era que durou 97 anos. Assim foi anunciado, recentemente, que o Campo do Mutange, o Centro de Treinamento Gustavo Paiva, no bairro homônimo, pertencente ao CSA, deixará de existir. A notícia foi confirmada devido aos problemas com extração de sal-gema identificados pelo Serviço Geológico do Brasil nos bairros Mutange, Pinheiro e Bebedouro.

Dessa forma, o clube azulino se soma à evacuação obrigatória de áreas no Mutange no entorno de 15 minas de sal da Braskem. Cerca de 400 imóveis no local também precisarão ser evacuados. Representantes da Braskem, Prefeitura de Maceió, Defensoria Pública do Estado (DPE) e Ministério Público Estadual (MPE) estiveram reunidos nesta semana para iniciar as tratativas.

O presidente executivo do Azulão, Rafael Tenório, confirmou a informação, durante várias entrevistas que concedeu ao longo de toda semana.

Tivemos uma reunião com diretores da Braskem e ficou decidido que temos que sair do Mutange. Já queremos planejar com a Braskem todas as condições para fazer a pré-temporada no dia 4 de janeiro já fora do Mutange. Nós devemos sair do Mutange, no máximo, no próximo dia 10 de dezembro”, disse o dirigente do clube.

O último jogo do Brasileiro será no dia 8 de dezembro. Após isso, a atividade do futebol será encerrada no Mutange e o setor administrativo vai ter que sair até o final do ano. Vamos organizar toda a mudança dos equipamentos para no dia 4 de janeiro, data de início da pré-temporada, estar encaminhando tudo para o campo do Nelson Feijó, na Serraria”, disse Rafael Tenório.

O CT do Mutange fez aniversário recentemente. Ele foi inaugurado em 22 de novembro de 1922.

Morador do Mutange no morro da “Verde” com visão privilegiada do velho campo do CSA, Jorge Elias garante que água está invadindo CT há algum tempo (Foto: Adailson Calheiros)

Estádio já foi o maior de Alagoas

Ao longo dos seus cem anos de existência, o Mutange, por enquanto ainda atual reduto azulino, não foi a única casa do CSA. Criado na Sociedade Perseverança e Auxiliar dos Empregados no Comércio, o clube teve sua primeira transferência de sede ainda nos primeiros anos após a sua criação, passando a operar em uma das dependências do Palácio Velho, antigo Palácio do Governo, em Maceió.

Em 1915, uma nova transferência, agora para um prédio situado na antiga Praça da Cadeia, no Centro da cidade, que pertencia ao Tiro de Guerra. O local ficou marcado como sendo o primeiro a receber treinos e jogos do clube de futebol. Na primeira partida realizada lá, o CSA venceu pelo placar de 3 a 0, um grupo de alagoanos que estudavam no Recife.

Só então em 1922, quando foi concluída a construção do Estádio Gustavo Paiva, no bairro do Mutange, é que o CSA começou a ser conhecido como Azulão do Mutange. A inauguração aconteceu em 15 de novembro de 1922, com o CSA enfrentando o Centro Sportivo do Peréz, uma das boas equipes do futebol pernambucano da época. Os azulinos venceram por 3 a 0. Odulfo foi quem teve a honra de balançar as redes do Mutange pela primeira vez.

O então “maior estádio de futebol do estado” foi palco de diversas glórias, bem como algumas decepções para a massa azulina. Entre vitórias e derrotas, títulos e perdas de troféus, o Mutange também marcou seu nome na história do futebol alagoano.

Em 1934, o Gustavo Paiva foi palco do primeiro jogo noturno do Nordeste. Na oportunidade, foram colocados cem refletores no Mutange, o que contabilizou um total de 34 mil velas. Também foi no atual centro de treinamentos do Azulão que se disputou a primeira partida internacional de Alagoas. Foi em 1951, quando o CSA empatou em 1 a 1 com o argentino Vélez Sarsfield.

