Cidades

19 de outubro de 2019 09:05

“Impacto invisível do óleo é o mais violento”

Segundo oceanógrafo, danos à fauna causados pelas misteriosas manchas de petróleo cru devem repercutir por muito tempo

↑ Segundo Le Campion, hidrocarbonetos liberados pelo óleo vão para cadeia alimentar e uma hora chegarão à mesa (Foto: Adailson Calheiros / Arquivo)

A preocupação em torno do surgimento das manchas de óleo no litoral nordestino se justifica não apenas pelos danos visuais e possíveis impactos no turismo. Os ecossistemas devem sofrer danos crônicos e “violentos” pela absorção do material denso e de difícil remoção. Animais marinhos, aves, recifes e estuários estão “na mira” por serem os alvos mais sensíveis.

A explicação é do oceanógrafo Gabriel Le Campion. Segundo o especialista, o rastro “invisível” deixado pelas manchas de petróleo cru deve repercutir por mais tempo do que se imagina.

“Perigoso são os efeitos crônicos, isto é, os efeitos em longo prazo. Não temos a noção do que pode acontecer. De imediato, retirada as manchas os impactos visuais vão ser reduzidos. Porque o petróleo agarra, gruda na vegetação e deve ficar por muito tempo. O impacto é violento”, pontua.

Órgãos ambientais têm concentrado esforços para a limpeza das praias onde as manchas têm aparecido. No entanto, ainda não há monitoramento do que está acontecendo em profundidade.

“A fauna, os recifes, as áreas de manguezal, estuários, aves, aquáticos, répteis estão em risco. Geralmente se essas espécies não receberem ajuda são sufocadas pelo óleo. No caso das aves, isso pesa e ela afunda, morre afogada, porque não tem como voar. Na tartaruga ela vai ingerir, vai tapar a visão ou as narinas, e isso é prejudicial, leva a morte. Os organismos do recife como coral, caranguejo… isso vai sufocar com certeza porque o óleo fica agarrado”, diz Le Campion.

O oceanógrafo explica que mesmo que todas as manchas sejam retiradas, os danos devem permanecer repercutindo nos ecossistemas. Em outras palavras, a crise ambiental do litoral nordestino deve chegar também à mesa dos brasileiros.

“Os impactos observáveis a olho nu vão cessar no momento que esse óleo for retirado. Esse impacto visível vai acabar. Agora, o problema são os hidrocarbonetos na água, o óleo vai liberando. Agora você imagine que isso fica no ambiente e passa para a cadeia alimentar através do plâncton que são organismos microscópicos, que vão absorver hidrocarbonetos e mais na frente a gente vai comer essas substâncias”.

O monitoramento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) aponta que em todo o Nordeste, 29 animais foram “conhecidamente” afetados. “Sendo 2 Aves com óbito, 1 Ave viva, 11 Tartarugas marinhas vivas, 15 Tartarugas marinhas com óbito.”

Em Alagoas, o Instituto Biota contabiliza nove animais, sendo 8 tartarugas e 1 golfinho.

RISCOS PARA BANHISTAS

De acordo com o relatório de balneabilidade do IMA, emitido na sexta-feira (18), 63 pontos do litoral alagoano foram analisados, destes, apenas seis foram considerados impróprios por “questões recorrentes”, isto é, não relacionadas às manchas de óleo.

Le Campion confirma que não há risco imediato para banhistas. “Para balneabilidade não, porque normalmente essas manchas que ocorrem ficam à deriva na praia. O problema é as pessoas transitarem sobre ela. No mar não tem problema porque as pessoas não vão tomar banho se avistarem uma mancha. Aí não tem problema nenhum. O problema é transitar sobre as manhas porque fica com o pé cheio de piche”, reforça.

24 áreas atingidas, recolhidas 230 toneladas de resíduos e Coruripe em situação de emergência

Os mutirões de limpeza nas praias continuaram na sexta-feira e devem se estender pelo fim de semana. Além dos mutirões, o monitoramento em todos os pontos onde houve aparecimento deve continuar.

O Grupo Técnico de Acompanhamento (GTA) informou que aguarda a chegada de um navio com capacidade para retirada de óleo no mar, além de 100 fuzileiros navais, entre eles mergulhadores que devem inspecionar os corais.

Até agora, mais de 230 toneladas de óleo e areia contaminada foram encaminhadas à Central de Tratamento de Resíduos (CTR) do Pilar, único local do estado apto a receber os resíduos.

Segundo informações repassadas pela Central de Tratamento de Resíduos (CTR) do Pilar há o registro de 230 toneladas de óleo retirado da costa de Alagoas. Boa parte do peso também é causada pela areia contaminada que é retirada junto com o óleo.

Até o fechamento desta edição, o boletim atualizado do Instituto do Meio Ambiente (IMA/AL) apontava para 24 áreas com manchas de óleo na costa alagoana.

A Prefeitura de Coruripe decretou situação de emergência, no fim da tarde de sexta. Segundo o prefeito, Joaquim Beltrão, um comitê de crise foi criado para executar ações e continuar o monitoramento no município que vem sendo afetado há mais de 12 dias.

Na próxima segunda-feira (21), a Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE) vai realizar uma audiência pública para debater a crise ambiental. Devem participar representantes dos municípios atingidos, órgãos estaduais e federais, além de instituições de proteção ambiental.

“Foram convidados para a audiência os prefeitos dos municípios atingidos, o IMA, o Ibama, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Semarh), a Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a Marinha do Brasil, o Greenpeace e outras organizações não governamentais que cuidam do meio ambiente marinho, além da sociedade civil”, disse a ALE por meio de assessoria.

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