Presidente do CSA, Rafael Tenório, já anunciou fim das atividades no velho campo do Mutange por causa do risco iminente de afundamento do local com aproximação da água da Lagoa Mundaú, em função da extração do sal-gema (Foto: Arthur Melo)

Primeiro jogo oficial com o rival CRB foi no Mutange

A primeira partida (não computada como oficial) entre CSA (ainda Centro Sportivo Floriano Peixoto) e CRB ocorreu no dia 7 de setembro de 1916. O campo que testemunhou esse embate ficava na Praça Jonas Montenegro, a atual Praça do Centenário, no Farol.

Mas a primeira partida oficial entre os dois grandes rivais alagoanos foi justamente no campo do Mutange e somente ocorreu em 4 de setembro de 1927, no campeonato promovido pela Coligação Esportiva de Alagoas. E foi o visitante indigesto, o CRB, que saiu vencedor pelo placar de 2×0, justo no Estádio Gustavo Paiva, dos azulinos.

Nos anos 1930, o CSA convidou o CRB para uma partida amistosa. O desafio foi aceito, mas o clube da Pajuçara solicitou permissão para incluir em sua equipe alguns jogadores de outros times, considerando que o jogo era amistoso. O CSA não aceitou e surgiu um desentendimento entre os dois clubes.

Os jornais não perderam a oportunidade e passaram a alimentar a divergência com declarações dos presidentes dos dois clubes.

Mas contendas e rivalidades à parte sobre histórias no velho campo do CSA, há outras que o lado sentimental aflora, principalmente em momentos de despedidas, como o atual. É o caso de Jorge Elias, 50 anos, dos quais 30 vividos no bairro do Mutange, bem defronte do velho campo do CSA. Ele lamenta a saída do time do coração que muitas viu jogar da “Verde”, um local do alto do morro, em frente ao estádio Gustavo Paiva e de vista privilegiada para o campo. A Verde era coberta por plantas, como mangueira, jaqueira, capim, em cima do morro, onde passava o trem e que hoje deu lugar ao VLT.

“Eu e muita gente vimos diversos jogos daqui, de graça, tomando uma cervejinha e vendo o CSA jogar e treinar. E agora é muito triste saber que vai ter que sair”, disse Jorge Elias.

Elias conta que foi funcionário do CSA, onde trabalhou como jardineiro, e jura que há mais ou menos 10 anos já sentia algo estranho no nível da água da lagoa que fica ao fundo do campo do clube azulino. “Olhe, essa água avançou uns 40 metros em direção ao campo. Não era assim antes, ela ficava bem mais pra lá”, garante, ao se referir aos motivos (extração do sal-gema) que fizeram o CSA ter que abandonar seu estádio e Centro de Treinamento.

Moradores do bairro já sentem efeito sem o CSA

A também moradora do Mutange Valdice do Carmo Lourenço, fanática pelo CSA, faz coro com os que lamentam a saída do clube, como a vizinha Jaudenice Cândido, e a filha Carla Kelly, depois de 97 anos de história. “Eu nasci e me criei aqui, tenho três filhos que nasceram aqui, têm vínculo com o CSA e é triste demais essa situação de saber que vai para tão distante”, ressalta Valdice.

Moradoras do bairro do Mutange defronte do campo do Mutange (ao fundo), Jaudenice (com a camisa do CSA), Valdice e a filha Carla Kelly lamentam saída do clube do coração do bairro (Foto: Adailson Calheiros)

E ainda aponta outra questão além do futebol que tende a se agravar com o problema do nível da lagoa avançando sobre o campo do time azulino. “Com esse negócio de extração de sal-gema, eles mexeram com a natureza, porque os bichos estão saindo do seu lugar natural para a pista e invadindo a casa de moradores. Já vimos iguana, tartaruga e até jacaré”, afirma. “Como se não bastasse, não podemos mais tirar nosso sustento da lagoa, que é a pesca, porque está tudo interditado pela empresa. É um problema sério porque não temos alternativa”, lamenta Valdice.

Massagista lendário se diz triste com saída do clube

Ele não era nenhum Garrincha, nem tampouco jogador de futebol, embora um dos seus principais instrumentos de trabalho tenham sido as carreiras que dava, além da indumentária contendo sprays, gelo e outros apetrechos na bolsa que usava no seu ofício. Mas nasceu com algo que se assemelhava ao imortal Anjo das Pernas Tortas.

Embora não tenha se notabilizado dentro de campo, fincou seu nome fora dele, ao marcar uma época e se tornou lenda, com sua forma peculiar de atender aos jogadores de futebol, ao menor sinal de contusão. A torcida – fosse a rival ou a do seu time – ia à loucura com as corridas do massagista das pernas tortas.

Cícero Lopes de Araújo, o Castanha, 75 anos, ex-massagista, foi por mais de 20 anos de carreira um dos mais conhecidos personagens do futebol por essas plagas. Foi massagista de clubes como Guarani do Poço e CRB, mas foi no CSA, clube do coração, onde passou 90% de seu trabalho.

Lendário massagista Castanha com sua ferramenta: ele morou na concentração que ficava no velho campo: “Muito triste” (Foto: José Feitosa / Cortesia)

Seu feito histórico? No dia 8 de abril, no clássico CSA x CRB, válido pelo quadrangular decisivo do 1° turno do Campeonato Alagoano de 1976, o grande destaque do jogo não foi um jogador. O centro das atenções daquele duelo marcado para sempre na história do futebol foi Castanha.

Ele impediu um gol do atacante Silva, do CRB, na reta final do duelo, depois dos 40 minutos do 2° tempo, ao entrar em campo, repentinamente, e chutar a bola que estaria prestes a ir para o gol do CSA.

Detalhe: o jogo estava empatado e o CRB precisava da vitória para passar ao quadrangular. Foi uma revolução à época com mais de 40 mil torcedores atônitos com a cena.

Mas coração azulino, ele se diz triste com o fechamento das portas do velho campo do Mutange. “Rapaz, eu morei lá na concentração nos 60, quando o presidente era o coronel Nilo. Foi uma parte da muito importante da minha vida, é muito triste”, conta o ex-massagista.

SEGUNDA CASA

O campo do Mutange foi também praticamente a segunda casa de uma família ilustre do reduto azulino. Faz parte de uma trupe que nasceu, cresceu e que ainda respira um oxigênio chamado CSA. Essa família tem o sobrenome “dos Santos Ângelo”.

É a história de quatro irmãos: Manoelzinho (o Mané Caranguejo), Jorge Siri, Peu e Chico. O cordão umbilical entre CSA e a família desses atletas tem início no longínquo ano de 1945, quando os pais dos quatro cavalheiros se instalaram numa pequena casa que ficava no quintal onde o time treinava e ainda treina nos dias atuais.

CT do Estádio Gustavo Paiva, o Mutange, depois de 97 anos de história, vai seguir o mesmo destino do campo do rival CRB, o Severiano Gomes Filho, localizado na Pajuçara, que deixou de existir (Fotos: Adailson Calheiros e Viviane Leão / Cortesia)

Foi assim que seu Antônio dos Santos Ângelo e dona Maria dos Santos Ângelo (os dois já falecidos) começaram a fincar uma bela história, quando se tornaram funcionários do velho Estádio Gustavo Paiva, no Mutange. “Isso foi em 1945. Cheguei lá bem novinha, com 19 anos de idade”, recordou a matriarca da família Santos Ângelo, em entrevista no ano de 2005 a este repórter.

O mais famoso da trupe foi Peu, cria do Mutange e que se notabilizou no Flamengo da Era Zico, tornando-se campeão mundial em 1981.

Goleiro Carijó para o ataque do Vélez Sarsfield no primeiro amistoso internacional no campo do Mutange, em 1951

Partida entre CSA e CRB nos anos 1950 no Mutange e de onde podem ser vistos a arquibancada lotada e torcedores assistindo na famosa “Verde”, em cima do morro, do lado externo do estádio

Primeiras arquibancadas do Estádio do Mutange (Gustavo Paiva), do lado da Lagoa Mundaú

Fonte: Tribuna Independente / Wellington Santos

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